Comentário, Ficção, Japão

O primeiro Murakami

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Haruki Murakami sempre me rondou. Desde a época em que sua obra se dividia entre a Estação Liberdade e a Objetiva. Era um autor que me atraia a atenção toda vez que cruzava em uma livraria. Mas sempre ficara na intenção.

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Yasunari Kawabata é meu escritor japonês favorito, o que me toca e me encanta mais, com suas descrições de um país na transição da tradição para a modernidade, do choque de gerações e de culturas. Mas suas obras traduzidas para o português já se esgotaram, e sua editora diz que não há muito mais a publicar.

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Posto isso:

Então fui atrás de Murakami, sempre lembrado para o Nobel, bem avaliado pela crítica e de incrível sucesso no Japão. Escolhi “Norwegian Wood” (Alfaguara) e só me arrependo de ter demorado tanto para entrar na sua obra.

Murakami pega uma história que seria escrita como uma saga adolescente por qualquer escritor mediano e transforma em grande literatura. Sofisticada, profunda, com lacunas que o leitor deve preencher, sem guiá-lo pelas mãos, de diálogos cortantes e insinuantes, sua prosa é das coisas mais empolgantes que li nos últimos tempos.

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O tema: Toru, prestes a completar 20 anos, estudante de teatro na Tóquio do final dos anos 60, reencontra Naoko, ex-namorada do seu melhor amigo, que se matara anos antes. O encontro leva a um início de relação amorosa entre os dois, até que a garota não aguenta a pressão e se interna.

Nesse meio tempo, Toru conhece Midori, uma maluquete que vai balançar o mundo calmo e rotineiro do rapaz. Desse choque de gênios, Murakami retira puro néctar. Sem dramas exagerados, sem adolescências tardias, somente literatura adulta.

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Para isso, ele compõe um ambiente que mostra como o Japão já deixava importar a cultura ocidental. A vida noturna de Tóquio é cenário da descoberta sexual de Toru, que mergulha nas relações casuais nas baladas junto a um amigo que conheceu no alojamento de estudantes, o sexo de uma noite só, seguidamente, misturado com ambição profissional, com mulheres sem nomes.

A cultura ocidental surge por meio de citações de “O Grande Gatsby” e das audições de jazz. Claro, os Beatles, presentes no título do livro, também são onipresentes.

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Os personagens são investigados a fundo nos diálogos e nas passagens em que o narrador (Toru) entra em reflexão. Suas dúvidas não se perdem em divagações perenes. A relação com Midori e Naoko ganham contornos dramáticos à medida que a história avança, e Toru tem que lidar com essas situações sem se perder em jogos superficiais e ceder às tentações que jovens de sua idade, naquele Japão, estavam à mercê.

Além disso, Murakami produz vários clímax ao longo do livro. Como se existissem dois ou três livros em um só – e a força de sua prosa se mostra quando ele não perde o fluxo e dá sequência à trama sem perder ritmo, já pronto a criar outra onda. Impressionante.

E mais sobre a trama não se pode falar, tal a importância dos fatos para o desenvolvimento da história. Mais, só digo: leia.

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Ainda não sei para onde vou depois de ler o primeiro Murakami. Mas sei que o retorno a ele não tardará.

*****

“O tempo se arrastava vacilante, ajustando-se a meus passos. Enquanto as pessoas à minha volta já haviam avançado bastante, apenas eu e meu tempo nos arrastávamos vagarosamente pelo pântano. Ao meu redor, o mundo estava prestes a se transformar radicalmente. Nessa época, muitas pessoas morreram, inclusive John Coltrane. As pessoas bradavam por grandes mudanças, que sempre pareciam estar muito próximas. Mas as mudanças não passavam de um pano de fundo destituído de substância e significado. Eu vivia cada um dos meus dias sem quase nunca erguer o rosto. Apenas o pântano estendendo-se  a perder de vista se refletia nos meus olhos. Eu avançava abaixando o pé direito, levantando o esquerdo, tornando a erguer em seguida o direito. Não sabia onde estava. Não tinha certeza se avançava na direção correta. Apenas sabia que devia ir a algum lugar e por isso apenas avançava passo a passo.”

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2 thoughts on “O primeiro Murakami”

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