Comentário, Estados Unidos, Ficção

“Stoner”, da editora Rádio Londres, precisa de um recall urgente

42863297A contracapa do livro já informa que autores famosos gostam do livro. Então, fica fácil repetir em colunas e reportagens em jornal, revista e internet que Ian McEwan, Nick Hornby, Julian Barnes e Geoff Dyer são fãs de “Stoner” (Rádio Londres), de John Williams.

A nova editora é saudada pela imprensa e gente que fala de livros com entusiasmo, por lançar autores e livros inéditos no Brasil, esquecidos por outras casas, e que são classificados como de qualidade – caso, além deste “Stoner”, de “Viva a Música!”, do colombiano Andrés Caicedo – atual leitura do blog -, e de “Estação Atocha”, do americano Ben Lerner.

Os autores de textos noticiosos e opinativos se derramaram em elogios à saga de William Stoner. E o livro é mesmo muito bom. Um épico de 316 páginas que acompanha a vida de um professor de literatura no Missouri no início do século 20. Como muitos disseram, é a história de uma pessoa comum, alguém que saiu da pequena fazenda dos pais para estudar, trabalhou em lavoura, batalhou para se formar até ser professor na universidade. Casou, foi infeliz, teve um filho, perdeu os pais, teve um caso amoroso, criou polêmica na academia e morreu. Vida como ela é.

O que faz do livro especial é transformar essa história numa investigação profunda de nós mesmos. Simples, sem devaneios ou fluxos de consciência, Williams, ele mesmo um professor de literatura, buscou o comum para transformar em grande literatura.

O livro, lançado em 1965, estava esquecido até 2003, quando a “New York Review of Books” o republicou – essa informação também está na orelha do livro. Desde então, “Stoner” tem sido traduzido pelo mundo. E chegou ao Brasil com o mesmo barulho.

Mas o que ninguém contou até agora é que o livro precisa de um recall. Urgente. Ele está recheado de erros de revisão, aos montes, tantos que chegam a irritar o leitor e atrapalhar a leitura. Tantos que quase me fizeram largar o livro.

A sensação é que o livro impresso é a primeira prova da tradução. Até o capítulo 4, contei 65 erros em 74 páginas. Depois, desisti de contar, pois ou eu marcava os erros ou eu lia – mas não consegui deixar de marcar erros absurdos, como vírgulas que separam sujeito do verbo e concordância. Outros erros não têm nem justificativa. As vírgulas, tenho a sensação, foram jogadas aleatoriamente – sobraram em alguns lugares, faltaram em outros.

Exemplos:

“Eles atravessaram vários aposentos até uma sala grande onde (vírgula) a senhora Bostwick murmurou que (vírgula) ela e seu marido tinham o hábito…” (pág 69)

“Já era sete horas” (pág 113)

“A maioria dos convidados tinham” (pág 113)

“Stoner acompanhou seus convidados até a porta e permaneceu ali por alguns momentos, observou-o (singular) descendo os degraus e caminhando para fora da luz da varanda” (pág 115)

“Era como se ele tivesse descoberto um motivo de hostilidade que (vírgula) afastava-o irremediavelmente de Stoner” (pág 116)

“E as economias que acumulara lecionando no verão (vírgula) diminuíam cada vez mais” (pág 116)

“O perfume das flores que tinham acabado de desabrochar (vírgula) espalhava-se pelo ar e quente e úmido” (pág. 120)

E por aí vai. O livro teve um tradutor e três revisores. O resultado foi esse.

Pedi uma posição da editora. Eis a resposta, via Facebook:

“Todos os livros da Rádio Londres que ganham reimpressão vão passar por uma segunda revisão aprofundada, independentemente do número de imperfeições textuais que nos escaparam na primeira edição. Em outras palavras, quando um livro da Rádio Londres é reimpresso a revisão acontece automaticamente. ‘Stoner’ já ganhou uma nova edição que contará com uma tiragem maior e será enriquecida de um posfácio inédito escrito por um importante romancista contemporâneo. A previsão de lançamento da nova edição é início de abril de 2015 (daqui a pouco menos de 1 mês) e confiamos que qualquer erro de preparação/edição/revisão será sanado.

