Cinema/Roteiro, Entre parêntesis

Os filmes das sextas à noite

Sexta-feira era um dia sagrado, um mergulho num universo alternativo, com regras diferentes daquelas que eu e meu irmão vivíamos diariamente. Às sextas, nós íamos dormir na casa dos meus avós. Tínhamos 10, 11, 12, 13 anos. Ou seja, início dos anos 80.

Chegávamos de carro ou de ônibus, mochila nas costas. Não sei se despedíamos corretamente da minha mãe ou se simplesmente saíamos a correr para o prédio, que ficava na Penha (zona leste de São Paulo), bem no centro do bairro, na rua mais movimentada, recheada de comércio.

E por quê?

Bem, é meio que regra geral que passar um tempo com avós é mais legal, com mais possibilidades do que proibições. É, mas para a gente era diferente. Era tudo isso e muito mais.

Por exemplo, passávamos a noite tomando refrigerante, Soda e Guaraná, diretamente na garrafa. Jantávamos na sala de TV, eu deitado no chão, meu irmão esparramado no sofá. Comíamos, como é de imaginar, bobagens: esfihas, sanduíches, pizza.

Ficávamos acordados até a madrugada, assistindo TV. E aqui nós tínhamos uma vantagem em relação aos garotos da época. Lá pela madrugada, a Record exibia uma sessão de filmes chamada Sala Especial. Não eram clássicos nem novidades. Os filmes eram aquelas pornochanchadas, que fizeram tanto a fama do cinema brasileiro nos anos 70. Assistíamos como muitos assistem hoje “Harry Potter”, com devoção. Mas aqueles filmes eram de “mulher pelada”. E isso muda tudo.

Até hoje lembro de uma noite, quando nos preparávamos para jantar, meu avô pegou o jornal, viu a programação e virou para a gente: “Hoje tem Vera Fischer!”. Já tinha uma vaga ideia de quem era aquela mulher, mas não do furacão que se tornara. Claro, não lembro qual foi o filme, mas a frase ficou marcada na minha mente.

SuperfemeaNão lembro de meus pais nos proibirem de assistir aos filmes, pois nunca paramos. Nossos amigos esperavam os relatos na segunda-feira, queriam saber o que tínhamos visto. Os nomes na época não importavam, mas hoje posso ter a certeza de que vi Aldine Müller, Nicole Puzzi, Matilde Mastrangi, Helena Ramos, entre outras.

Os filmes, vistos hoje, parecem mais chanchadas do que pornôs. Eram comédias absurdas, que buscavam um espaço naquela época, a ditadura já em seu final, mas com a censura ainda viva. Talvez fossem o ponto de escape para os espectadores. Muitos filmes eram ruins, pareciam amadores, mas a técnica não importava para quem estava assistindo. O jogo era outro.

Assim era nossa noite.

Pela manhã, lembro de meu avô, num quarto no fundo do apartamento, sentado numa poltrona gigantesca, superconfortável, lendo seu “Jornal da Tarde”. Foi por causa dele que fiquei viciado em ler os quadrinhos de jornais, ele que me apresentou ao Zé do Boné e Recruta Zero. E que comprou a histórica edição de 6 de julho de 1982, com a capa do menino chorando após a eliminação do Brasil da Copa do Mundo.

O café normalmente já estava na mesa. Com pequenas variações, era composto de coxinhas e sanduíche de pernil.

Não precisava de mais. Presentes, doces, agrados, para nós, isso era o de menos. O que importava era tomar refrigerante na garrafa na sala, comer uma pizza, assistir TV, rir com nosso avô e comer um sanduíche de pernil no café da manhã. Nunca precisamos de mais.

*****

E o que tem a ver essa história com o blog? Lembrei dela após receber o livro “Dossiê Boca – Personagens e Histórias do Cinema Paulista”, do jornalista Matheus Trunk. É uma coleção de reportagens escritas pelo autor sobre a Boca do Lixo, região do centro de São Paulo onde se concentravam artistas, técnicos e diretores de cinema que foram responsáveis pela maior parte das pornochanchadas dos 70 e 80. E a Sala Especial era o canal possível para a maior parte daquelas produções.

Na segunda-feira, publico a entrevista que fiz com o jornalista sobre seu livro.

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3 comentários em “Os filmes das sextas à noite”

  1. Muito legal a crônica. Também assistia esses filmes, só que numa sessão especial da Bandeirantes. Rapaz, não esqueço do primeiro que vi, fiquei um tempão acordado, meio que me fazendo de bobo, para despistar. Foi Sete mulheres para um homem só. Peitos em profusão e uma história (que anos depois pude confirmar ao revê-lo no Canal Brasil) absolutamente sem sentido. Ah, que descoberta.

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