Comentário, Ficção, Japão

A última passagem por Kawabata

Desde que eu li pela primeira vez um livro de Yasunari Kawabata, ele se tornou não só o meu escritor japonês preferido, mas também um dos melhores que já passaram pelos meus olhos.

Tudo começou com “A Casa das Belas Adormecidas”, em algum momento do início dos anos 2000. Me encantei não só com a prosa de Kawabata, como também pela abordagem que ele faz da tradição japonesa e do choque com o ocidente.

O escritor Yasunari Kawabata (1899-1972)
O escritor Yasunari Kawabata (1899-1972)

Recentemente, fiz uma minimaratona e li cinco livros do Nobel de 1968, os últimos que restavam do que foi traduzido para o português. Abaixo, comento rapidamente sobre cada um deles. Neste link, segue um texto publicado no blog sobre o autor.

Antes, é preciso ressaltar o trabalho que a editora Estação Liberdade vem fazendo com as obras de Kawabata. Traduções caprichadas diretamente do japonês, com notas de rodapé oportunas e que ajudam a situar o leitor na cultura nipônica, um belo projeto gráfico forma este que é um dos grandes projetos literários no Brasil – dos 11 livros lançados em português, 10 são da Liberdade e 1 da Globo (“Beleza e Tristeza”).

Segundo a editora, não há por enquanto mais algum título a ser lançado – sua obra principal já está toda traduzida e em catálogo. Da sua obra ficcional, restam alguns contos e novelas a serem traduzidos.

*****

29_llivros_de02“Mil Tsurus”
Tsuru é uma ave que representa o Japão e sinônimo de nobreza e felicidade. A imagem dos pássaros num lenço que envolve uma garota durante uma cerimônia do chá é o ponto de partida deste romance, que se passa no pós 2ª Guerra, em um país já sob influência ocidental. Kikuji é o fio condutor da história, um jovem que se encontra com duas ex-amantes do seu pai, já morto, em uma cerimônia. Nela, vai conhecer também a garota com o lenço dos tsurus, que será “ofertada” para casar com ele, e a filha de uma das amantes, já viúva. Ele vai se envolver com uma das amantes, enquanto flerta com a garota do lenço. Esse jogo de sedução carrega mais do que conquistas e trata do futuro em um Japão que ainda se dividia entre tradição e ocidentalização.

Kawabata é mestre na condução de histórias – e amplia seu universo ao usar elementos para contá-las. Em “Mil Tsurus”, o pai é uma figura tão importante para o romance como os personagens vivos. Ele faz a sombra do filho, em atitudes que refletem sua vida. Como elemento que ultrapassa todo o livro e também tem papel determinante, há a mancha no seio de uma das amantes, marca que persegue Kikuji após ter flagrado a mulher nua quando era criança. Um vaso com a marca de batom de uma das amantes e os jogos de cerâmica usados nas cerimônias do chá também são parte essencial para o romance.

Culpa e arrependimento se misturam no livro, que faz um resgate primoroso das tradições japonesas – principalmente da cerimônia do chá.

“- Quando observo estes chawan, não penso nos defeitos dos antigos donos. A vida de meu pai, por exemplo, equivale a apenas uma pequena fração da existência destas peças tradicionais.

– A morte está sempre em nosso encalço. E isso me apavora. Se esse é um fato iminente, não devo ficar amarrada para sempre à morte da minha mãe. Por isso, tenho feito várias coisas para tentar superar essa obsessão.

– Tem razão. Ficarmos obcecados pelos mortos acaba por nos levar a crer que também não fazemos mais parte deste mundo.”

*****

som_da_montanha“O Som da Montanha”
Parte de uma trilogia que conta ainda com “O País das Neves” e “Mil Tsurus”, dedicada aos sentimentos humanos, “O Som da Montanha” poderia ser classificado como um romance clássico. Se os personagens fossem ingleses, não estranharia ver o nome de Jane Austen na capa.

Este tem uma leve semelhança com “Diário de um Velho Louco”, de Jun’Ichiro Tanizaki, que descreve o fim da vida de um velho patriarca que acaba se engraçando com a nora. Kawabata não é tão direto quanto Tanizaki, mas esse encanto pela nora está presente na vida de Shingo Ogata, patriarca que tenta conduzir sua família no pós-guerra. Com problemas de memória, precisa sempre de uma assistente.

