Entrevista

Uma homenagem ao ato de ler

O blog não faz referência à sua autora, não tem descrição nem aquelas ferramentas nas barras laterais. Constitui-se de duas coisas apenas: uma foto, normalmente de um livro ou de uma pessoa lendo, e um texto, que conta uma história a respeito da imagem. Não há links para redes sociais. Espartano, limpo e delicioso.

O Acordo Fotográfico trata disso: leitores e livros. De qualquer lugar do mundo. A maioria de Portugal, mas também do Vietnã, Brasil, Zanzibar, Hong Kong e mais algumas dezenas de cidades em todo o mundo. Já conquistou espaço na minha lista de leituras.

A autora, o blog foi descobrir na página do Acordo no Facebook. Lá, o nome só surge nos comentários de seus leitores: Sandra. Aparece também a primeira descrição: “livros, pessoas e fotografias numa homenagem ao ato de ler”.

Sandra Nobre, a autora do Acordo Fotográfico
Sandra Nobre, a autora do Acordo Fotográfico

O Capítulo Dois se entusiasmou com a ideia, muito provavelmente repetida em outros blogs por aí. Mas o que encontrou na página do Acordo o diferencia da maré que varre a rede para uma convergência de mesmice. Além da sensibilidade de Sandra no trato com seus personagens, os textos têm um quê de crônica, seja de costumes, seja de viagem, que tornam seu Acordo uma leitura obrigatória aos que minimamente desejam o inesperado, o incomum, o envolvimento.

Então, no contato com a autora, marcamos uma entrevista por email. As descobertas vieram nas respostas. Seu nome é Sandra Nobre, portuguesa que vive em Matosinhos, cidade da região do Porto. Hoje, trabalha numa livraria virtual e deu a volta ao mundo em 2014.

Suas respostas são igualmente deliciosas. Como a entrevista foi feita por email, decidi manter a grafia e os significados portugueses. As respostas não merecem uma intervenção brasileira. As fotos foram cedidas pela autora do Acordo.

*****

Como surgiu a ideia de registrar leitores e seus livros nas ruas, parques, cafés? E como dessa ideia você passou para um blog?
Julgo que a ideia surgiu no verão de 2010, no decorrer de um fim de semana que passei em Lisboa. Na altura estava a começar a fotografar mais a sério e num jardim fotografei, ao longe, uma senhora que lia, sentada num relvado, encostada a uma árvore. Penso que foi aí que a ideia do blogue sobre pessoas a ler em locais públicos surgiu. Mas até concretizar a ideia ainda passou algum tempo. Só mesmo em dezembro do ano seguinte, 2011, é que comecei a postar fotos e textos.

Quantas fotos você já publicou?
Não faço uma estatística do blogue, mas posso adiantar que postei até hoje cerca de 350 fotografias, a maioria tirada em Portugal, de leitores portugueses. No entanto, uma vez que tenho a sorte de viajar e que em 2014 fiz uma volta ao mundo, tenho fotos de países como Itália, Espanha, Alemanha, Brasil, Austrália, Timor-Leste, Malásia, Tailândia, Laos, Camboja, Vietname, China, Índia, Zanzibar, África do Sul, São Tomé e Príncipe e Cabo Verde. Mas para além dos nacionais destes países, em Portugal já me aconteceu fotografar belgas e sul-coreanos, por exemplo.

Qual o autor mais lido que você flagrou?
O mais lido é, sem dúvida, George R. R. Martin, autor da saga “A Guerra dos Tronos”.

O monge leitor de Wat Pho, o templo mais antigo de Bancoc, na Tailândia

Você conversa com os leitores sobre o que estão lendo, onde gostam de ler. Qual a reação deles quando você conta sobre o Acordo? Há recusas?
As recusas para participar no blogue são raríssimas. Recentemente, escrevi sobre uma senhora que conheci em Zanzibar quando lia o Corão. Foi extremamente simpática, conversámos muito, mas não quis que a fotografasse a ler. Estávamos no Ramadão e a questão da imagem era delicada. Obviamente, respeitei a sua recusa. Mas deixou-me fotografar o livro sagrado que trazia consigo. Falar sobre o que as pessoas estão a ler quando as conheço e sobre os seus hábitos de leitura é o grande propósito do Acordo Fotográfico. O que está na génese da ideia é precisamente isso: abordar pessoas para saber o que leem e porquê.

As últimas fotos que você postou são de leitores da Ásia. Qual era sua expectativa?
Fazer a volta ao mundo foi a realização de um sonho de longa data. Há muito que queria partir por um longo período de tempo. No entanto, para além de não cair no erro de um planeamento exagerado (deixar lugar para o imprevisto é fundamental!), também não parti com grandes expectativas no que diz respeito à leitura e aos leitores. Aliás, houve quem achasse que, por ir visitar alguns países muito pobres, provavelmente não encontraria gente a ler, por esse ser, supostamente, um hábito da países mais ricos. Mas a verdade é que fotografei pessoas dos locais a ler um todos os países onde fui.

Em vários dos seus posts, você transforma o texto em relato de viagem também. Era sua ideia?
Não, não era a minha ideia. Mas a verdade é que começou a acontecer de forma natural e eu não quis contrariar isso. Estou a encarar o relato de viagem como uma experiência que me poderá levar por outros caminhos. Acontece que, ao escrever sobre leitores de outros países, senti a necessidade de explicar como eram os locais onde se encontravam, como eram as cidades, os jardins, os cheiros, as cores e tantos outros detalhes. Neste momento, tenho muito poucas fotografias da viagem para postar, portanto em breve esse registo deverá terminar. Veremos o que acontece depois…

Qual sua relação com a fotografia? É só um hobby?
Sim, é apenas um hobby. Comecei a fotografar mais a sério em 2010 e em 2013 apostei numa pequena formação para aprender a fazer melhores retratos, que é aquilo que eu mais gosto em fotografia. Mas o meu gosto pela fotografia existe há muito. É uma expressão artística que sempre me fascinou (a par da pintura), por isso não foram poucas as exposições de fotografia a que assisti ao longo da vida. Aprende-se muito a ver.

