Cinema/Roteiro, Estados Unidos, Ficção

A amargura de Carver envolve Birdman

“Houve uma ocasião em que eu achava que amava minha primeira mulher mais do que a própria vida. Mas agora tenho ódio dela. Tenho mesmo. Como se explica isso? O que foi que aconteceu com aquele amor? O que foi que aconteceu, é o que eu gostaria de saber. Queria que alguém conseguisse me explicar.”

O trecho acima é parte da resposta que Mel dá em uma conversa com um casal de amigos e sua atual mulher para a pergunta “O que qualquer um de nós sabe de fato sobre o amor?”.

Mel McGinnis é personagem do conto “Do que Estamos Falando Quando Falamos de Amor”, de Raymond Carver. Já o conto é uma espécie de personagem chave do filme “Bidrman”, do diretor mexicano Alejandro González Iñárritu, que recebeu nove indicações ao Oscar, incluindo melhor filme, diretor, ator, ator e atriz coadjuvantes.

No filme, Riggan Thomson (Michael Keaton) encena a peça baseada no conto de Carver na Broadway. Ele foi um ator de sucesso anos atrás, quando encarnou o super-herói Birdman em três filmes. Desistiu de fazer o quarto e caiu num ostracismo que o faz questionar a carreira – espelho de Keaton, o Batman nos dois filmes dirigidos por Tim Burton.

Riggan não consegue deixar o personagem, ao mesmo tempo em que tenta ganhar respeito como ator – trocar Hollywood pelos palcos é um questionamento permanente. Sem saber quem realmente é, Riggan dirige e interpreta Mel no teatro.

Michael Keaton em cena de Birdman
Michael Keaton em cena de Birdman

O texto de Carver navega por todo o filme, sempre rodeando os personagens. Se na obra do escritor o ostracismo é essencial, no filme ele ganha contornos dramáticos. A América que fracassa, que vive o cotidiano besta, sem perspectiva, com gente comum é aquela que sobrevoa o Birdman. É o medo que Riggan carrega nos seus embates, dentro e fora do palco, com Mike Shiner (Edward Norton, excepcional) e sua filha, Sam (Emma Stone, idem). A necessidade de ser alguém, de ter identidade, temas tão recorrentes à obra de Carver.

As cenas que o filme mostra tratam das discussões dos dois casais sobre o amor e o que ele inflige a cada um. No conto, Mel está relativamente controlado, mas Keaton imprime um tom desesperador a Riggan, cujas reações vão expor a tensão interna que vive – o passeio pela Times Square de cuecas é de um constrangimento tão belo que fica difícil rir.

Ler Carver vai ajudar a encontrar uma amargura rara no filme de Iñárritu (“Babel” e “Amores Perros”). O filme não trata do conto, mas depende tanto que fica impossível dissociar um do outro – talvez, Riggan dos personagens de Carver.

*****

Sobre o filme: muito bem dirigido, com longas sequências dentro do teatro (palco e bastidores) e um solo de bateria que imprime angústia. Michael Keaton encontrou um personagem que coube à perfeição, no qual é possível encontrar ecos de sua carreira e metaforizar com Hollywood.

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5 thoughts on “A amargura de Carver envolve Birdman”

  1. Diferente do conto, o filme termina com um toque no sonho. Muito Hollywoodiano pro meu gosto. Carver nunca foi cafona nessa maneira, embora já tenha difícil cafona (com estilo). Acredito que a leitura de Carver foi um tiro que saiu pela culatra. Embora birdman tenha sido elogiado por muita gente e ainda ganhou um oscar, não deixa de ser um filme chato pra caramba. As tomadas sem corte (ou que parecem sem corte) são as partes altas do filme. Raymond Carver não reconheceria nem sombra de seu trabalho naquele porre. Eu acredito, que mesmo sem querer, o diretor soube criar esse abismo entre a grande arte e a arte medíocre e de massa. Conseguiu, ganhou o oscar.

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