Brasil, Cinema, Entrevista

Os homens por trás da Boca do Lixo

Da Boca do Lixo, muitos conhecem Aldine Müller, Helena Ramos, Nicole Puzzi, Matilde Mastrangi. Até atores como David Cardoso. Mas e Walter Wanny, Rodrigo Montana, Castor Guerra, Giorgi Attili, Virgílio Roveda e John Doo?

São técnicos, diretores, fotógrafos, montadores que deram corpo às centenas de filmes produzidos na Boca do Lixo, região do centro de São Paulo, cuja “capital” se localizava na rua do Triunfo, onde nasceu uma indústria informal de cinema nos anos 70 e 80.

Nunca tiveram seus nomes ditos e suas carreiras contadas. Até Matheus Trunk resolver escrever sobre eles. Jornalista, Trunk criou a Zingu, revista eletrônica dedicada ao cinema feito em São Paulo e já desativada – os arquivos ainda estão disponíveis e valem a visita.

De lá, veio o interesse para investigar aquela indústria que foi um dos maiores entretenimentos do Brasil nos anos da ditadura. Com circuito restrito, levava milhares às salas de exibição. Promoveu mulheres ao status de estrelas. Mas faltava contar a história dos profissionais que produziram heroicamente o cinema mais popular do país.

42158807Trunk escreveu dois livros que já permitem conhecer melhor aquela indústria. “Coringa no Cinema” (Giostri) é o perfil de Virgílio Roveda, uma espécie de faz-tudo do cinema: figurante, eletricista, assistente de câmera, iluminador, diretor de fotografia, assistente de direção e produtor. Trabalhou em mais de 50 produções, ao lado de nomes como José Mojica Marins, o Zé do Caixão, Rogério Sganzerla, Ozualdo Candeias e Pio Zamuner, parceiro de Mazzaropi.

Com Mazzaropi, participou de dez filmes. Com Mojica, foram 15, entre eles, os clássicos “O Estranho Mundo do Zé do Caixão” e “Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver”.

capa aberta Dossiê Boca - Matheus Trunk.inddJá “Dossiê Boca: Personagens e Histórias do Cinema Paulista” (Giostri) é uma coleção de reportagens com os personagens da Boca, os profissionais que ficavam atrás da câmera. Das entrevistas, surgem devoção ao cinema como ofício, histórias de pessoas que foram a São Paulo em busca de uma oportunidade, na época em que a migração ainda era a única solução de milhares de pessoas, e acabaram se encontrando no cinema da Boca.

Tem a história de Walter Wanny, talvez o montador de filmes com mais produções no currículo:  68 no ImDb, 74 em contagem informal.

Já Rubens da Silva Prado começou, ainda criança, como faxineiro de cinema até chegar a produzir faroestes na Boca. Sim, por mais que falar da Boca do Lixo remeta às pornochanchadas, muitos produtores fizeram outros gêneros, com sucesso.

De comum entre todos, a chegada do pornô explícito, mais barato e rápido de fazer, nos anos 80. Foi a derrocada da Boca, que se viu obrigada a encher as salas de exibição com esses filmes – uma história similar à contada pelo cineasta Paul Thomas Anderson em “Boogie Nights”.

Quem ficou na Boca teve que se render ao explícito. As estrelas debandaram, os homens ficaram, mas aos poucos foram desistindo. Até que a Boca do Lixo acabou.

Trunk conta essas histórias nesses livros. Abaixo, ele fala mais sobre esse cinema, a importância desses personagens para o cinema nacional e o avalia a filmografia da Boca.

