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Por que os loucos escrevem livros tão bons? Porque sim

10868103_1558177167769247_7274320018156881776_n“Por que os loucos escrevemos livros tão bons?”

A pergunta autorreferente chamou a atenção assim que vi em uma rede social. Não era somente uma questão, mas abria espaço para um livro, do escritor e psicanalista Tiago Franco. Tinha sido recomendado com certa veemência por Ricardo Lísias, o que foi o gatilho para que eu comprasse.

O livro homônimo à pergunta, posso dizer, é um daqueles que te soca e não deixa espaço para responder. Poucos são brutais e provocativos como esta coleção de contos que a e-galáxia lançou – a editora está realizando um excelente trabalho de curadoria literária, talvez o melhor do Brasil nos últimos tempos.

O conto que dá título ao livro é uma pequena joia da literatura brasileira. Franco intercala as histórias do dramaturgo Qorpo Santo e do filósofo Friedrich Nietzsche, uma narrativa que mistura ficção e realidade de forma única. O quanto Franco importa da realidade para o conto? Tanto faz, nem vale a pena se preocupar com isso. Não há explicação. Não é ensaio, não é ficção, não é biografia. É sim literatura com uma carga de frescor e provocação que faz o leitor se perguntar: por que ele escreve tão bem?

O blog não fez essa pergunta a Franco – não diretamente, com se verá na entrevista abaixo. O que me importava mais era saber como ele construiu um arcabouço literário que chegou ao livro, que ainda brinca com as vidas de Vargas Llosa, Italo Svevo, Borges e Cortázar. Os duplos são fundamentais na prosa de Franco – ele explica tudo na conversa.

Se pensarmos que grandes editoras recusaram o livro por causa das citações, ficamos com aquela dúvida: quanta gente boa está nas sombras porque falta ousadia nas casas editoriais? Como conseguiram recusar algo tão, bem, esqueçamos moderno, algo tão bem arquitetado, escrito e provocativo?

Há de se dar o parabéns para a e-galáxia, que teve coragem para lançar o livro – mesmo que seja somente na plataforma digital, o que não pode impedir ninguém de ler, até porque ele custa meros R$ 3,90 – em algumas lojas, pode chegar a R$ 4,40.

Leia a entrevista e vá comprar o livro. Duvido que você vá ler algo tão forte como este “Por Que Os Loucos Escrevemos Tão Bons?”.

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O escritor Tiago Franco | Foto: Arquivo pessoal
O escritor Tiago Franco | Foto: Arquivo pessoal

Qual é a trajetória de “Por Que Os Loucos Escrevemos Livros Tão Bons?”?
O livro começou a ser escrito quando eu ainda morava em Paris, onde fiz estudos em psiquiatria e psicanálise. Em paralelo ao meu mestrado, que tratava sobre a psicopatologia do “duplo”, surgiram os contos, que também remetiam ao mesmo tema que eu desenvolvia na universidade, porém sob outra perspectiva. O assunto já me interessava bastante quando comecei a pesquisar sobre os autores que dedicaram alguns dos seus trabalhos à temática do duplo, como Maupassant em “O Horla”, Dostoiévski em “O Sósia” e Oscar Wilde em “O Retrato de Dorian Gray”. Então, havia um viés acadêmico e outro literário em minhas pesquisas. De certa forma, acho que o livro pode ser considerado o duplo da dissertação. Bem, talvez o mais correto seria dizer o contrário: a dissertação é o duplo do livro.

Encontrei poucas referências sobre o livro. De quando é a forma final, essa que foi publicada pela e-galáxia? Houve interesse por editoras para lançá-lo em versão impressa?
Fiz uma primeira edição em 2010 pela Clube de Autores e depois a atual pela e-galáxia, finalizada ano passado. Os contos são essencialmente os mesmos, apenas reescrevi alguns deles preocupado não tanto pelo conteúdo quanto pelo aspecto formal dos textos. Houve interesse de algumas pequenas editoras do Rio há alguns anos, mas eu teria que fazer certas concessões em relação aos textos, o que não me agradou muito. Preferi então aguardar um pouco mais até que surgiu a e-galáxia, que se interessou de imediato pela proposta do livro.

Como você chegou até a e-galáxia? 
Eu conheci a e-galáxia através das redes sociais e de matérias de jornal sobre editoras virtuais. O que me interessou de início foi que a editora não publicava apenas autores iniciantes, mas também escritores consagrados que publicavam seus trabalhos, digamos, menos comerciais em formato digital. Alguns trabalhos que talvez não tenham despertado o interesse das editoras tradicionais.