O objetivo da Rádio Londres é produzir as melhores edições possíveis. Mesmo assim erros de redação acontecem, erros que nunca vamos tentar justificar mas que são humanos. Esperamos que os leitores possam desculpá-los e apreciar nosso compromisso de saná-los e de fazer todo o possível para que não se repitam.”

O livro, muito elogiado pela imprensa e blogueiros, não foi lido. Pois é impossível não perceber que a edição entregue às livrarias não teve revisão. Nenhuma. Apesar da resposta da editora, acho que todos os livros da primeira edição deveriam ser recolhidos. Quem já comprou deveria receber um novo. Como um recall. Pois “Stoner” merece uma leitura fluente.

Então, se você, leitor, quiser comprar “Stoner” – eu acho que vale a leitura -, aconselho esperar essa nova reimpressão da editora, com o posfácio.

*****

“Viva a Música!”, minha atual leitura, também tem problemas, mas em número menor, muito menor. Mesmo assim, uma nova revisão seria de bom grado.

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23 thoughts on ““Stoner”, da editora Rádio Londres, precisa de um recall urgente”

  1. Olá. Fiz uma busca na internet sobre o livro e a editora, e acabei parando neste link. Vc está coberto de razão: a revisão (a julgar que houve) é medonha, horripilante, tenebrosa. Os erros se multiplicam às dezenas, possivelmente às centenas. Arrisco dizer que a média de erros, por baixo, é a de um a cada duas páginas (considerando-se haver diversas páginas com mais de um erro e outras, raras, sem erro algum), o que daria no mínimo uns 150, 160 lapsos, quantidade monumental e imperdoável (mesmo levando em conta que qualquer edição, por melhor que seja, contém equívocos, aceitáveis dentro de certa margem — os alemães, com aquela ortografia miserável, dizem que bem-revisado é o livro com um erro a cada dez páginas).

    Creio que o pior são os lapsos de pontuação, como vc bem apontou: são os mais incômodos, os mais irritantes, pois interferem na apreensão das frases. Há outros tb, de toda ordem: concordância, regência, conjugação verbal, ortografia (“fatiga”, p. ex., além de numerosas ocorrências de “caiam” e “saiam”, sem acento, em flexões do pretérito imperfeito). Uma pena, pois o livro é ótimo e a edição, no geral, é boa: boa capa, boa diagramação, bom papel, bom acabamento. Mas revisão, parece que simplesmente não houve. Presumo que os três nomes arrolados nos créditos signifiquem: (1) que houve uma divisão do livro (cada um leu cerca de um terço, em vez de ter havido três leituras na íntegra); (2) que, mesmo que tenha havido essa divisão, nenhum dos três é revisor profissional; (3) que não houve revisão alguma (por economia porca de custos, por pressa em lançar o livro, por amadorismo editorial) e que os nomes são laranjas, pura e simplesmente, apenas para preencher o crédito de revisão.

    Tb mandei uma mensagem (crítica, mas polida) à editora, via FB, mas ainda não obtive resposta. Sugeri que eles consintam na troca do exemplar da primeira edição pelo da segunda.

    A propósito: não conhecia o blog; achei-o bem legal e curti a página do FB.

    Abraço

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    1. Obrigado, Daniel. Independentemente do bom trabalho de acabamento e de escolha dos títulos, a edição de Stoner ficou muito ruim mesmo. A leitura irrita e por várias vezes pensei em abandoná-la. A editora, ao que parece, não se importou com os primeiros leitores, pois só vai corrigir na segunda edição. Vamos ter que ficar com um exemplar defeituoso ou gastar para comprar um correto – o que não será o caso. Um abraço

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  2. Oi, Ricardo! Como vai?
    Acabo de conhecer seu blog. Você é o autor das resenhas na Amazon? Saí pesquisando sobre a revisão dos livros da Rádio Londres depois de ver as resenhas, fiquei curiosa. Eu realmente não tinha ouvido nada ainda sobre estas revisões tão falhas, até agora era só elogio… Estava inclusive pra fechar a compra (A vida em espiral e Minotauro), mas desisti depois disso. Uma pena, pois fiquei bastante interessada em ler livros de autores menos centrais. Se alguém tiver notícia sobre esses dois livros, aliás, agradeço. Stoner eu baixei no Kindle em inglês mesmo, vai ser assim a leitura (mesmo porque estou tentando economizar um pouquinho. Hehehe!).
    Muito obrigada por apontar essas falhas! Os comentários aqui também foram muito úteis para me fazer decidir contra a compra, pelo menos por enquanto.
    Abraços!