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Matheus Trunk (direita) entrevista o cineasta Rodrigo Montana | Foto: Acervo pessoal

O que o levou a pesquisar o cinema da Boca?
Essa pergunta é um tanto complicada. Sempre gostei de cinema brasileiro e fiz jornalismo para trabalhar pela memória cultural. Lembro de ter conhecido a obra do [sambista] Germano Mathias com 14 anos, quando relançaram “Ginga no Asfalto” em CD e fiquei maravilhado. Ali, existia todo um mundo novo para mim e o cinema brasileiro tinha tudo isso. Antes do Canal Brasil, via algumas coisas na TV Cultura e no saudoso Canal 21. Lembro de ter visto “Vai Trabalhar, Vagabundo”, do Hugo Carvana, nessa emissora inclusive. Sempre fui fascinado por esses personagens brasileiros populares. Quando assinei o Canal Brasil, fiquei fascinado pelo Wilson Grey. Eu queria ver todos os filmes em que ele aparecia. Com o Canal Brasil conseguia ver longas-metragens de todas as fases do nosso cinema. Nisso, descobri a Boca.

Fale da experiência da Zingu, sua revista eletrônica.
Fundei a Zingu no primeiro ano de faculdade e foi quando me aproximei das pessoas do cinema paulista. Todo mês tínhamos um cineasta ou um personagem da nossa cinematografia explorado pela publicação. Comecei a conhecer as pessoas, me tornei próximo delas e os livros acabaram sendo uma consequência disso tudo. Os dois livros nada mais são que frutos de todos esses anos de convivência com essas pessoas. São homens que confiaram muito em mim e ninguém viveu tanto tempo com eles. Convivi horas e horas com essas pessoas, me tornando muito próximo de alguns. Bem mais próximo que até de pessoas da minha própria família.

Quais as dificuldades de pesquisar essa fase do cinema brasileiro, especialmente o produzido na Boca?
Todas. As cópias que restaram dos filmes são péssimas. A maioria é tirada de VHS. As próprias pessoas que trabalharam na época possuem poucos registros, como fotos, cartazes, lobby cards, matérias da época. Os herdeiros dos que morreram também pouco sabem. Infelizmente, o Brasil não preserva sua memória cultural. É gozado que temos mania de copiar os norte-americanos. Mas não copiamos deles as melhores coisas. Os norte-americanos preservam tudo sobre o passado deles. Veja quantos livros existem sobre cantores norte-americanos como Frank Sinatra, Elvis Presley, Johnny Cash. Mas não vejo essa falta de preservação somente em relação à Boca ou ao cinema brasileiro. Acontece em todas as áreas da nossa cultura: literatura, artes plásticas, rádio, música e inclusive o futebol.  Por exemplo, o Nelson Gonçalves foi o cantor de maior sucesso do país durante vários anos. Não existe nenhum livro decente ou museu sobre ele. Pouquíssima gente se lembra do Capitão Furtado. Foi ele quem transformou os irmãos Perez em Tonico e Tinoco. Quase apanhei de um amigo de esquerda certo dia quando defendi o Capitão Furtado. Coitado. Ele achava que eu estava falando de algum militar de alta patente ou algum defensor da Ditadura Militar.

O preconceito contra a Boca ainda existe?
Sim. Sempre existiu um preconceito gigantesco contra a Boca. Por isso, os dois livros são pioneiros em abordar de maneira adulta os personagens. Pela primeira vez, eles são tratados como pessoas normais, com virtudes e defeitos. Não são heróis e não são bandidos. São pessoas de carne e osso. Mas o assunto sempre foi alvo de preconceito de todas as pessoas. Para as pessoas de direita ou formação religiosa, o cinema da Boca era visto como algo imoral, indecente, vulgar. Para as pessoas de esquerda, como alienante, coisa de gente apolítica. Quem via esse tipo de filme sempre foi tratado como tarado. Por trás disso tudo, existe um gigantesco preconceito social. Isso porque o cinema da rua do Triunfo era feito de pessoas de origem humilde para outras pessoas de origem humilde.

