Entrevista, Ficção, México

Julián Herbert: “O México é um desastre monumental de multidões”

downloadPoeta, romancista, DJ, crítico, professor e promotor cultural. O escritor mexicano Julián Herbert assume todas essas características em sua obra, a maior parte composta de poemas, e que encontrou num romance uma espécie de convergência.

“Cantiga de Findar” (Rocco), lançado pelo selo Otra Língua, é o que se costuma chamar de autoficção, ou romance autobiográfico. Nele, Herbert exerce todas os seus vieses, como ele explica na entrevista que deu ao blog.

O Otra Língua é um dos melhores projetos editoriais atualmente. Vem lançando em português títulos de autores latino-americanos que escrevem a moderna literatura do continente, além de nomes já consagrados, como Roberto Arlt e Pablo Palacio.

Neste “Cantiga de Findar”, Herbert assume a voz do narrador para contar a história de sua mãe, que está internada num hospital, para tratar de uma leucemia. Outrora bela, ganhou a vida como prostituta. Julián Herbert, o nome dado ao narrador, cuida da mãe enquanto escreve num laptop, num quarto escuro, iluminado apenas pelas luzes dos aparelhos e do computador.

O texto é o que lemos. Mistura romance, ensaio, citações e reflexões sobre a Suave Pátria, como o México é chamado. Tudo empacotado numa linguagem caótica, urbana, em meio a vinhetas, trechos de diários e memórias.  Esta Suave Pátria aos poucos se desvenda, assim como a história de Guadalupe.

Herbert, na entrevista ao blog, falou do romance, do exercício da linguagem, da morte e, principalmente, do México atual. Foi ríspido com seu país, ao mesmo tempo em que assume sua parcela de culpa: “O México também é refém da inconsciência e mediocridade dos cidadãos, um quadro no qual me incluo, porque eu não tenho sido capaz, pessoalmente, de estar à altura do que meu país precisa”.

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O escritor mexicano Julián Herbert
O escritor mexicano Julián Herbert

Em “Cantiga da Findar”, você exercita a linguagem, a construção e a estrutura do romance. Sua história se apoia nessa experimentação, que se junta à sua autobiografia. O que surgiu primeiro no romance, a experimentação ou a vontade de contar sua história?
Eu não tenho certeza se eu poderia separar as duas coisas, mas se você me apertasse eu diria que foi a experimentação. Eu comecei a escrever à beira do leito hospitalar de minha mãe, que tinha acabado de se internar com leucemia. A primeira coisa que eu coloquei na página não foi o meu texto: era a letra de uma canção do [grupo porto-riquenho] Calle 13, intitulada “Atrévete Te Te”. Eu estava tentando dormir e não conseguia, e na estação das enfermeiras havia um rádio ligado que começou a tocar essa música. Eu liguei meu laptop e comecei a transcrever a letra enquanto escutava: “Atrévete, te, te, te
salte del closet, te escápate, quítate el esmalte”. Quase que imediatamente comecei a escrever frases, reflexões, anedotas. Eu ainda não sabia que estava escrevendo um romance, mas já estava contando fragmentos de uma história autobiográfica.

Foi difícil levar os fatos reais, da história da sua mãe, para o livro?
Foi difícil na medida em que levou dois ou três meses para eu perceber que estava escrevendo um romance que pensava ser estritamente pessoal e que começou a se tornar outra coisa. Eu tive que corrigir ou jogar fora muitas páginas. Então, quando percebi o que estava fazendo, o trabalho se tornou alegre, divertido, por um tempo. Depois, veio outra descoberta: se minha mãe não morresse, o romance não teria fim nunca. E esse foi o momento mais difícil que eu já experimentei como escritor: o fosso entre a realidade e a linguagem. Talvez seja por isso que o narrador – digo “o narrador” e não o “autor”, porque escrevi essa passagem quando minha mãe já tinha morrido – demora tanto nos detalhes de sua viagem imaginária para Havana: porque ele quer atrasar a morte de sua mãe com palavras.

