Estados Unidos, Memórias, Obituário

David Carr, 1956-2015

81ZNX-gKjOLNão sei como o livro chegou às minhas mãos. Mas rapidamente se tornou uma leitura compulsiva e que me faz relembrá-lo regularmente.

A morte de David Carr, jornalista e colunista de mídia do “The New York Times”, me fez buscar “A Noite da Arma” (Record), sua autobiografia, dos livros mais corajosos e que deveria ser adotado como leitura obrigatória para jornalistas.

Carr refaz sua vida como se fosse um repórter apurando a biografia de uma pessoa. Ele mesmo investiga seu passado e as histórias, muitas delas assustadoras, do personagem que foi um viciado em drogas e bebida, principalmente crack, e que destruiu relações sociais e familiares e quase acabou com sua carreira.

Sobre o livro, disse: “O que eu descobri foi que minha memória estava errada. As pessoas só lembram o que querem sobre elas mesmas. O livro é um pouco sobre esse truque da memória. Este livro foi muito constrangedor, por ser muito pessoal. Mas o fato é que tudo que você escreve no Twitter passa, as notícias passam, mas os livros ficam”.

Uma das passagens mais chocantes é quando leva sua filha, ainda bebê, para comprar drogas. Ele deixa a filha no carro e se dirige à casa do traficante, carregado de culpa por abandonar a criança.

Carr não deixou nada de fora, nem trechos mais desabonadores. As ameaças violentas a amigos, a degradação física, as submissões para conseguir drogas, a busca pela redenção familiar e a recuperação do vigor profissional, tudo isso Carr investiga e apura com o faro de repórter, sem deixar nada de lado. Mais do que uma biografia, é uma grande reportagem.

Carr havia se transformado nos últimos anos num excelente colunista de mídia e cultura- estava no “New York Times” desde 2002. Era também uma espécie de cara do NYT – foi um dos principais personagens no belo documentário “Page One” sobre o jornal e a revolução digital no jornalismo.

O jornalista morreu aos 58 anos, após um mal súbito na redação do NYT.

O jornalista David Carr | Chester Higgins Jr./The New York Times
O jornalista David Carr | Chester Higgins Jr./The New York Times

*****

“As coisas andaram rápidas. Após uma parada na minha mesa para recolher as coisas, desci de elevador e saí para uma manhã brutalmente iluminada. Como por um passe de mágica, encontrei meu amigo Paul, que caminhava pela calçada bem em frente ao edifício do jornal, parecendo devastado, com um casaco de couro e óculos escuros. Pelo jeito, ainda nem tinha dormido. Eu disse a ele que havia sido despedido, o que era verdade, mas não contei a história toda. Cantor folk de talento, com muitas canções virulentas sobre o preço de trabalhar para os poderosos, Paul entendeu logo. Ele tinha consigo algumas pílulas de procedência duvidosa – nem nem ele entendíamos nada de pílulas. Talvez fossem de relaxante muscular. Tomei todas.”

“Sem pretensões, pode-se dizer que nasci para ser bêbado e que meramente estava atuando como um bêbado, depois de muitos anos em remissão. Mesmo sem levar em conta as questões de saúde, a sobriedade fará boas coisas pela sua vida se você seguir algum tipo de programa de recuperação, e praticamente qualquer um deles serve. O meu programa começa e termina com uma admissão de impotência, com frequentar reuniões e, quando me meto em alguma confusão, com um poder maior que eu. Fique com essas coisas básicas e você pode viver de forma coerente, ficar casado e fora da prisão. Mas o que você não pode fazer é mudar de canal. Se você está repleto daquele tédio tranquilo, não dá para ir até o armário e tomar vários copos de bebida, ou puxar um fumo na varanda. A sobriedade significa que onde quer que você vá, ali você está, pelo sim e pelo não.”

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Separei alguns textos que valem a pena serem lidos:

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2 thoughts on “David Carr, 1956-2015”

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