Até que ponto o livro digital e as plataformas em que o autor tem mais liberdade podem ajudar o escritor a publicar? Eles livram o autor de amarras editoriais?
Acho interessante o surgimento das plataformas digitais, porque elas encurtam o caminho entre a obra e o leitor, que é em última instância quem vai determinar se uma obra é viável ou não, e não o parecer frio de um técnico, que decide o que merece ou não ser publicado. Isso me faz pensar nas recusas que grandes autores sofreram quando iniciavam suas carreiras, como Marcel Proust ou Paul Auster. Outro aspecto não menos importante das editoras virtuais é a liberdade que concedem ao autor, cujas plataformas assimilam de maneira mais rápida e fácil trabalhos, por assim dizer, mais conceituais e menos comerciais.

Na sinopse, é feita uma referência ao tema do duplo. Mas eu gostaria que você falasse de outros dois temas, um presente nos contos “A Pedra”, “Wall Street Journal” e “Writer’s Block”, a impotência, e outro em “O Autista Literal” – o isolamento.
De fato, há outros temas presentes no livro além do duplo, como por exemplo a alienação, a incomunicabilidade, o adoecimento, para citar os mais óbvios, bem como a impotência e o isolamento que você mencionou. Eu pretendi, nesses contos a que você se refere, examinar tanto a impotência quanto o isolamento onipresentes na literatura deste início de século, que são questões centrais, a meu ver, para quem escreve ou pensa de maneira crítica sobre a literatura de ficção produzida no Brasil de hoje. Penso que esses temas são fundamentais para nossa reflexão, porque eles colocam em evidência a posição da literatura, confrontando-a com a sua própria impotência diante do real, assim como destaca seu isolamento crescente nesse mundo cada vez mais sedento por formas instantâneas e imagéticas de comunicação. Acredito que a literatura sirva justamente de contraponto a essa tendência moderna, garantindo um espaço cada vez mais raro de prazer estético e de autoconhecimento.

O escritor argentino Julio Cortázar, personagem de Tiago Franco
O escritor argentino Julio Cortázar, personagem de Tiago Franco

Seus textos são recheados não só de citações, mas de referências – Melville, Graciliano Ramos, Freud… Além de criar problemas com editoras, que papel essas referências têm na sua prosa?
Penso que as referências cumprem duas funções em minha escrita. A primeira função nesse livro era a de apagar um pouco os limites entre a ficção e a realidade, fazer o que eu chamaria de “ficção biográfica”, isto é, a partir de dados biográficos e de realidade, reinventar a vida dos “personagens”, a vida que poderia ter sido e não foi ou só foi possível através da literatura. A segunda, talvez, seja a de chamar a atenção do leitor para o aspecto digamos, artificial da literatura. Artificial não no sentido de algo afetado, postiço, mas no sentido de artifício, de que aquilo dali, apesar do aspecto “quase” natural, é um artefato, um engenho, um jogo entre o escritor e o leitor, que é momentaneamente suspenso, mas que permanece sempre um jogo (não é à toa que Borges e Cortázar são alguns dos personagens dos meus contos). Eu penso na expressão que Francis Bacon buscava em uma de suas telas, em que tentava reproduzir uma praia com uma onda se quebrando dentro de uma estrutura muito artificial. A ideia era conseguir fixar a praia e a onda, ambas recortadas dentro da composição, para que parecessem exageradamente artificiais e ao mesmo tempo muito mais reais do que uma simples marinha. Acredito que, de modo quase inconsciente, buscava esse mesmo efeito em minha literatura.

Caricatura de Qorpo Santo
Caricatura de Qorpo Santo

No conto que dá título ao livro, você ficcionaliza a biografia de Qorpo Santo e faz um recorte da vida de Nietzsche, além de colocar outras referências à loucura. Você também é psiquiatra. Como seu interesse pessoal acabou levando a esse conto?
Assim como Cortázar acreditava cegamente que Baudelaire era o duplo de Edgar Allan Poe, eu creio que Qorpo-Santo foi o duplo de Nietzsche. À parte minha convicção pessoal, tanto o filósofo como o dramaturgo viveram situações-limites e, apesar disso ou justamente por causa disso, excederam o gênio humano, ainda que suas contribuições fossem subestimadas e até mesmo menosprezadas em seu tempo. As semelhanças entre um e outro são incontornáveis e inúmeras: a vanguarda do pensamento, o gênio incomum, a incompreensão da época, o preconceito que sofreram, a humilhação pública a que foram expostos etc. Enfim, um sem-número de razões para ver aí mais do que uma mera e simples coincidência de biografias. Era mais do que natural, para um psiquiatra e psicanalista, o interesse que essa semelhança podia provocar.

Você encontra espaço para inserir humor nos seus contos, ainda que timidamente – como no final de “O Caso Borges”. É uma mistura complicada essa de humor e loucura?
Não acho que seja complicada essa mistura, ela está presente em outros contos, como por exemplo na sucessão de mortes e situações nonsense que afligem os médicos e psicólogos no conto homônimo ao livro. Mas esse humor, quando aparece, assume a forma de um esgar ou um riso nervoso. Nunca o de uma risada aberta.