A família vive a ocidentalização, com traições, aborto e divórcio como temas centrais do romance. É o campo que tem que se adaptar à grande cidade, as coisas materiais ganham relevância no cotidiano da família. Além disso, o suicídio é refletido com profundidade, já prenunciando o futuro do escritor – Kawabata se matou em 1972.

Os sonhos de Shingo e as cenas descritas por Kawabata estão entre as coisas mais belas da literatura, como a castanha que caiu no casamento do patriarca, as máscaras de nô (teatro profissional japonês) e a história do homem que não podia voltar para casa.

gangue_asakusa-alta“A Gangue Escarlate de Asakusa”
Raro livro em que o tema urbano é tratado por Kawabata. Teve como matéria-prima uma série de relatos que escreveu para um jornal de Tóquio sobre Asakusa, antiga zona boêmia da capital japonesa e então em decadência.

O escritor foi às ruas para compor a peça e se tornou um narrador testemunha, observador de como o distrito mudava de patamar. É uma ficção que nasceu como relato jornalístico – o livro saiu no início da carreira do autor, em 1930. Então, um ritmo mais acelerado, mais personagens e uma descrição mais crua ganham vez aqui, mas irão desaparecer na produção futura de Kawabata.

Destoa de certa forma da obra do escritor, mas já mostra uma preocupação com a transformação do Japão, 15 anos antes do final da 2ª Guerra Mundial.

imagem“O Mestre de Go”
Outro livro que tem como base fatos reais que Kawabata transformou em ficção. Aqui, o ponto de partida é o desafio de um mestre do go, jogo de estratégia, com regras simples e andamento complexo, que pode demorar de dias a meses. Shusai, o mestre, é convidado por um jornal a enfrentar o novato Kitani, no que seria a sua partida de despedida.

Kawabata cobriu o desafio para o jornal em 64 reportagens – o jogo começou em junho e terminou em dezembro de 1938. No intervalo, o mestre se retira para tratamento médico, o que retarda a partida. Dois anos depois, Shusai morreu, o que motivou o escritor a retomar seus textos e transformá-los no livro, só lançado em 1954.

Importa para Kawabata o drama pessoal, tanto do mestre, já envelhecido e com dificuldades para se locomover, como do novato, incomodado com o andamento. Interessa também o drama que o jogo impõe aos participantes, um cansaço mental que impossibilita o ócio nos intervalos.

As regras aparecem, assim como algumas descrições dos movimentos das peças. Não atrapalham a leitura, mas quem conhece talvez tire mais do livro do que o leigo. De qualquer forma, é um Kawabata que se debruça sobre as dores e tenta traduzi-las.

beleza e tristeza“Beleza e Tristeza”
Único livro não lançado pela Estação Liberdade, este título também é o mais antigo em catálogo no Brasil – sua primeira edição pela Globo é de 1988. Apesar dos bons prefácio e posfácio, de Teixeira Coelho e Roberto Kazuo Yokota, respectivamente, o livro tem um pecado: a versão em português é baseada na tradução inglesa, não no original em japonês. Destoa de toda a coleção lançada no Brasil, com ritmo e detalhes da língua, tão perceptíveis nas edições da Liberdade, alterados – apesar do bom trabalho do tradutor, Alberto Alexandre Martins.

É seu último romance, publicado em 1964, oito anos antes do seu suicídio.

O que lemos é um romance tenso. Oki, escritor consagrado já nos seus 50 anos, vai a Kyoto ouvir os sinos na virada de ano. Pretende também se encontrar com Otoko, que fora sua amante anos atrás, quando ela tinha 16 anos, e que o inspirou a escrever seu mais famoso livro, depois de 24 anos sem vê-la. Nesse reencontro, conhece Keiko, a pupila de Otoko, que se tornou uma pintora famosa.

A partir do encontro, a vida dos três se embaralha, e Kawabata encontra espaço para esboçar um jogo psicológico, em meio aos temas que mais interessaram ao escritor: solidão, morte, amor e erotismo. O livro de Oki se torna uma sombra sobre sua família e Otoko, abre espaço para sentimentos como vingança e descontrole emocionais. Ao mesmo tempo, Kawabata reduz a tensão ao discorrer sobre as artes, especialmente Rodin e Chagall, além de artistas japoneses. O jogo de tensão e paz é impactante para o andamento do livro.

É uma despedida que homenageia sua produção anterior, sem se deixar cair em maneirismos.

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