Bélgica, Comentário, Ficção, Policial/Suspense

Muito além do comissário Maigret

13569_ggGeorges Simenon é mais conhecido pelos romances estrelados pelo comissário Maigret. Mas os chamados romances psicológicos do escritor belga compõem um lado mais denso, em que as tramas e os personagens são mais cinzentos e imprevisíveis. A composição mais elaborada permite comparar seus títulos a “O Estrangeiro” e “A Náusea”, livros que perpassam este “A Neve Estava Suja” (Companhia das Letras).

Ainda que este romance não seja um policial característico, há uma aura de investigação e suspense que permite essa licença de gênero. Até porque está lá no índice para catálogo sistemático: ficção policial e mistério.

A trama começa com um crime. Na França ocupada, Frank Friedmaier acaba de cometer um assassinato. Ele mora com a mãe, que comanda um prostíbulo frequentado por oficiais alemães. O ponto de partida lembra “Crime e Castigo”, de Dostoievski, pois quase sem motivação e que busca questionar os limites da inocência e curiosidade.

Envolvido com bandidos dos mais diversos níveis, Frank conquista espaço e privilégios, sucesso que lhe sobe à cabeça e que poderá causar problemas. Uma paixão repentina, mais crimes e o romance caminha por questionar as liberdades e a repressão nazista, a relação promíscua que a França viveu na época da ocupação e a ética individual – a moça com quem flerta é ofertada para um amigo, chantagens se tornam corriqueiras.

É um grande livro, muito além das tramas rocambolescas e da sensibilidade de Maigret. Simenon entrega uma profunda investigação do ser e dos seus limites, dos efeitos da repressão e da conivência. É um romance a ser lido.

A Companhia das Letras, que republica as obras de Simenon, já lançou um segundo romance dessa estirpe: “O Quarto Azul”. Claro, já está na lista de desejos do blog.

*****

“Quando tudo acabar, quando o velho senhor, em sua alma e em sua consciência, julhar que tirou dele tudo o que é possível, acabarão com ele sem cerimônia, ele ainda não sabe onde, não conhece suficientemente bem o local; vão lhe dar um tiro nas costas, numa escada ou num corredor. Deve haver um porão que serve para isso.

Nesse momento, isso lhe será indiferente. Não tem medo. Seu único receio, seu pavor, é que isso aconteça depressa demais, antes da hora que ele decidir, antes de ele terminar.”

Anúncios

1 thought on “Muito além do comissário Maigret”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s