Biografias/Perfis, Brasil, Entrevista

Os detetives em formato de almanaque

Almanaques existem aos montes. Nostálgicos. De filmes a ver, de músicas a ouvir, de lugares a ir. De recordes. Mas faltava um que colocasse em ordem um dos grandes fetiches da humanidade: a literatura policial

capa_final_pA jornalista Ana Paula Laux e o professor e também jornalista Rogério Christolofetti resolveram essa questão. De Florianópolis, pesquisaram, escreveram e lançaram “Os Maiores Detetives do Mundo”, um almanaque que elege e perfila 60 detetives. Com um detalhe. Não ficaram restritos à literatura. Avançaram pelos quadrinhos – estão lá Dick Tracy, Batman e até Scooby doo -, espiões – o agente 86 e James Bond marcam presença – e TV – como esquecer que Colombo, Kojak, As Panteras, o Casal 20, MacGyver, Monk e Gregory House são detetives, inspirados nos personagens livrescos e na tradição que começou com Edgar Alan Poe e seu Auguste Dupin, de 1841?

Os verbetes têm uma configuração básica: história da criação do personagem, seu perfil, curiosidades, seção multimídia (aparições do detetive), uma pequena bio do autor, principais livros e frases do personagem. Faltou indicar os livros que foram lançados no Brasil.

O livro é dividido em 12 capítulos. Alguns temas mereceram ocupar a divisão inteira, caso de Sherlock Holmes, Agatha Christie e os autores suecos. De forma geral, os detetives são agrupados por características, como os que fizeram fama na TV, os dos quadrinhos, os brasileiros, espiões e os durões.

O almanaque é assinado por Chris Lauxx, o pseudônimo que o casal escolheu para a empreitada. “Pensamos em usar os dois nomes, mas, como o Rogério [Christofoletti] publicou livros na área acadêmica, optamos por uma segunda alternativa. A ideia do pseudônimo veio por ser um expediente popular na literatura policial. Hoje em dia, é um recurso mais estético, achamos divertido”, diz Ana Paula, em entrevista ao blog, referindo-se a Lars Kepler, o nome adotado pelo casal sueco Alexander Ahndoril e Alexandra Coelho Ahndoril para escrever os livros do detetive Joona Linna.

Ana Paula e Rogério comandam o site Literatura Policial, referência para leitores do gênero, com publicações de resenhas, entrevistas e notícias.

“Os Maiores Detetives do Mundo”, que começou com trabalho de conclusão de curso de Ana Paula, foi uma ação independente. O casal lançou apenas no formato digital, pela Amazon. Para ler, é preciso ter o Kindle ou o aplicativo do leitor para tablets, celulares e computadores.

Ana Paula conversou com o blog para falar da iniciativa e literatura policial. A conversa vai a seguir.

Chris Lauxx, o casal formado por Rogério Christofoletti e Ana Paula Lauxx | Foto: Paulo Henrique Wolf
Chris Lauxx, o casal formado por Rogério Christofoletti e Ana Paula Laux | Foto: Paulo Henrique Wolf

*****

Você escreveu o livro em parceria com o seu marido. Com foi esse processo? Quais as dificuldades de escrever a quatro mãos?
Foi um processo trabalhoso, porém produtivo. Antes de pensarmos na parceria, eu já vinha escrevendo alguns textos como uma espécie de passatempo. Quando vi que havia material para um livro, tivemos a ideia de trabalharmos juntos. Fizemos a divisão de personagens com a seleção dos capítulos. Cada um escolheu aqueles que mais gostava ou se identificava de alguma forma. Depois, trocamos e revisamos, alterando e adicionando trechos e informações.

Como foi feita a seleção dos detetives? O que foi determinante para deixar alguns nomes de fora, como o detetive de Fred Vargas, por exemplo?
Pois é… muitos ficaram de fora! A seleção cronológica priorizou os pioneiros e, na sequência, aqueles que mais fizeram sucesso no Brasil. Como incluímos não apenas detetives da literatura, mas também do cinema, quadrinhos e televisão, nem todos conseguiram entraram. Mas eles estão lá na linha do tempo, nas últimas páginas do e-book. Inclusive o delegado Adamsberg, da Fred Vargas.

Por que a restrição a 60 nomes? O livro digital não permitiria ampliar essa lista?Permitiria, sim. É que a ideia inicial não era lançar o trabalho como um livro digital e, sim, físico, no formato de almanaque. Nesse contexto, 60 detetives renderiam aproximadamente 300 páginas. Claro que tudo dependeria da diagramação. Acreditamos que esta é uma boa introdução ao universo dos detetives.

Ele será atualizado? Terá novas inclusões?
Temos vontade de atualizar. É um projeto futuro, com certeza. O livro eletrônico permite isso.

Por que incluir na lista de detetives da TV e do cinema e nomes como House?House é um personagem amplamente inspirado em Sherlock Holmes, muito atraente pra quem é fã de romances policiais, de mistérios, de aplicar o raciocínio pra encontrar a solução de algum problema. Usamos detetives de muitos segmentos pra imprimir uma diversidade ao livro. A ideia é mostrar que o gênero policial transcende as páginas dos livros e contagia outras mídias e formas de cultura.

Vocês estão escrevendo um romance policial. Pode adiantar alguma coisa sobre o livro?
Estamos escrevendo há mais de um ano, mas não está pronto ainda. Já temos a trama, os personagens e muitos detalhes. Trabalhamos diariamente nele, sempre que o tempo permite. Eu posso adiantar que é uma história de detetive em que a protagonista é uma jornalista, que mora em Florianópolis e que se vê perseguida por um assassino desconhecido… Tudo se passa em 2009, e envolve uma intrincada trama política. Ainda não temos editora.

Você se interessa mais pelos detetives ou pelos autores? É possível dissociá-los na hora de escolher um livro?
Gosto muito do estilo, da marca pessoal do autor. Acho que, se ele não consegue dar vida ao personagem, não tem como tomar gosto pelo detetive que cria.

O almanaque começou como um trabalho de pesquisa. E antes disso, qual era sua relação com a  literatura policial? Sempre foi uma leitora assídua?
Sempre adorei literatura policial, mas leio vários estilos. Gostava muito de Rimbaud e Rilke quando era adolescente, adorava poesia. Depois, passei uma época lendo só clássicos. Como jornalista, não imaginei que fosse trabalhar com literatura policial. Gosto muito do que faço.

A escritora Agatha Christie, listada no almanaque e uma das leituras preferidas de Ana Paula Lauxx
A escritora Agatha Christie, listada no almanaque e uma das leituras preferidas de Ana Paula Laux

O que mais a atrai nesse gênero?
Acho que é um tipo de literatura que pode te fazer refletir, entretém e emociona. Tem pra todos os gostos. Gosto muito das tramas com viés histórico, adoro as descrições de época nos livros de [Georges] Simenon e Agatha Christie, por exemplo. Em “O Caso Neruda”, Roberto Ampuero faz uma descrição sensacional da tensão nas ruas de Santiago em tempos de golpe.

Cite seu top 5 de detetives e de autores.
Tenho um carinho pelo Hercule Poirot porque ele foi o primeiro personagem que eu conheci. Admiro o estilo do Garcia-Roza, Henning Mankell, do Chandler. Mas não resisto mesmo aos detetives mais antigos, como Lupin, Dupin, Padre Brown, Ellery Queen, Miss Marple. Adoro uma velharia…

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