Não havia divulgação desse cinema?
A produção cultural da rua do Triunfo nunca foi valorizada. Isso está claro no tipo de mídia que abordava essa produção cultural. Somente o “Notícias Populares” e revistas masculinas de segunda linha (como “Homem”, “Privé”) falavam abertamente dos filmes da Boca. A grande mídia somente divulgava em quais cinemas os filmes passavam e as estreias. Nunca se preocuparam em falar sobre a diversidade de gêneros que existiu na produção cinematográfica da rua do Triunfo. Nem do sucesso popular que essas películas faziam se comunicando diretamente com o público. Algo que somente a chanchada tinha conseguido décadas antes.

Cinema de São Paulo exibe "A Noite das Taras", filme produzido na Boca do Lixo
Cinema de São Paulo exibe “A Noite das Taras”, filme produzido na Boca do Lixo

Os filmes da época estão armazenados em algum lugar?  Existe algum projeto para cuidar daquela produção?
Não sou a pessoa mais indicada para responder essa questão. A Cinemateca Brasileira em São Paulo e a Cinemateca do MAM no Rio são instituições louváveis que fazem um trabalho bacana. Existem outras entidades preocupadas com isso Brasil afora. Mas são entidades com diversos problemas porque não são lembradas pelos políticos. Ajudar a Cinemateca Brasileira não é algo que dá muitos votos. Existem atitudes que dão mais votos. Não conheço nenhum projeto específico para ajudar essa produção da Boca. Existem colecionadores e pessoas bem intencionadas que amam a nossa cultura. Mas esses são exceção.

Você escreve que o boom das produções pornográficas, mais baratas e rápidas de serem feitas, implodiu a Boca. Os personagens acreditam que poderiam ter feito outra coisa? Havia estrutura para tentar outro caminho?
Muitos dos personagens dos livros achavam que o sexo explícito seria uma onda rápida. Eles achavam que depois voltariam a trabalhar em filmes implícitos. Mas acabou sendo um caminho sem volta. Alguns tentaram voltar a fazer produções com conteúdo anterior. O Tony Vieira fez um policial chamado “Calibre 12” sem cenas explícitas, mas teve prejuízo. Ele assinava os implícitos como Tony e os explícitos como Maury de Queiroz. Isso até para o público pensar que eram pessoas diferentes. Existiram outros filmes feitos na época do explícito que não tinham cenas hardcore. Muitas dessas produções não conseguiram ser lançadas comercialmente, como “Rodeio de Bravos”, que falo no livro. Era um filme livre sobre rodeios para ser assistido por toda família. Nunca foi lançado comercialmente. Muitos deles queriam ter feito outra coisa e procuram omitir que trabalharam com explícito. Existia outro caminho: sair do meio cinematográfico e fazer outra coisa, como muitos fizeram. Outros conseguiram ingressar nos editais e continuaram dirigindo filmes. O Carlos Reichenbach e o Guilherme de Almeida Prado fizeram isso. Alguns técnicos conseguiram se tornar brilhantes nomes da publicidade. Mas a grande maioria acabou encerrando sua participação no cinema brasileiro após o fim da Boca como polo de produção. Não sei se havia estrutura. Sempre existiu preconceito e eles mesmo nunca buscaram se atualizar, mexer com editais. Eles não souberam se adaptar. Mas continuam com projetos para cinema. Isso eu mostro no livro, inclusive.

Cena do filme "Calibre 12", de Tony Vieira
Cena do filme “Calibre 12”, de Tony Vieira

Seus textos mostram que a Boca dava oportunidade a pessoas que necessariamente não estavam envolvidas com o cinema.
Naquela época, a gigantesca maioria dos realizadores do cinema paulista era autodidata. Não tinham formação universitária. Atualmente, a maioria das pessoas que trabalha na área cinematográfica se formou em universidades. Até é possível que surjam jovens diretores que sejam autodidatas na área. O Adirley Queirós é um dos grandes talentos da atual geração. Ele é um ex-jogador de futebol e conseguiu se tornar realizador. Dentro do cinema da Boca isso era bem mais comum. Isso demonstro ao longo do livro. A obra é recheada de personagens que vêm dessa origem humilde. O filho de açougueiro que se tornou um prolífico realizador de faroestes, um peão de boiadeiro que conseguiu fazer seu próprio filme sobre rodeios e um garçom que se tornou o maior montador da história do Brasil. Esses são alguns dos personagens principais de “Dossiê Boca”.

