Entrevista

A revolução digital da e-galáxia

O mercado de livros digitais no Brasil ainda é pequeno, cerca de 2% do total de títulos vendidos, um índice que varia pouco a cada ano. As editoras, entretanto, apostam no crescimento desse segmento. Raros são os lançamentos que não chegam nas duas plataformas – impressa e digital.

A oferta de leitores digitais também cresce. Kindle, iPad, Kobo, Galaxy e Lev são os principais, sem contar os computadores de mesa e celulares.

Além da reprodução fiel do livro impresso, há um projeto editorial que vem sendo desenvolvido por uma casa independente que indica novos caminhos para o e-book. A e-galáxia, lançada há pouco mais de um ano, trabalha somente com livros digitais. É uma plataforma aberta ao autor, que participa de todo o processo de produção, edição e publicação do livro.

Comandada pelo pesquisador cultural Tiago Ferro, a publicitária Mika Matsuzake e executivo editorial Antonio Carlos Espilotro, a e-galáxia inova ao propor desafios, criar selos com publicações semanais e trazer autores ligados a grandes editoras para projetos desafiadores. Todos com valores que raramente ultrapassam os R$ 10.

É o caso de Ricardo Lísias, por exemplo. Seus livros são lançados pela Alfaguara, mas na e-galáxia o escritor criou o projeto do Delegado Tobias, série de cinco e-books em que embaralhou os conceitos de realidade e ficção.

Ou Noemi Jaffe, que publicou pela Companhia das Letras e Editora 34 e lançou no ano passado “Comum de Dois” pela e-galáxia. Mais. Assumiu a curadoria do Selo Jota, que consiste em desafiar autores a escrever um conto sob determinadas regras. O primeiro título, “O Capricórnio se Aproxima”, foi de Flavio Cafiero, que publica pela Cosac Naify.

Estação-terminalLivros de autores inéditos no Brasil, como “Estação Terminal”, da jornalista Graciela Mochkofsky, comprovam a ousadia da casa. A obra já é um clássico contemporâneo da reportagem.

E, talvez como uma forma educadora e de aproximação do leitor com o livro digital, o selo Formas Breves investe em contos inéditos semanais, a preços que variam de R$ 1,90 a R$ 2,20. Os títulos raramente saem da lista dos mais vendidos das principais lojas virtuais.

Os contos são publicados todas as segundas-feiras. Autores como José Luiz Passos, Miguel Sanches Neto, João Anzanello Carrascoza, Elvira Vigna, Marcelino Freire, Carola Saavedra e Cecilia Giannetti são alguns dos nomes que já escreveram suas histórias. A curadoria é do autor Carlos Henrique Schroeder.

E, claro, best sellers também encontraram espaço. Zeca Camargo (“50, Eu?”) e Max Gehringer (“A Grande História dos Mundiais”) vingaram no digital e estão entre os mais vendidos da e-galáxia.

Mais de cem livros lançados depois, a editora olha agora para a consolidação. Expansão para outras línguas está nos planos. HQ, títulos de Zuca Sardan (“Milorde e Medusa”), biografia de Millôr Fernandes apontam para este 2015.

Tiago Ferro conversou com o blog para avaliar o primeiro ano, o mercado de livros digitais e posicionar a e-galáxia.

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Tiago Ferro, da e-galáxia
Tiago Ferro, da e-galáxia

Como surgiu a e-galáxia? Qual a inspiração?
O e-book tornou-se realidade no Brasil com a chegada das grandes lojas internacionais em 2013. Com mais de 15 anos de atuação no mercado editorial, vimos na e-galáxia e no formato digital a solução dos principais problemas de produção e distribuição de livros no país. Diante desse novo cenário, surgiu a ideia de estimular a publicação independente de qualidade. A e-galáxia seria um espaço onde o escritor encontraria todas as condições para publicar seu livro de maneira profissional: desde a escolha dos profissionais envolvidos na produção do livro até a decisão sobre o preço de capa e o acompanhamento das vendas. Esse foi o impulso para a criação da e-galáxia, que aconteceu durante a Flip 2013.

