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A confissão dolorosa de Rodrigo de Souza Leão

todos_os_cachorros_sao_azuis_2a_3Na entrevista que fiz com o escritor boliviano Maximiliano Barrientos, para falar de seu belo “Hotéis” (Rocco), perguntei a ele sobre suas leituras de autores brasileiros. Na resposta, entre Bernardo Carvalho, Michel Laub e Hilda Hilst, ele citou com entusiasmo “Todo os Cachorros São Azuis” (7 Letras), de Rodrigo de Souza Leão.

“Achei um livro brutal, e, apesar de contar uma experiência tão dura com a loucura, a estadia em um hospital psiquiátrico, é cheio de humor”, disse Barrientos.

Então, fui atrás do livro e do escritor, desconhecidos para mim. O livro não é exatamente fácil de achar, mas algumas livrarias devem ter esquecido o título em seus estoques. Basta bater um pouco de perna e você encontra um exemplar novo.

Rodrigo de Souza Leão morreu em 2009, pouco depois de lançar o livro. Era jornalista e fundou a revista eletrônica “Zunái”. Publicou vários livros de poesia, a maioria na plataforma digital. Pela Record, saíram os livros “Me Roubaram uns Dias Contados”, “O Esquizoide” e “Carbono Pautado”. Em seu site, estão publicados suas poesias e contos. 

Nascido em 1965, escreveu para jornais, foi músico e artista plástico. Foi diagnosticado com esquizofrenia paronoide, agravada por transtorno obsessivo-compulsivo. Levou parte de sua experiência para sua obra, principalmente para este “Todos os Cachorros São Azuis”. Ele morreu numa clínica psiquiátrica, em circunstâncias que nunca foram esclarecidas.

Pode-se dizer que o livro de Rodrigo tem certo parentesco com “O Mendigo que Sabia de Cor os Adágios de Erasmo de Rotterdam” (Record), de Evandro Affonso Ferreira. Tratam ambos da loucura, mas o livro de Rodrigo escapa da sofisticação narrativa para explorar sua condição, em confronto com a ficção.

O resultado é arrebatador. Começa com o personagem dizendo que engoliu um chip, que está sendo vigiado – mais à frente, ele irá contar que engoliu um gafanhoto, como aconteceu na realidade com o autor.

Recheado de citações, com trocadilhos bem humorados, o livro em muitas partes parece uma coleção de aforismos. Esse ritmo ágil simula o narrador esquizofrênico e seus amigos Rimbaud e Baudelaire, espécie de entidades que o acompanham como seres imagéticos.

Trancado anos num hospício, quando sai, cria uma comunidade, a Todog, com língua própria, como a nadsat de “Laranja Mecânica” (Anthony Burgess, Aleph). O final choca pela criatividade e sua força narrativa.

O escritor Rodrigo de Souza Leão | Foto: Cristina Carriconde
O escritor Rodrigo de Souza Leão | Foto: Cristina Carriconde

Raro encontro do bom humor com erudição e prosa fluente, este “Todos os Cachorros São Azuis” apenas provoca lamento pelo talento interrompido. Uma vida que ele mesmo lamentava estar perdida, não só a profissional, mas também a social e afetiva.

Sem restrições, Rodrigo expõe seu interior como uma confissão, por certa dolorosa.

*****

“Aquele dia eu chorei por estar sozinho. Chorei por não ter um emprego. Chorei por não ter uma mulher. Chorei por não ter filhos. Chorei por não ter uma família. Chorei por ter 37 anos de idade e viver ainda como um adolescente”.

“Um grito lancinante vindo do âmago de um dos internos. Por que não internam as mulheres junto com os homens? Será que ia virar uma confusão sexual geral? Acho que louco não tem tempo de pensar em sexo. Alguns são vistos parados e se bolinando. Mas isso ocorre mais nas ruas. Estou sem o meu cachorro azul aqui, estou despido do que sou. Na prática não sou ninguém. Não adianta eu gritar socorro. Aqui todos estão sendo levados a algum lugar pior. E o inferno não é o pior dos lugares.”

“Deus não: deuses.

Tenho rituais. Acendo um cigarro atrás do outro e deixo que se fumem. Deixo que os deuses fumem cada um o seu cigarro. Às vezes acendo todos ao mesmo tempo.

Meus deuses fumam comigo. Fica uma bagunça, orgia de fumaça. E Rimbaud dança. Baudelaire foge. Sorrio.

Imagina se fossem baseados? Os deuses todos doidões iriam sair feito capetas para a vida. Entrariam deuses e sairiam demônios.”

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