Que livros você leu por indicação de seus personagens?
Nestes três anos de blogue foram alguns livros que acabei por ler depois de ter fotografado alguém com eles. Mas tenho de admitir que eram livros que já estavam na minha lista há algum tempo como, por exemplo, “Jane Eyre”, de Charlotte Brontee, “Anna Karénina”, de Tolstoi, ou “Inteligência Emocional”, de Daniel Goleman. Quando estive na África do Sul, embora não tenha fotografado ninguém a ler este livro, o legado de Nelson Mandela é de tal forma omnipresente que prometi a mim mesma que o primeiro livro que leria mal chegasse a Portugal seria a sua autobiografia. E assim fiz. “Um Longo Caminho Para a Liberdade” é dos livros mais inspiradores que alguma vez li!

Leitora na praça dos Leões, em Fortaleza

 

Você tem o blog desde dezembro de 2011. Nesses quatro anos, o que mais a surpreendeu no encontro com leitores?
O que mais me surpreendeu foram as ligações que estabeleci com os leitores. Chegaram à minha vida para ficar, embora a maioria deva achar que nem penso mais neles. Estou-lhes eternamente grata pelos minutos que me dedicaram, pelo que partilharam comigo e com todos aqueles que seguem o blogue. Foi este lado humano do projeto que mudou a minha vida.

Como você escolhe seu personagem? O que leva você a se aproximar do próximo fotografado?
Muito sinceramente? O meu estado de espírito. Há dias em que não me apetece fotografar ninguém, outros em que fotografo todos os leitores que encontrar.

Você não tem perfil no blog nem na página do Facebook. Por que esse anonimato?
Nunca tinha pensado nessa questão do perfil! Mas acho que não interessa muito… E depois, há a página no Facebook, que é de acesso livre. Lá, há uma fotografia minha. O que vou postando e o que escrevo no blogue devem chegar para compor uma ideia da pessoa que sou, não acha? 🙂 [o blog concorda ;)]

Você esteve no Brasil quantas vezes? O que achou? Teve problemas em usar sua câmera em lugares públicos? (em um post no blog, ela conta que recebeu o conselho de um amigo de que não deveria usar a câmera fotográfica em público numa referência a assaltos)
Julgo que foram nove visitas ao Brasil. Este é um amor antigo, que começou por influência dos meus pais, muitos anos antes de aí pôr os pés pela primeira vez, em 1995. Adoro o Brasil, com todas as suas qualidades e defeitos. É um país a que voltarei sempre com prazer e com o fascínio da primeira vez. Infelizmente, nas quatro grandes cidades por onde andei quase um mês em 2014 — Salvador, Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo —, não me senti à vontade para fotografar com a minha câmara maior, a Canon, que embora velhinha é a única que tenho. E como estava mesmo no início da viagem, não quis arriscar. Por isso, a solução foi sair de casa com a pequena Sony, compacta e discreta. De uma coisa me lembro bem: todos os leitores que abordei no Brasil, e não foram poucos!, aceitaram participar no Acordo Fotográfico.

Quais são os seus hábitos de leitura?
Antes da viagem, costumava dizer que não podia passar sem livros e que ficava rabugenta quando estava demasiado tempo sem ler. Até que parti para correr mundo e descobri algo sobre mim mesma que me surpreendeu muito: durante os seis meses da viagem não peguei num único livro! Não me lembro de um período da minha vida em que estivesse tanto tempo sem ler. Mas eu sei porque é que isso aconteceu: havia tanta coisa absolutamente espetacular e maravilhosa a acontecer na minha vida todos os dias que os livros simplesmente não me apeteciam. Mal voltei à vida normal, o hábito foi retomado de forma natural: trago sempre um livro comigo e leio todos os dias. É uma forma de continuar a aprender, a enriquecer, a viver novas experiências. Mas é também uma forma de continuar a viajar sem sair do lugar. É uma fuga ao quotidiano.

Mulher lê no Jardim da Cordoaria, no Porto

 

Que livro está lendo? E onde você está agora?
Neste momento estou em Portugal, sentada no sofá do meu apartamento em Matosinhos, no norte do país, onde vivo há quase 15 anos. E estou a terminar o livro “Projetar a Felicidade”, escrito pelo economista britânico Paul Dolan, que é professor de Ciências do Comportamento numa universidade londrina. Neste livro, Paul Dolan defende que “a felicidade é o conjunto de experiências de prazer e propósito ao longo do tempo” e discorre sobre essa ideia. Muito interessante!

O nome faz referência ao Acordo Ortográfico. Foi só uma referência ou tem algo por trás?
O nome Acordo Fotográfico é um trocadilho com o Acordo Ortográfico, sim. Na altura em que comecei o blogue, em finais de 2011, este assunto polémico estava ao rubro aqui em Portugal. O Acordo Ortográfico remete para as questões da língua e, logo, da literatura e da leitura, pelo que o não só teria piada como se adequava ao universo do blogue. Mas, para além disso, é importante saber que as fotografias que tiro aos leitores são sempre feitas depois de eu me apresentar e pedir autorização para fazer a fotografia. O acordo entre mim e o leitor é fundamental, daí Acordo Fotográfico também fazer sentido.

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