Brasil, Comentário, Crônicas

O resgate da crônica

Coletâneas de crônicas em livros já se tornaram um porto seguro para autores e editoras. Gente que escreve há nem dois anos já tem obra nesse formato, que na maior parte das vezes é pura picaretagem. O final do ano passado foi prolífico. Olhe a lista dos mais vendidos e você vai encontrar títulos com crônicas que não sustentam mais do que uma leitura.

Por outro lado, as editoras também estão fazendo um resgate de cronistas que merecem a revisão e releitura. São nomes que levaram o status de crônica ao patamar literário, colocaram o Brasil no mapa do gênero, muito particular, de um texto que se pressupõe jornalístico, mas que avança fronteiras e abre portas até para a ficção.

Não saberia dizer quando esse resgate começou, até porque não é um movimento planejado, apenas resultado de efemérides e questões editoriais. O resgate, então, é um recurso jornalístico criado pelo blog, para dar uma cara a esse andar sem rosto.

O blog lista a seguir alguns dos volumes que merecem a releitura ou o encontro pela primeira vez. São reedições, algumas bem caprichada, outras nem tanto.

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29164475“Bom Dia para Nascer” (Companhia das Letras), de Otto Lara Resende
Quase 20 anos depois da primeira edição, o livro foi relançado com nova seleção, feita por Humberto Werneck. São textos que o jornalista mineiro escreveu para a “Folha de S. Paulo”, as crônicas da página 2, que tratavam do Rio de Janeiro. Mas não só. Lara Resende escrevia sobre política, pessoas e fatos cotidianos com a leveza que seu texto imprimia sem deixar de lado uma certa ironia, um olhar mais crítico sem precisar lançar mão de palavras fortes ou ser tão direto que qualquer interpretação ficaria aniquilada. Um dos grandes exemplares da crônica, leitura obrigatória para quem gosta do bom texto. A editora está relançando o trabalho de Lara Resende.

 

 

42110240“200 Crônicas Escolhidas” (Record), de Rubem Braga
Lançado em 2013, na comemoração do centenário do nascimento do cronista, a coletânea é o melhor item da série que marcou a efeméride – há volumes sobre natureza e entrevistas feitas em Paris, além de textos escritos na 2ª Guerra Mundial, tema da próxima nota. A edição comemorativa é pobre em periféricos – a capa dura é o único item. Merecia mais – um posfácio, pelo menos A seleção foi feita pelo próprio autor, com base numa pré-edição de Fernando Sabino. Se não há acréscimo, resta o principal, o texto de Braga, as observações raras e bem costuradas, leves e muitas vezes líricas. É biscoito fino.

 

 

15067602“Crônicas da Guerra na Itália” (Record), de Rubem Braga
Foi um dos grandes lançamentos do ano passado, já em seu final. Recupera o livro escrito pelo cronista em 1945, reunião de crônicas da sua viagem à Itália com a FEB (Força Expedicionária Brasileira) escritas para o “Diário Carioca”. Estava fora de catálogo havia 18 anos. É um retrato da Grande Guerra como poucos conseguiram ver. Rubem Braga trata dos homens que viajaram para um país sem saber como e se voltariam. O cotidiano com os pracinhas, as histórias pessoais que encontra pelo caminho, suas experiência emergem do texto de Braga com uma atualidade impressionante. Sem o rigor histórico de acadêmicos, o cronista escreveu um dos grandes livros do conflito. Imperdível.

 

84221977“O Homem ao Lado” (Companhia das Letras), de Sérgio Porto
Primeiro lançamento da obra do cronista pela editora, que irá colocar no mercado títulos de crônicas sobre futebol e de seu pseudônimo, o humorista Stanislaw Ponte Preta. O projeto é tocado por Sérgio Augusto, que escreveu a apresentação do título inaugural. A maioria dos textos da seleção foi publicada na revista “Manchete”, na década de 1950. Está lá o humor que marcaria seu duplo, mas está lá principalmente, como em todos os outros nomes acima, o observador, que consegue tirar de um fato banal uma certa poesia. A crônica que dá título ao volume é o exemplo mais contundente, e estar na abertura é a melhor prova de que Porto era, mais do que um cronista, um grande contador de histórias.

 

2011-confissoes-de-minas“Confissões de Minas” (Cosac Naify), de Carlos Drummond de Andrade
A Companhia das Letras está relançando toda a obra do poeta, inclusive livros de crônicas, mas este volume antecedeu as novas edições. Lançado em 2011, estava fora de catálogo havia décadas – sua primeira edição saiu em 1944. O primeiro título em prosa de Drummond traz textos publicados em vários veículos, dos anos 20 aos 40. O poeta escreve sobre literatura, suas Minas e gente que passou por sua vida. Desde 1964 não existia na forma como foi concebido em sua edição original, sempre republicado com cortes. É o que poderia se chamar de crônica poética, um traço fino que envolve o lirismo e o cotidiano. Drummond sai dos versos, mas os versos não saem dele.

 

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Ainda há os títulos de Paulo Mendes Campos, todos lançados pela Companhia das Letras: “O Mais Estranho dos Países”, “Diário da Tarde” e “O Amor Acaba”. Mas esses o blog não leu ainda.

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Como citei o livro de crônicas da 2ª Guerra Mundial, de Rubem Braga, acho que vale indicar outro livro que remete ao conflito. Distante do gênero, “O Inverno da Guerra” (Objetiva, 2005), de Joel Silveira, é uma compilação de reportagens que o jornalista enviou para os Diários Associados. Podem ser lidas como crônicas e funcionam como um diário de viagem. Sem contar o texto ácido de Silveira, um dos grandes repórteres brasileiros.

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livros-bandeiraPosso recuar até 2006 e encontrar em “Crônicas da Província do Brasil” (Cosac Naify) o ponto de partida dessa redescoberta do gênero, apesar do hiato que viria em seguida. Essa coleção de textos de Manoel Bandeira, em uma edição caprichada, com capa dura e seleção de fotos de Pierre Verger, Marcel Gautherot e Alice Brill, traz escritos para os jornais “A Província”, do Recife, “Diário Nacional”, de São Paulo, e “O Estado de Minas”, de Belo Horizonte, publicadas nos anos 1920-1930.

É um retrato histórico de um país que ousava se formar. Que tentava encaixar sua herança cultural aos novos tempos. Esse instantâneo foi captado pelas letras de Bandeira. E estava esgotado havia 70 anos.

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Claro que estes livros não são os únicos do gênero resgatado no período que demarquei – 2011 em diante. Mas são talvez o suprassumo da crônica publicada no Brasil.

Se para ter Rubem Braga, Otto Lara Resende e Sérgio Porto é preciso topar com rottweilers, atores e comediantes, então o sacrifício terá sido recompensado.

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