22172066Em “Diário do Hospício”, Lima Barreto escreveu: “Não me incomodo muito com o Hospício, mas o que me aborrece é essa intromissão da polícia na minha vida. De mim para mim, tenho certeza de que não sou louco; mas devido ao álcool, misturado com toda espécie de apreensões que as dificuldades da minha vida material há seis anos me assoberbam, de quando em quando dou sinais de loucura: deliro”. Você conhece esse texto? Como avalia?
Lima Barreto nos dá um retrato em branco e preto do que era ser louco e internado no Brasil na época da Primeira República. Por coincidência, o mesmo local onde, 80 anos depois, fiz minha residência médica, no atual Instituo de Psiquiatria da UFRJ, na Praia Vermelha. Concordo que há humor no “Diário do Hospício”, mas a lembrança que mais me marcou no livro foi a do desamparo e do aniquilamento de Lima frente ao sistema de internação, que não era muito diferente do prisional, que havia lhe retirado toda a dignidade e o havia reduzido a quase nada. Quando o riso aparece, ele é esparso e convulso. Foi um grande escritor e também um grande homem, que não se levou tão a sério e soube rir de sua própria miséria.

Por que a vida de escritores interessa tanto a você? 
A vida dos escritores me interessa sobretudo na medida em que há certo fetiche em torno da figura do escritor característico de nossa época, onde há uma romantização da escrita literária, como se houvesse uma “vida de escritor”. Não que escrever seja um trabalho como outro qualquer, o que seria falso afirmar, mas desde sempre existiu esse mito prometeico do artista. Acredito que no mundo contemporâneo esse fenômeno tenha se tornado mais amplo. Eu não diria que minha intenção seja a de desconstruir o mito, afinal nos servimos deles, mas pretendo deformar um pouco a visão que temos desses ícones, usando a própria vida e a obra literária deles como elementos da ficção.

Como acha que Borges, Maupassant, Llosa, Kafka, Svevo reagiriam ao ler suas histórias?
Não sei, talvez me chamassem de louco. Diriam que não falo coisa com coisa. E não diriam mal.

O escritor Paul Auster, uma das influências de Tiago Franco
O escritor Paul Auster, uma das influências de Tiago Franco

Quem são suas influências literárias? 
Não sei dizer quais autores influenciaram minha escrita, mas, vou lhe dizer quem são minhas “angústias de influência”, como Harold Bloom bem definiu essa questão. Você mesmo pode tirar suas conclusões a respeito disso. As angústias nacionais: Machado, Campos de Carvalho, Moacyr Scliar, Rubem  Fonseca; as estrangeiras: Borges, Svevo, Romain Gary, Michel Houellebecq, Cormac McCarthy. As de sempre: Paul Auster, J.M. Coetzee,Thomas Bernhard, Enrique Vila-Matas e Pierre Bayard. Entretanto, se algumas angústias mudam com o passar do tempo, outras permanecem constantes.

A loucura ainda é pouco debatida?
Acredito que não. Apesar de a loucura ser um tema recorrente em literatura, acho que sua singularidade é muito propícia ao trabalho criativo, à elaboração de novas narrativas que, à maneira do delírio, podem ser compreendidas como uma tentativa de reconstrução de uma realidade desfeita que procuramos, em vão, refazer.

Me perdoe pelo clichê, mas por que os loucos escrevem livros tão bons?
E porque não?

E a autoficção está com os dias contados?
Penso que a autoficção não está com seus dias contados, não, longe disso. Acho que a ideia de suprimir os limites entre a ficção e a realidade, de fazer uma “ficção autobiográfica”, ainda que possamos elencar várias narrativas elaboradas sob esse pano de fundo, permanece nova e com perspectivas muito promissoras. A autoficção ainda está por ser escrita. Basta forçarmos os limites do self e termos coragem suficiente para ver onde isso vai dar.

O que você está escrevendo agora? Pode adiantar alguma coisa?
Eu terminei um romance ano passado, mas ainda estou fazendo algumas revisões no texto antes de enviá-lo para publicação. É uma narrativa fragmentária, desenhada a partir de múltiplos pontos de vista, dando a impressão de que nunca estamos diante de uma verdade única, mas de versões imperfeitas da realidade. Enquanto fazia o trabalho de revisão do texto, comecei a escrever uma narrativa breve, isto é, minha intenção era escrever uma novela de no máximo 80, 90 páginas, mas ela está crescendo e acho que vem outro romance por aí. Eu tenho verdadeiro fascínio pelas novelas, mais até do que pelos romances. São formas que apresentam múltiplas possibilidades e desafios. No entanto, ainda não encontrei o meio-termo entre os contos e os romances.

O que lhe atrai na novela?
Aparentemente, a novela é mais fácil de ser escrita, muitos a consideram uma espécie de conto com mais envergadura, porém é necessário ter um domínio técnico muito grande e uma verve incomum para se escrever uma boa novela. Ainda que persiga essa forma rara, ela ainda não está ao meu alcance. Assim como os personagens de “Por que os Loucos”, talvez eu seja um homem de extremos.

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