E em relação ao passado de sua mãe?
Se sua pergunta é sobre o quão difícil foi dizer: “Minha mãe era uma prostituta”, isso é algo que eu assumi em minha mente e em meu entender do mundo a partir dos meus 8 anos. Não foi difícil escrever, foi difícil publicar. E não pelo que as pessoas poderiam pensar de mim, mas pelos meus irmãos e outras pessoas que amo, por exemplo, minha mulher, que de alguma forma saíram mais ou menos feridos da história. Mas uma das coisas que minha mãe, que tinha mais colhão do que Manny Pacquiao (boxeador filipino), me ensinou foi enfrentar meus fantasmas com um soco limpo.

No posfácio da edição brasileira, há um trecho do escritor argentino Martin Kohan que diz que a linguagem é mais importante do que a memória e a imaginação. Como você avalia essa comparação e como sua literatura se enquadra nessas definições?
Concordo plenamente com Martin: a linguagem tem de ser o mais importante para um escritor. Sempre. Um escritor deve acreditar que a linguagem é uma espada e que é ou D’Artagnan ou Mishima. Mas gostaria de questionar a relevância de colocar num mesmo plano lógico linguagem, imaginação e memória. Eles não só não se excluem entre si, mas dão sentido em conjunto. A linguagem e memória não ocorrem, como às vezes se pensa, no mesmo plano do real, mas em níveis complementares. Vou dizer isso de outra forma: um dos aspectos neurobiológicos que estuda a poética cognitiva é que alguns dos principais elementos da retórica (metáfora e metonímia na poesia, foco e elipse na narrativa, como exemplos) não são meras convenções literárias, mas sim operações que nossa mente realiza diariamente, são habilidades inatas neurais. São língua, memória e imaginação ao mesmo tempo, apenas que ocorrem em diferentes níveis do real.

A maior parte de sua obra é composta por poesia. Os versos ajudam na hora de experimentar no romance?
Para mim, é uma pergunta difícil, porque no meu coração eu não faço uma distinção tão nítida entre gêneros literários: eu gosto da literatura híbrida, mestiça, antropófaga, não somente em termos culturais, mas também em termos formais e de instrumentação. Acho que a resposta mais simples é: sim.

Você cita Oscar Wilde no livro e faz uma série de avaliações sobre o ato de escrever. Esse exercício, que expõe o escritor, seus dilemas e opções, o incomoda?
Para mim, o que mais me incomoda é escrever. Eu só escrevo para ter algo a corrigir, ou seja, reescrever. Eu amo isso. Não, eu não me importo de falar sobre as lacunas e dilemas do ato de escrever porque, basicamente, na verdade estou falando sobre as lacunas e dilemas do ato da leitura. E eu posso não ser um bom escritor, mas não tenho dúvida de que sou um leitor talentoso.

Qual sua relação com a leitura?
Leio muito, de forma confusa e desordenada, e tudo que eu escrevo é cheio dessas leituras, não me importa se são prestigiadas ou banais. Eu não leio para escrever, eu escrevo para ler. Mais do que um autor, sou um DJ. Eu assumo como próprios todos os escritos disponíveis. Muito do que eu escrevo é feito de citações, como Wilde, Cabrera Infante, Eros Alesi (poeta mexicano) ou Ovídio, letras de canções ou trechos de roteiros de telenovelas mexicanas. Eu não sou um homem educado no sentido europeu, mas em um sentido mais próximo do modernismo brasileiro. Leio da mesma forma [o poeta romeno] Paul Celan, as “Mémoires d’Outre-Tombe” (autobiografia em 42 volumes publicada em 1848), de Chateaubriand, os ensaios de estética de Nicolas Bourriaud, as confissões de Irma Serrano, uma atriz que dormiu com Diaz Ordaz, ex-presidente do México, ou o testemunho de José “El Guero” Gonzalez, um assassino que foi guarda-costas do chefe de polícia Arturo Durazo. Por isso, posso distinguir facilmente um charlatão tipo Dan Brown de um verdadeiro artista e escritor de pulp westerns, como Marcial Lafuente Estefania.

