Brasil, Comentário, Crônicas

A luta contra a ausência – o diário de Boris Fausto

Livros que resgatam e tentam decifrar uma relação, escritos em primeira pessoa, não são artigos raros. Raros são aqueles que conseguem desvendar com impressionante profundidade uma ligação e seus problemas, com autoavaliação sem medo da exposição. A prosa límpida se choca com fatos nem sempre valorosos.

Um grande exemplo, talvez o maior que já li, é “Carta a D. – História de um Amor” (Cosac Naify), escrito pelo filósofo austríaco André Gorz para Dorine, sua mulher. É um livro tocante. Um exemplar raro de esmiuçamento da culpa, de declaração de amor e cumplicidade.

(Certa vez, dormia numa manhã de domingo quando ouvi soluços vindo da sala. Acordei sem saber o que estava acontecendo. Quando me pus de pé e entrei na sala, vi-a encolhida na poltrona com os olhos encharcados. No colo, o livro fechado. Ela tinha acabado de ler a carta de Gorz)

Outro exemplo, este em forma de crônica misturada com ficção, é “O Oitavo Selo” (Cosac Naify), de Heloisa Seixas, mulher de Ruy Castro. Ela escreve sobre os problemas de saúde do jornalista, mas não deixa de entregar uma declaração de amor comovente, de uma parceira que enfrenta com bom humor os percalços da vida a dois. Não trata da falta, mas da sua perspectiva.

downloadAgora, chegou às minhas mãos “O Brilho do Bronze [Um Diário]” (Cosac Naify), do historiador Boris Fausto. Em 2010, ele perdeu sua mulher, Cynira, e, aos 80 anos, se viu sozinho e obrigado a lutar com uma ausência – o casamento durou 49 anos.

Para tentar superar o luto, ele começou a escrever um diário, a princípio, restrito a familiares e amigos próximos. Depois de um tempo, incentivado pelos leitores, Fausto resolveu tratá-lo como algo a ser publicado.

O resultado é um relato tocante e que expõe o historiador em seu luto. Começa em julho de 2010, um mês depois da morte da mulher, e vai até março de 2014.

O autor de “História Concisa do Brasil” (Edusp) e “Memórias de um Historiador de Domingo” (Companhia das Letras) recupera atos cotidianos na tentativa de seguir com a vida. Bem-humorado, às vezes melancólico, crítico e observador arguto do cotidiano, Fausto nos envolve na sua leitura dos fatos, da memória do passado com sua mulher e da dor que até procura não escancarar, mas que está presente em todas as entradas do diário.

Lemos então que torcer para o Corinthians é mais do que diversão. Fausto busca flertar, joga pôquer com velhos amigos (Fernando Henrique Cardoso entre eles). Conta suas histórias com taxistas e casos engraçados que ouve em suas andanças – como a do seu jardineiro. Suas viagens a Ibiúna, onde tem um sítio. Em meio a esse desenrolar dos dias, Cynira surge nas lembranças da rotina, nas visitas ao cemitério.

Memórias do companheirismo, da vida a dois, de jeitos e manias surgem intercaladas pelo cotidiano solitário do historiador. É o espectador da vida.

Boris Fausto e sua mulher, Cynira
Boris Fausto e sua mulher, Cynira

Sem autocomiseração, Fausto abre seu diário para fazer dos seus escritos uma das fases do luto. Experiência única, a perda de Cynira dói, mas o autor imprime um caminho cheio de alternativas, de como viver a dor e tentar minimizá-la.

*****

Os livros podem chegar até nós por caminhos tão tortuosos como simples. Descontadas as idas a livrarias e lojas virtuais, as sugestões de amigos ou propaganda, há aquela rota que parece nem existir, mas que surge de repente como um afago.

Este “O Brilho do Bronze” estava na minha lista de livros que gostaria de ler. Vi então uma foto no Instagram, com esse título e um do Valter Hugo Mãe. Troquei alguns comentários com a dona do perfil e só.

Isso foi em um fim de semana.

A semana começa e minha mulher chega em casa após o trabalho com um livro na mão. Era o empréstimo, como a dona do perfil deixou bem claro, de “O Brilho do Bronze”. Uma gentileza simples, uma surpresa valorosa e que foi muito bem recebida.

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