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    1. Oi Olivia, não escrevo para a Amazon, pelo menos não que eu saiba :). Também não li uma crítica mais aprofundada sobre os livros. É uma pena, a editora tem boa curadoria. Stoner saiu muito ruim, Viva a música! melhorou, mas não sei quanto aos outros.

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    2. Não li Stoner, mas li Butcher’s Crossing, também de John Williams, e também publicado pela Rádio Londres. Embora o número de erros seja menor, também senti desconforto durante a leitura – falo aqui de erros igualmente grosseiros. De outro modo, me surpreenderam a qualidade do papel, a beleza da capa, e o acerto em cheio ao publicar a obra, que é fantástica.

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      1. Oi Pedro, quer dizer que Butcher’s Crossing também está com erros? Eles tinham melhorado nos livros seguintes, com edições bem dentro do que é normal no Brasil, mas não sabia que essa versão tinha ficado ruim. Pena. É uma boa editora, mas que erra em coisas básicas.

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  3. PS: Uma amiga que está lendo ‘Minotauro’, da Rádio Londres, comentou que o padrão é o mesmo. Erros medonhos!

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      1. Vocês viram os nomes dos revisores? Dos tres que vi, reconheci dois: Evelin (aquela moça que monitora as menções à Radio Londres nas redes sociais) e Gianluca (dono da editora e, pasmem, italiano). Acho que faltou $$$ pra contratar um revisor decente.
        Eles já contrataram uma boa revisora, eu soube. Mas pessoas como nós, que prestigiaram a editora desde o começo, sairão prejudicadas.

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      2. Três revisores e o resultado foi esse. Concordo com você, os primeiros leitores serão os prejudicados. Acho que o lançamento foi precipitado, não estavam prontos e publicaram bons livros em edições duvidosas.

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  4. Eu li Stoner, adorei o livro, mas as falhas de revisão são demais! Aliás, quem será o responsável pela digitação do primeiro texto, o que deveria ter ido pra revisão?
    Imperdoável falha de uma editora que se pretende cult. Além disso, tremenda sacanagem com os leitores ávidos, que compraram essa primeira edição tão irritante. Deveriam trocar os exemplares e acender uma fogueira com essa primeira edição vexaminosa. E eu nem pude expressar meu sentimento de vergonha alheia para a editora, pois cancelei meu facebook.
    (ah! gostei tanto do livro que estou lendo em inglês, pra me descontaminar rs)

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    1. Ana, concordo com você, os primeiros leitores, que apostaram na editora, serão os mais prejudicados. Compraram o livro e vão ficar com um “rascunho” nas mãos. Ou a gastar mais, como você, que foi atrás da versão em inglês. Pena. É um descaso com o leitor.

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  5. Olá,
    em “Viva a música!”: vacilo da revisão ao deixar passar “Viagem ao Delírio”, tradução literal do título espanhol de “The People Next Door”, filme de David Greene lançado em português como “A Culpa de cada um”.

    Curtido por 1 pessoa

  6. três revisores!!!

    ps: eu estava procurando na net mostras dessas falhas na revisão do Stoner, finalmente achei aqui. thanks!

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  7. Feio… Apesar do nome hipster da editora, eu queria ler o ‘A vida em espiral’, mas agora, pensando bem, acho que vou esperar um pouco até comprar um exemplar. Vai que o livro também tenha de passar por “uma segunda revisão aprofundada”.

    Agora, preocupante, na própria página da editora tem os links para as resenhas de Stoner publicadas em jornais grandes (geralmente, assinados por professores universitários). Nenhum texto trouxe uma mísera linha sobre os problemas na edição resenhada…

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