Comentário, Estados Unidos, Não ficção

O jornalismo gonzo de Neil Strauss em dois livros

A leitura de “Fama e Loucura” me fez ir atrás dos outros livros de Neil Strauss lançados no Brasil: “Emergência” e “O Jogo” (todos BestSeller).

Os dois livros rezam pela cartilha do jornalismo gonzo, aquele em que o repórter faz parte da notícia, da pesquisa, da apuração – a melhor definição ainda está nos livros de Hunter S. Thompson.

Emergencia-_folheto_alta-2Então, em “Emergência”, que tem como subtítulo “Este livro vai salvar sua vida”, Strauss parte da seguinte premissa: num mundo em que poucos controlam as armas mortais, onde o terrorismo é expansivo e o perigo pode estar dentro de seu país, é preciso se proteger, ter um plano de fuga.

Assim, o jornalista começa a traçar um plano para se ver livre do governo americano e ter um lugar livre de ameaças. A busca começa na virada de 1999 e 2000, quando o chamado bug do milênio ameaçava com caos o Ano Novo. Ele resolve passar a virada juntamente como um grupo que acreditava no fim do mundo. Daí, somados os ataques terroristas de 11 de setembro, Strauss assume o papel paranoico tipicamente americano e encara um longo trajeto.

Vai passar por treinamentos de sobrevivência na selva, treinos com armas e de técnicas de defesa e se envolver com grupos dos mais esquisitos, daqueles que não só acreditam no fim do mundo, como também defendem total independência do governo. O ódio aos Estados Unidos, tanto interno como externo, é uma linha mestra do livro.

Para completar, ele vai comprar uma casa em São Cristovão e Névis, uma ilha no Caribe, que mistura praias paradisíacas e sigilo suíço.

Pode soar estranho, afinal, Strauss eleva a paranoia talvez a um grau exagerado, mas, mais do que jornalismo gonzo, ele promove uma boa reflexão sobre os EUA pós-11/9.

downloadAlgo que não acontece em “O Jogo”, que carrega o subtítulo “A Bíblia da Sedução”. No mesmo tom de “Emergência”, este agora quer mostrar como conquistar mulheres. Este é seu livro de maior sucesso, mas, dos três que li, é o mais fraco.

A narrativa começa com um treinamento em campo, promovido por um conquistador excêntrico, que ganha dinheiro ensinando tímidos e alienados a se aproximar das mulheres – ele teria sido a inspiração para o guru vivido por Tom Cruise em “Magnólia”.

A partir desse ponto, lemos como Strauss aplica as técnicas que aprendeu, como o encontro, a conquista e o rompimento acontecem, sempre do ponto de vista do repórter. A principal crítica feita ao livro é o perfil machista, que tende a tratar as mulheres como objetos – e é, por mais que Strauss tente se colocar como jornalista, mas o tema não se dissocia de uma postura machista.

Pode ser. Tanto que, na livraria onde comprei o meu exemplar, ele estava na estante de Sexo, não de Jornalismo.

Mas o que se destaca é uma tentativa frustrada de retratar essa espécie de submundo da sedução, em que homens tímidos são lançados à posição de garanhões. Strauss alonga o tempo de exposição – são quase 500 páginas, que poderiam muito bem ser cortadas para uma longa reportagem, sem perda para o leitor e para o tema.

Lançado em 2005 (nos EUA), “O Jogo” serviu pelo menos para Strauss aprimorar seu estilo e chegar a “Emergência” (2009), um exemplar superior e mais fluente.

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