O escritor brasileiro Ricardo Lísias, que também embaralha realidade e ficção, disse numa entrevista que o leitor dos seus livros preferiu focar na realidade e não na ficção. Para ele, isso é algo triste, pois já basta a realidade em que vivemos. Para você, como se dá essa relação com os leitores?
No geral, eu tenho a impressão de que, pelo menos em espanhol, os leitores de “Cantiga de Findar” estão divididos em dois tipos. O primeiro é menor e está mais interessado em sua natureza experimental, a noção de escrita processual – como um reality show – que aparece no livro. Isso, e as digressões construídas a partir de relatos de viagem e aspectos metaficcionais: o narrador como construção num abismo que reflete a partir de camadas diferentes do presente sobre sua condição de autor, narrador e personagem. O segundo tipo, que é o maior, leu o romance como tragédia tanatológica, como crítica social e testemunho autobiográfico de uma criança resiliente, ou seja, uma criança que superou o sofrimento para buscar “uma vida melhor”. Eu prefiro, é claro, a primeira leitura, que tem a ver com as minhas capacidades estéticas. Mas não desconsidero a segunda: todo mundo lê o livro que pode, que molda a sua cabeça. Eu sou realmente grato, porque “Cantiga de Findar” tem tido leitores generosos dos dois tipos. Como disse antes, eu sou principalmente um leitor e não me interessa alterar a forma como os outros leem. Com uma exceção: a poesia mexicana escrita nos últimos 20 anos, que é a única parcela da literatura em que eu exerço a crítica literária. Estou mais interessado em depurar o jeito que eu leio do que explicar aos outros como eles devem ler.

21472829Em uma entrevista ao “El País”, você diz que está obcecado com a morte, por causa da sua iniciação na leitura. Como essa obsessão se reflete em seu trabalho?
Em “Cantiga de Findar”, fica claro a partir do título. É um tema relacionado com “Tira de la Peregrinación”, o longo poema iconográfico que fecha “Álbum Iscariote”, meu livro mais recente. E agora estou escrevendo uma história sobre o massacre de 303 chineses em Torreón, no México, em maio de 1911. É a mais terrível matança de chineses na história da América, e a cidade onde aconteceu fica perto de onde eu moro. É também um tema constante dos meus verso: a morte da linguagem. E não necessariamente como uma representação histórica porque uma das minhas maiores fantasias é assassinar a linguagem, como quem mata Deus ou seu pai. Em suma, é uma questão complexa.

Você e Guadalupe Nettel, também publicada pelo Otra Língua, trabalharam com essa mistura de realidade e ficção. A autoficção é um gênero necessário para o México atual?
Não sei se é necessário, mas é algo que está acontecendo. E não somente no México. Veja os romances de Patricio Pron [jornalista e escritor argentino], Alejandro Zambra [escritor chileno] e Marcos Giralt Torrente [escritor e crítico literário espanhol], para citar alguns relacionados não somente com a autoficção, mas especificamente com a relação com os pais. Em 2012, passei um mês na Alemanha e um editor me contou sobre seu trabalho mais recente, um romance, que eu não li, sobre uma garota que contava sua vida e seu relacionamento com os pais durante a queda do Muro de Berlim. [A escritora argentina] Mariana Eva Pérez estourou recentemente graças a seu blog que se tornou o romance “Diario de una Princesa Montonera”, uma espécie de crônica satírica e sangrenta sobre os filhos desaparecidos na ditadura militar na Argentina. Duvido que essas coincidências sejam um mero produto do acaso ou de marketing, porque – muito além do cinismo de alguns livreiros – a cultura é um fenômeno que geralmente rima.

Se você tivesse que selecionar autores mexicanos para a coleção, quem você indicaria?
Há alguns que me parecem escolhas óbvias e indiscutíveis: Valeria Luiselli, Cristina Rivera Garza, Yuri Herrera, Antonio Ortuño, Álvaro Enrigue, Eduardo Antonio Parra. E há outros que são pouco conhecidos até mesmo no México, mas me parecem extraordinários: Nicholas Cabral, Gabriel Wolfson, Criseida Santos Guevara, Patricia Laurent, Wenceslao Bruciaga.

