Comentário, Estados Unidos, Não ficção, Noruega

A guerra pelo olhar dos combatidos

Escrever sobre guerra é tema fundamental do jornalismo. Muitos argumentam que nesse gênero está a essência do jornalismo, em que o repórter é confrontado com o fato da forma mais cruel.

Michael Herr (“Despachos do Front”), José Hamilton Ribeiro (“O Gosto da Guerra”), Ryszard Kapuscinski (“Ébano”) são alguns nomes que traduziram conflitos em literatura.

livro a face da guerraMartha Gellhorn fez mais do que isso em “A Face da Guerra” (Objetiva). A compilação de artigos que escreveu ao longo de sua carreira, dos combates que antecederam a 2ª Guerra Mundial à invasão do Panamá, traz uma jornalista não olha só aos campos de batalha, mas principalmente às pessoas que vivem a guerra em casa, em sua comunidade. O livro se torna, então, uma obra pacifista.

Ela viveu o horror na Guerra Civil da Espanha, na Guerra do Vietnã e nos conflitos no Oriente Médio e na América Central. Possui um texto primoroso, um poder de observação raramente encontrado em jornalistas de qualquer área de cobertura. Sua vida foi marcada pelo casamento com Ernest Hemingway, assunto que preferia evitar após o rompimento com o escritor.

O livro, item da coleção Jornalismo de Guerra da editora Objetiva, é mais do que um volume sobre coberturas jornalísticas ou simplesmente uma coletânea de reportagens. Ele revela uma repórter na essência, só que traz embutido algo que poucos possuem: sensibilidade.”

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Escrevi esse texto em 2009, após ler o livro da jornalista. Foi uma leitura sobre guerra, mas não só sobre conflitos, estratégias e dramas das trincheiras. O que Martha Gellhorn fez mudou a forma como olhar esses eventos, pois não somente era uma mulher trafegando num ambiente masculino, mas porque dava espaço para quem não estava envolvido no confronto.

A norueguesa Asne Seierstad também busca esse olhar divergente. “O Livreiro de Cabul” e “101 Dias em Bagdá” (ambos Record) trouxeram histórias que trataram das guerras no Afeganistão e no Iraque, mas sob uma perspectiva diferente.

No primeiro, hospedou-se na casa do livreiro e de lá relatou como os afegãos recebiam a guerra. Foi seu livro mais polêmico, pois o tal livreiro resolveu contar sua própria história e discordar do retrato de Asne.

No caso do segundo livro, ela trabalhou como correspondente de guerra e relatou os ataques a Bagdá sob o olhar dos moradores.

IMG_2621Acabei de ler os outros dois livros da jornalista, “De Costas para o Mundo – Retratos da Sérvia” e “Crianças de Grozni – Um Retrato dos Órfãos da Tchetchênia” (também Record).

São dois livros que mostram a evolução da norueguesa no trato de temas complexos e de alto risco. “De Costas para o Mundo” teve duas versões antes da definitiva, a primeira em 2000 e a última em 2004. Asne voltou à região nas Bálcãs para rever seus personagens diante das mudanças que aconteceram nos países.

Ela conta, por meio de 13 personagens, histórias da antiga Iugoslávia e a partilha em vários países. Conversa com os sérvios e tenta transmitir como eles encararam o fim da antiga nação, a relação de amigos/inimigos e a perspectiva de futuro. Saudosos de Tito e muitos de Slobodan Milosevic, mostram uma vontade enraizada de ver uma Sérvia grande, autônoma e dominadora.

Em “Crianças de Grozni” (2007), ela vai à Tchetchênia para contar as histórias dos órfãos do conflito com a Rússia. Fala da ascensão de Putin e, da mesma forma que aconteceu nas Balcãs, como as ex-repúblicas procuram independência e enfrentam a resistência russa.

As crianças que ela encontra estão num orfanato, cuidado por um casal que perdeu a filha e resolveu se dedicar aos órfãos. São histórias comoventes, mas Asne não deixa escapar o contexto, há sempre referências históricas e da época em que os fatos aconteciam.

A escritora Asne Seierstad
A escritora Asne Seierstad

Sua prosa é muito próxima do romance, um exercício daquilo que Truman Capote chamou de não ficção.

Seu próximo livro se chama “One of Us” e trata de Anders Breivik, o homem que matou 77 pessoas numa ilha norueguesa. A Record deve lançar a tradução no Brasil em 2016.

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