Comentário, Espanha, Ficção

A experiência de Unamuno

Há pouco mais de sete anos, tive contato pela primeira vez com a obra do espanhol Miguel Unamuno. Foi com o romance “Abel Sánchez” (Record). Na época, escrevi um texto para o antigo blog. Abaixo, alguns trechos.

*****

imagemEsse livro estava na cabeceira fazia mais de ano, do que me arrependo. A obra do escritor espanhol (1864-1936) se encaixa naquela categoria de clássicos instantâneos da biblioteca particular.

O mito de Caim e Abel é recriado na história de Abel e Joaquín, amigos desde a infância e que optam por caminhos diferentes. Abel se torna artista, Joaquín se forma médico, áreas opostas do conhecimento e que em alguns momentos se assemelham.

Num certo momento, Joaquín assume uma forma obsessiva por Abel, construída por ciúmes, inveja, infelicidade e uma tormenta interna que o aliena, que o tira da serenidade – e o impede de atingi-la.

Unamuno escreveu diálogos ásperos, curtos e rápidos. Gera um impacto no ato da leitura difícil de superar após fechar o livro. Suas frases carregam um retrato da vida que poucos têm coragem de expor.

Unamuno é capaz de escrever, em “Abel Sánchez”, a história da humanidade numa frase simples, aparentemente banal: “Em qualquer tragédia há uma mulher, Abel”, mas carregada de verdades, das mais bruscas.

“Ódio? Ainda não queria dar-lhe seu nome, nem queria reconhecer que nasci, predestinado, com sua massa e sua semente. Naquela noite, nasci para o inferno de minha vida.”

“Aquele homem não podia ser de sua mulher, porque não era de si mesmo; era, ao mesmo tempo, um alienado e um possuído.”

“A ação afasta o mau sentimento, e é o mau sentimento que envenena a alma (…) Todo cinismo é defensivo.”

*****

nevoa_cpRecuperei o texto porque terminei recentemente de ler “Névoa” (Estação Liberdade), meu segundo romance de Unamuno.

Autor controverso, por sua adesão de princípio ao franquismo, na Espanha pré-guerra civil, e por usas ideias antisseparatistas do Estado basco, Unamuno foi dos intelectuais mais atuantes na época.

Este “Névoa” é considerado um dos mais importantes romances experimentais. O que parece ser uma história de Jane Austen carrega por trás uma incursão pelo fim da fronteira entre realidade e ficção, um “ataque às convenções realistas”, como diz Rubia Prates Goldoni na apresentação do livro.

A história é simples. Dom Augusto Pérez, solteiro e rico, perde a mãe e se vê sozinho na vida. Passa boa parte do tempo em longas conversas com seu amigo Víctor Goti, escritor e convidado a escrever o prefácio de “Névoa” por Unamuno. Essa ideia é logo rebatida pelo próprio escritor, que questiona a possibilidade de um personagem da sua ficção ter autonomia para escrever sobre o livro. Unamuno abre o livro evocando Miguel de Cervantes, para quem foi escritor de um livro só – “Dom Quixote”.

Pérez, em uma de suas andanças, cruza com um olhar feminino que o cativa na hora. Eugenia mora com os tios, é professora e tenta viver por conta própria. Dom Augusto logo investe para se aproximar da moça, conhece sua família e tenta de toda a forma criar um relacionamento.

Até aí, estamos diante de um romance tradicional. Mas Unamuno insere os elementos da sua experiência aos poucos. Goti está tentando escrever e cria histórias que Dom Augusto identifica como sendo suas, vividas por ele.

Mas é no final do romance que Unamuno lança mão do recurso técnico mais ousado – e mais não é possível escrever para não estragar a leitura. Unamuno entrega então as questões que fazem parte da sua formação intelectual: obsessão com a morte, a questão da individualidade, a dúvida sobre a realidade.

Sobre o livro, Rubia Prates assim o define: “A presença do autor como personagem e de uma teoria do romance, o questionamento da relação entre realidade de ficção e o interesse pelo leitor são alguns dos elementos de ‘Névoa’, escrito em 1907, que vão se repetir, embora quase sempre com sinal trocado, no metarromance do final do século 20, fazendo desse livro uma pequena obra-prima da ficção experimental e de seu autor um precursor da narrativa pós-moderno”.

Não conseguiria escrever melhor do que isso.

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