Como você vê o massacre dos 43 estudantes no México? 
É uma questão que não é fácil de responder. O país está passando por uma crise institucional que vai além dos cartéis de drogas, porque o retorno ao poder do PRI (o partido hegemônico tradicional) trouxe novos atores e mecanismos de poder e controle mais complexos à cena. O governo é politicamente fraco, ou, pelo menos, tem sido tragicamente errático nos últimos meses, e isso tem gerado uma nova camada de problemas sociais, políticos e de leitura de violência que foram sobrepostos aos tradicionais problemas de caráter econômico, criminal e tributário gerados pelo tráfico de drogas, mas também pelo setor informal promovido pela esquerda. Além disso, o partido de esquerda está em crise, é a força política que mais se deixou cooptar pelos cartéis. Um dos efeitos colaterais desse fenômeno foi a diáspora militante: a esquerda está deixando a esquerda. Alguns vão para um novo movimento que se postula como quase tão ruim quanto o anterior. Assim, a maior parte da esquerda mais séria não tem para onde ir, em parte porque não temos uma reforma política eficaz que permite a criação de novos partidos, com líderes jovens – todos os líderes esquerdistas são idosos.

E como esses jovens estão se movendo?
Na ausência de opções políticas democráticas reais, alguns jovens estão radicalizado, movendo-se para a anarquia violenta. A resposta do Estado foi ameaçar com uma nova guerra suja contra estudantes e ativistas. Se isso acontecer, a vida de milhares de jovens mexicanos corre perigo não por causa dos cartéis, mas pelo exército e a polícia federal. Nós tivemos indícios desse risco: incursões do exército nas universidades e o sequestro de um casal de estudantes, que mais tarde apareceu em uma instalação do governo e foi liberado.

Como o governo age com os problemas?
Acima de tudo, temos que lidar com a incompetência de Jesus Murillo Karam, procurador-geral de Justiça, que, apesar de seus erros constantes, é inexplicavelmente apoiado pelo presidente da República. Por exemplo, a mulher do presidente da República é dona de uma casa impossível de ter sido comprada legalmente – somente um dos artistas mais bem pagos de Hollywood poderia pagar, e não uma mera atrizinha de telenovelas -e o dado mais grave, apesar do ridículo internacional, é que a Presidência da República declarou de forma autoritária e cínica que o assunto está fora de discussão. Em 20 de novembro, em uma manifestação popular que protestava contra o massacre dos 43 estudantes, um grupo de jovens queimou uma efígie do presidente Enrique Peña Nieto e clamava por sua renúncia, reivindicação com a qual eu discordo: acho que a renúncia do presidente poderia causar mais caos. Enquanto tudo isso acontecia, grandes empresas como a Telmex e Televisa ignoravam a manifestação, seguiam com a programação como se nada estivesse acontecendo e continuavam a praticar uma chicana política, como utilizar a morte de um comediante popular como Chespirito [o comediante Roberto Bolaños, criador do Chaves, morto em 28 de novembro] para distrair a atenção ou propor um Teletón raquítico e brega.

A manifestação contra o massacre dos estudantes e a queima da efígie do presidente mexicano
A manifestação contra o massacre dos estudantes e a queima da efígie do presidente mexicano

O país está refém dos narcotraficantes?
O México é mantido refém do medo, da ganância, autoritarismo, cinismo, incompetência, absoluta falta de autocrítica, e isso inclui como protagonistas os cartéis de narcotraficantes, é claro. Mas o México também é refém do Estado, do presidente, da sua mulher, da secretária de governo, do procurador-geral, dos partidos políticos, das forças de ordem, dos grandes empresários e, em menor medida, da inconsciência e mediocridade dos cidadãos, um quadro no qual me incluo, porque eu não tenho sido capaz, pessoalmente, de estar à altura do que meu país precisa. Mais do que um Estado falido, o México é um desastre monumental de multidões.

