Alemanha, Comentário, Ficção, França, Memórias

A dúvida sobre Modiano e Jünger

Como lidar com a frustração com um autor, depois de ter sido incentivado por críticas ou leituras que o elogiaram? O livro merece uma segunda chance? Deve ser colocado na estante ou na caixa de livros a serem doados?

Enfrento esse problema com dois autores, o alemão Ernst Jünger e o francês Patrick Modiano.

Do primeiro, li “Nos Penhascos de Mármore” e “Tempestades de Aço” (ambos Cosac Naify). Do segundo, “Uma Rua de Roma” e “Dora Bruder” (ambos Rocco). A maior decepção veio com Jünger, enquanto o mais recente Nobel de Literatura deixou um gosto amargo, uma certa sensação de prazer interrompido.

“O mais belo livro que já li”

42112530Assim o francês André Gide chamou “Tempestade de Aço”. O livro é o relato do escritor de quando estava nas trincheiras da 1ª Guerra Mundial. É o olhar testemunhal que lemos, uma espécie de diário romanceado de um soldado, que traduz para as páginas o cotidiano da guerra, não só do teatro de operações, mas principalmente do seu bastidor, da vida banal e comum que as tropas enfrentaram.

Abre espaço para mesquinharias, disputas pelo pequeno poder, traumas e dilemas típicos de quem está na linha de frente. Sua prosa, claramente romanceada, soa monocórdica. Ainda que seja uma descrição vívida do conflito, muito particular – e, por que não, universal -, sobro a sensação de estar diante de um relatório.

11024086“Nos Penhascos de Mármore” é considerado sua obra-prima. Cria no romance uma mitologia própria, uma ficção sobre o totalitarismo. O narrador anônimo vive com seu irmão no Eremitério, lugar dedicado à meditação e ao trabalho intelectual, à observação da botânica. A palavra é a principal força da comunidade.

Até que o narrador percebe esse espírito se esvanecer diante do penhasco, por um grupo que pretende descer ao Eremitério.

O livro é o exercício máximo do estilo de Jünger, uma exploração da palavra muito maior do que a técnica. Na maior parte do livro, o leitor vai perceber que a trama fica deslocada diante da palavra, o que se traduz em grande beleza.

Li “Penhascos” logo em seguida a “Tempestades”. Talvez influenciado pelo resultado anterior, esta obra do escritor alemão não rendeu. Mas merece uma segunda chance, pois algumas passagens ainda ecoam na memória.

“Todos conheceis a profunda melancolia que nos acerca, ao recordarmos tempos felizes. Eles são irrevogáveis, e deles somos cruelmente separados por uma distância maior que todas as distâncias juntas. Quando tornam a brilhar, as imagens do passado revelam-se ainda mais atraentes: lembramos-nos delas como do corpo da amada que morreu, que descansa nas profundezas da terra e, à semelhança de uma miragem, nos faz estremecer num esplendor mais alto e mais puro.”

A recuperação editorial do Nobel

Modiano estava praticamente esquecido no Brasil até o final do ano passado. Fora um infantil (“Filomena Firmeza”, da Cosac), sua obra estava fora de catálogo em português. Até que vieram o Nobel e a redescoberta editorial do francês.

Além dos dois livros que li, a Rocco também publicou “Ronda da Noite”, enquanto a Record lançou “Remissão da Pena” e “Flores da Ruína”.

Resenha-Dora-Bruder-Patrick-Modiano-Livro-CapaLi os dois títulos de Modiano também em sequência, e ao final saí com a sensação de ter lido o mesmo livro. Comecei com “Dora Bruder”, cujo tema me chamou a atenção: a procura de uma garota desaparecida havia mais de 70 anos.

Modiano leu um recorde de jornal com um anúncio do desaparecimento de uma garota de 15 anos em 1941, em plana ocupação alemã em Paris. Anos depois, começou a pesquisar o assunto para tentar recuperar a história e descobrir o paradeiro daquela criança. Como linha mestra do romance, está a investigação. Lemos então relatórios policiais e trechos que parecem anotações de um bloco de pesquisa. Como pano de fundo, a ocupação nazista e a repressão vivida naquela época.

O grande problema é que o fio condutor atrapalha a reflexão e enfastia o leitor. O que seria um investigação se torna um desabrochar burocrático de um grande projeto literário – apesar das mirradas 137 do romance. Há a questão da identidade, do anonimato imposto aos judeus e dúvida de sua existência. Mas são pontos que se revelam frágeis.

Resenha-Uma-Rua-de-Roma-Patrick-Modiano-Livro-Capa“Uma Rua de Roma” também tem uma premissa interessante. Um investigador policial sofre de amnésia e tenta recuperar seu passado. Começa a procurar pistas e trabalhar como se fosse um caso alheio. Modiano insere elementos do romance policial, mas se aproxima mais do que Georges Simenon fez em “A Neve Estava Suja” (Companhia das Letras) do que das tramas detetivescas – essa comparação foi muito bem lembrada por Marcelo Coelho em resenha publicada na “Folha”.

Ao longo do romance, Modiano também lança mão de relatórios policiais, o que trava o andamento e pouco acrescenta ao romance. Já era um teste para o que faria em “Dora Bruder”, publicado nove anos depois, em 1997.

Se as premissas prometiam, os recheios decepcionaram, principalmente “Dora Bruder”. O escritor francês, que trabalhou com elementos reais em sua ficção, deixou-se tomar pelo espírito burocrático vivido por Josef K.

Como escrevi neste post sobre Alice Munro, não sou muito afeito a me entusiasmar por vencedores do Nobel. Talvez com a boa surpresa que experimentei com os contos da escritora canadense, tenha cedido ao prêmio de US$ 1 milhão e me enveredado pelo francês.

Resultado: quando outubro chegar, terei que ser mais contido. Os destinos dos livros: estão na estante. Por enquanto.

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2 thoughts on “A dúvida sobre Modiano e Jünger”

  1. Ganhei de uma amiga os dois livros de Modiano que você leu e mais o Remissão da Pena. Ela gostou muito, ficou encantada com Uma Rua de Roma, pelas referências a Paris (e disse que aos 60 anos não vai mais guardar livros, por isso me dará todos os que ler). Contardo Calligaris também elogiou Modiano em sua coluna na Folha. Enfim, vamos ver o que acho. Mas essa decepção com grandes autores acontece mesmo. Não esqueço o enfado que senti ao ler Auto-da-fé, de Elias Canetti, que acabei deixando pela metade, e mais recentemente com A Náusea, de Sartre, que raramente engrenava. Faz parte desse universo maravilhoso que é a literatura. Estou voltando a Márai, depois de As brasas. Já li Libertação, que achei interessante, e estou às voltas com De Verdade, que ainda não engrenou (mais por culpa do meu sono à noite do que pelo livro). Precisamos de uma mesa de bar para conversar sobre tudo isso, meu caro.

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    1. Eu namorei esses dois livros do Márai, mas não comprei. Achei até livros novos nas livrarias de rua aqui de BH. Fiquei com a sensação de não querer me decepcionar após ler As Brasas – dizem que De Verdade é seu melhor livro. Vou deixar mais para frente. E, claro, essa mesa faz falta. mas ela vai surgir.

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