Esses personagens não conseguiram entrar na indústria do cinema? Por que se afastaram? A experiência deles não poderia ajudar no desenvolvimento do cinema brasileiro, principalmente na época em que enfrentou a maior crise, na virada dos anos 80 para os 90?
A grande maioria não. Eles foram excluídos, mas também acabaram se excluindo. Na minha opinião, existem duas razões: uma é o preconceito contra o cinema da Boca que sempre existiu. Outra é que eles próprios não souberam se atualizar. Não procuraram se reciclar, fazer marketing de si próprios. Essa dependência do Estado é algo que entra em choque com a maneira de eles olharem a sétima arte. A maioria não soube se adaptar a esse novo momento. Não sei se a experiência deles poderia ter ajudado no momento da crise. Só acho que eles mereciam maior reconhecimento. São homens que dedicaram suas vidas ao cinema brasileiro e a cultura do nosso povo. Existem mais de 300 festivais de cinema no Brasil. Já fizeram homenagem a dezenas de atores da Globo, à Xuxa e a atores americanos como o Danny Glover. Mas nenhum festival fez alguma homenagem ao Walter Wanny. Waltinho é a pessoa que mais montou longas-metragens no Brasil e em todo Hemisfério Sul. Não existe gênero de cinema no qual ele não tenha trabalhado. Filmes religiosos, faroestes, comédias, dramas, policiais, fitas caipiras, infantis, pornôs. Trabalhou em mais de 80 longas-metragens. Mesmo assim, ele nunca recebeu um troféu, uma medalha, um aplauso por isso. O próprio Pio Zamuner, que foi diretor dos últimos filmes do Mazzaropi, nunca recebeu nenhuma homenagem em vida. Se fosse nos Estados Unidos, essas pessoas seriam muito mais reconhecidas que aqui. Disso tenho certeza absoluta.

Walter Wanny (esquerda) e diretor Jean Garrett, durante montagem | Foto: Acervo pessoal de Walter Pedro da Silva
Walter Wanny (esquerda) e diretor Jean Garrett, durante montagem | Foto: Acervo pessoal de Walter Pedro da Silva

Há algum tipo de arrependimento ou rancor? 
Sim. A maioria gostaria de ter prosseguido trabalhando em cinema, ganhando a vida somente com isso como na época da Boca. Muitos tiveram depressão quando a rua do Triunfo deixou de ser um polo cinematográfico. Outros morreram cedo. Isso porque a Boca marcou a vida deles profundamente. O amor deles ao cinema é algo indescritível. Conheci homens de idade avançada que fariam qualquer coisa para trabalhar num filme. O Francisco Cavalcanti, por exemplo, dizia que ele era capaz de escalar o Himalaia para dirigir um longa-metragem.

O que o cinema atual deve a esses personagens da Boca?
Não acho que o cinema atual deva algo. Mas acho que o cinema brasileiro deve um reconhecimento maior a esses homens. Eles são seres humanos normais com qualidades e defeitos. São homens que dedicaram suas vidas ao cinema brasileiro e à cultura nacional. São pessoas cuja trajetória artística e de vida devem ser respeitadas. Temos que falar mais neles.

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1. Como pregam os 7 Mandamentos: os dois livros foram enviados ao blog pelo autor
2. No post anterior, “Os filmes das sextas à noite”, escrevi uma espécie de crônica sobre os filmes da Boca do Lixo que ganharam sobrevida ao serem exibidos numa sessão que a Record tinha nos anos 80, a Sala Especial
3. Hoje, existe o movimento Triunfo, A Volta, que tenta resgatar a região da Boca do Lixo e transformá-la novamente em polo cinematográfico

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