Como a literatura mexicana está se posicionando diante dessa crise social e da presença do tráfico?
Eu não posso falar pela literatura mexicana, posso falar do que eu faço. E o que faço é tentar escrever sem compromisso ou laços políticos – o que nem sempre consigo. Eu tento exercer a crítica política independentemente dos meus interesses estritamente estéticos. E, acima de tudo, trabalho não como um escritor, mas como promotor de leitura em áreas vulneráveis, especialmente com adolescentes em áreas de crise de violência. Coordeno projetos de processos literários e de escrita. Eu não acho que um escritor, qualquer escritor, deva assumir uma práxis política para fazer o seu trabalho. Um escritor tem que, em primeiro lugar, tornar-se o melhor escritor que puder ser. O que acontece é que no meu caso o melhor escritor que eu posso ser, dado o meu caráter, a minha visão de linguagem e os meus processos formais, tem que se envolver politicamente contra o poder.

Como a cultura pode ajudar a enfrentar esse cenário?
Recentemente, ministrei uma oficina literária em uma zona de conflito (Apatzingan, Michoacán) com jovens violados pelo tráfico de drogas. Uma menina de 15 anos, a mais animada de todos, que quer ser escritora, disse que seu pai cumpre pena de 60 anos por seu envolvimento com os cartéis. Outro garoto da mesma idade me contou como ele apanhou do Exército até quase morrer porque ele estava a serviço do tráfico de drogas. Apesar da dureza dessas histórias, não notei em qualquer um dos dois jovens um pingo de cinismo. Foram à oficina, cujo tema foi os monstros na literatura, trabalharam, criaram, tenho a impressão de que eles eram honestos sobre si mesmos, me trataram com respeito e carinho e foram totalmente responsável por suas tarefas. Isso é mais do que pode ser dito para a metade dos adultos em meu país.

Para fechar, voltando ao seu romance, é possível relacionar Guadalupe Chávez com o México atual?
Estou prestes a fazer 44 anos. Eu tenho um filho de 20, Arturo. Aos 18 anos, ele teve um filho. Não me contou até uma semana atrás, no meio de uma farra. Hoje é sábado. Domingo de manhã eu vou finalmente conhecer Arturo Gabriel, meu primeiro neto. Eu sou um avô e eu sou um menino, nunca amadureci. Claro que é possível relacionar a Guadalupe Chávez com o México atual: continuamos a cometer erros, destruindo nossa vida adulta na juventude, continuamos a ser felizes e alegres, ainda dançando, ainda matando uns aos outros, continuamos a tolerar esta merda de governo, seguimos sendo pobres, ainda amamos a beleza que não entendemos, somos putos e putas, seguimos sendo filhos da puta. Quando foi diferente na América mestiça?

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“-Li a nota autobiográfica que vinha junto com seu conto numa antologia. Achei-a divertida, mas obscena. Não me explicou o porquê de você se empenhar tanto para fingir que uma ficção tão terrível é ou foi algum dia real.

Observações como essa me deixam pessimista acerca do futuro da arte de narrar. Não lemos nada e exigimos que essa nada careça de matizes: ou vulgar, ou sublime. E pior: vulgar sem lugares-comuns, sublime sem ser esdrúxulo.”

“Gostaria de debochar da minha mulher por dizer coisas tão piegas. Mas não tenho forças. Além do mais o sol cai com uma alegria palpável sobre meu rosto, sobre o gramado recém-molhado, sobre as folhas de jacarandá… Me jogo na grama. Maruca, nossa cadela, sai correndo e pulando para me receber. Fecho os olhos. Ser cínico requer retórica. Tomar sol, não.”

“Nesta Suave Pátria onde minha mãe agoniza não sobre sequer um pedaço de papel picado. Nem uma dose de tequila que o perfume do marketing não tenha corrompido. Nem mesmo uma tristeza ou uma dignidade ou um tumulto que não tragam impressos em si, como ferro de marcar gado, o fantasma de uma AK-47.”

“A maneira mais enriquecedora de sentir o passado (íntimo ou histórico, tanto faz) é abandonar-se na percepção física do tempo: um instante que está sempre no futuro. É por isso que a culpa e a nostalgia são emoções miseráveis.”

“Assim, partindo da febre ou da psicose, é relativamente válido escrever um romance autobiográfico no qual a fantasia também passeie. O importante não é que os acontecimentos sejam verdadeiros: o importante é que a doença e a loucura o sejam.”

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