Quais as dificuldades em colocar o negócio funcionando? E depois em tocar uma editora que só publica livros digitais?
Há um ano, o receio dos leitores em relação aos e-books era muito maior. Mas essa barreira vem caindo rapidamente. Hoje, já é difícil encontrar leitores que ainda caiam na velha polêmica “papel versus digital”; há espaço para ambos. Quem lê um e-book não para mais.

Um ano depois, qual a avaliação que você faz do mercado de livros digitais?
O Brasil apresenta ótimas perspectivas. O mercado digital cresce rapidamente e há ainda uma série de oportunidades para se inovar nessa área.

A editora tem um trabalho minucioso no selo Formas Breves, com lançamentos semanais, de autores novos e já publicados. Como é o processo de curadoria?
A implementação do conceito de selos digitais foi uma forma de resgatar o trabalho criativo do editor. Os curadores dos nossos selos têm perfis diferentes mas todos eles são figuras importantes no campo literário brasileiro. Com os selos, eles ganharam a oportunidade para editar com liberdade total. Convidamos os curadores, discutimos o formato e funcionamento do selo e vamos juntos publicando os títulos. Cada curador tem autonomia para selecionar os autores que serão publicados. O Carlos Henrique Schroeder, curador do Formas Breves, vem lutando pelo gênero conto há muito tempo. Foi bastante natural, quando o convidamos, que o selo tivesse esse foco.

Como os escritores reagem ao serem convidados a escrever um livro exclusivo para a plataforma digital?
Hoje, está muito claro para os autores que eles precisam estar no digital. Que é a única forma da obra deles ficar disponível para todos os leitores. A exclusividade em formato digital abre para os autores o desejo de fazer algo que não funcionaria no papel. Posso afirmar com tranquilidade que por parte dos autores não há resistência em relação à publicação digital. Muito pelo contrário, há certo estímulo para se tentar algo novo.

20.DelegadoTobiasFoto2A série Delegado Tobias fez barulho em 2014, com um projeto ousado. Ele foi se desenvolvendo aos poucos, durante as publicações semanais, ou foi um projeto fechado desde o início?
Já estava planejado lançar os cinco volumes desde o início e a estrutura básica da narrativa estava pronta. Porém, conforme a trama seguia se desenvolvendo nas redes sociais, surgia o imprevisível: comentários, reações, notas na imprensa, telefonemas etc. Isso tudo ia sendo tragado pela ficção sem um plano pré-estabelecido. A obra foi em parte construída no calor da hora.

Qual a sua avaliação dessa série?
Foi sem dúvida um marco. Em outras áreas da produção artística, figuras centrais já usaram há muito tempo recursos digitais em suas obras. A literatura nesse ponto segue defasada. Com o Delegado Tobias acredito que demos um passo para tirar esse atraso.
Um projeto que só poderia acontecer no digital e que dificilmente uma grande editora toparia promover e se envolver em “real time” durante um mês inteiro como fizemos com o [Ricardo] Lísias. Na série Delegado Tobias, ficou claro que o digital é muito mais do que uma nova forma de se adquirir conteúdo. O digital estimula toda uma nova dinâmica para a literatura. E tivemos o privilégio de ter um grande autor brasileiro se arriscando (e se divertindo) com esse projeto.

Quais os livros mais vendidos da e-galáxia neste um ano?
O best seller Zeca Camargo continuou best seller no digital. Os livros do Max Gehringer sobre as Copas do Mundo foram um sucesso. Os livros de todos dos selos tiveram boas vendas, já que a cada lançamento o leitor entra em contato com os demais títulos daquela coleção. Mas a curva de vendas no digital é muito mais longa. O livro não é recolhido ou vai parar no fundo da estante.

O que a editora planeja para este segundo ano? O que você pode adiantar?
Principalmente, seguir estimulando a publicação independente de qualidade, nosso foco principal. Há um projeto para levarmos o Formas Breves para o exterior com traduções para o espanhol e o inglês. Também vamos publicar uma biografia do Millôr Fernandes escrita pelo Alberto Villas. E, não posso adiantar o título, mas já no primeiro semestre chegaremos com uma HQ incrível!

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