Brasil, Entrevista, Ficção

Um livro sem adjetivos: o desafio a Flavio Cafiero

Em 1960, surgiu na França um movimento que pretendia constranger literatura. Criado por escritores e matemáticos, o Oulipo (Ouvroir de Littérature Potentielle, Oficina de Literatura em Potencial, na tradução livre) provocava autores a escrever com regras.

Por exemplo: Georges Pérec escreveu um livro sem a letra e, a mais comum do francês – “La Disparition”. Participaram do movimento Italo Calvino e Raymond Queneau, entre outros.

A e-galáxia, que publica somente livros digitais, recriou o Oulipo no Brasil, por meio do Selo Jota, editado pela escritora Noemi Jaffe. Em entrevista ao blog, ela explicou como seria seu trabalho: “A proposta é chamar autores que tenham poucas publicações ou mesmo nenhuma, mas que eu considero bons escritores, 
e, a partir daí, propor desafios a eles, nos moldes do Oulipo, 
e fazer livros curtos
, numa regularidade mensal”.

10749973_618736294922550_6182108921746850442_oO autor que inaugurou o Jota foi Flavio Cafiero, que escreveu “O Capricórnio se Aproxima”. Os próximos serão Samir Mesquita e Ana Estaregui.

Cafiero foi aluno de Noemi na oficina de escrita criativa que ela ministra na Casa do Saber. Desse encontro, saiu o convite, turbinado pela boa recepção dos livros do autor. O romance “O Frio Aqui Fora” (Cosac Naify) foi finalista do Jabuti e do Prêmio São Paulo de Literatura e a coletânea de contas “Dez Centímetros Acima do Chão” (Cosac Naify) venceu o Prêmio Cidade de Belo Horizonte.

Para “O Capricórnio se Aproxima”, o desafio lançado por Noemi tinha como regras:

  • Escrever sem adjetivos
  • Usar todas as letras do alfabeto em todos os capítulos, incluindo k, w e y
  • Usar pelo menos um numeral em cada capítulo
  • Cada capítulo deveria ter no máximo 500 palavras

Cafiero então conta a história de João, motorista de táxi que se vê em meio a uma crise conjugal. Memórias de infância e familiares se misturam à tecnologia – os aplicativos para táxi – e ao inglês preparativo para a Copa do Mundo. Pelo olhar de João, conhecemos o Rio de Janeiro dos motoristas, seus passageiros e o que cerca esse universo – futebol, sexo, TV, comida.

O autor conversou com o blog para falar do desafio imposto pelo Jota. Cafiero é um ex-executivo que largou a profissão para se tornar escritor. Essa história está contada em outras entrevistas espalhadas pela rede. Aqui, ele fala do seu trabalho, das dificuldades de seguir as regras e da crítica. “Do ponto de vista artístico, só pretendo fazer concessões a mim mesmo”, disse.

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O escritor Flavio Cafiero | Foto: Mila Bertoluci

Como foi lidar com as regras na hora de escrever? Você se vigiava ou deixava para arrumar numa leitura posterior?
Abrir mão de adjetivos foi tranquilo. Assim que escrevia algum por descuido, procurava substituir imediatamente. Com o tempo eles pararam de aparecer. No fim, o texto ficou mais leve, menos prolixo, com as ações dominando. A obrigatoriedade das letras deu mais trabalho, pedia pesquisa e revisão constantes, e gerou mais impacto no resultado final. O recurso de utilizar nomes de rua, por exemplo, como alternativa à solução fácil dos nomes próprios de personagens, como Kátia ou Wanderley, definiu a profissão do protagonista, que se transformou num taxista já no segundo capítulo. Isso determinou todo o cenário da história, as ruas do Rio de Janeiro. O mais interessante é que as restrições, além de abrir ainda mais as portas para o imponderável, deixaram o processo de criação com um jeito de jogo. Eu me diverti muito escrevendo o livro.

O que muda em escrever com regras?
As regras tiram o escritor da zona de conforto e guiam o texto para soluções que, espontaneamente, talvez não aparecessem. Tanto do ponto de vista formal quanto do ponto de vista da trama. Exercícios de restrição e obrigatoriedade podem ajudar o escritor a alimentar o próprio estilo com novos recursos e técnicas. Além disso, treinam o autor a escrever com mais consciência e intencionalidade. Ao contrário do que se imagina, as regras podem alargar o alcance de um texto. Não por acaso, é um recurso recorrente em oficinas de escrita criativa.

Qual regra mais te incomodou, que mais travou o desenvolvimento da trama?
Não aconteceu. Como disse, as regras foram fundamentais para o resultado final, e tudo transcorreu como uma grande brincadeira. Uma brincadeira séria, como definiu o Thiago Ferro, editor da e-galáxia.

dezAo final, qual sua avaliação dessa proposta, como escritor?
Positiva, sem dúvida. Conheço o potencial dos exercícios restritivos, pois a Noemi já usava isso nas oficinas de escrita que frequentei. Alguns dos contos do livro “Dez Centímetros Acima do Chão” nasceram de exercícios desse tipo. Mesmo que você “limpe” as obrigatoriedades numa revisão final, o que aconteceu em alguns, o impacto no texto é indelével.

Você alternou contos e romance. E agora escreveu sob encomenda. Como o escritor reage a esses desafios? Como eles moldam sua técnica? 
Na verdade eu não alternei. O meu primeiro romance e os do contos da coletânea foram escritos ao mesmo tempo, e sem abandonar as aulas de escrita criativa, o que me fazia escrever “sob encomenda” para responder aos exercícios do curso. Foi tudo misturado. Isso, sem dúvida, moldou minha técnica. Minha rotina de escrita, por exemplo, nasceu nesse período. Encontrei minha hora e meu jeito de escrever. Ficará para sempre. Minha experiência um pouco caótica me levou a certa ordem, e a diversidade de gêneros catalisou essa depuração. Do ponto de vista do estilo, essa mistura me empurrou na direção do inconformismo. Mudar, pesquisar, misturar gêneros: tudo isso faz parte do meu jogo, definitivamente.

Todos os seus livros foram lançados no formato digital, e “O Capricórnio se Aproxima” somente nessa plataforma. Como você avalia o formato, a experiência de leitura? O que isso muda, se é que muda, para o escritor?
Se você escreve já sabendo a plataforma de antemão, há diferença. Recentemente li uma reportagem sobre as primeiras obras criadas especificamente para o formato audiobook. O resultado é praticamente um retorno às radionovelas. Escrever exclusivamente para o formato e-book me levou naturalmente para o caminho da brevidade, das formas sucintas, pois em telas de tablets ou smartphones só consigo ler textos curtos. Para outro escritor, que seja usuário de leitores digitais, talvez a diferença fosse menor na hora de escrever. Como leitor, ainda sou fã do papel, mas penso que a tendência é a redução do formato impresso no mercado editorial.

Você teve aula com a Noemi Jaffe, que foi sua editora no Selo Jota. Isso te influenciou de alguma forma na hora de escrever o conto?
Talvez a amizade tenha ajudado no tom informal do processo. A alegria do reencontro e o lisonjeio do convite encheram a experiência de prazer. Foi ótimo.

Seus livros tiveram boa acolhida da crítica. Para alguém que veio de um meio fora do circuito cultural, como foi encarar a crítica?
O fato de vir do universo corporativo ajudou a encarar a negativa com naturalidade. Quando você é funcionário, ainda mais ocupando um cargo gerencial, a avaliação faz parte do jogo: você é avaliado formalmente no fim do ano e diariamente por sua equipe, incluindo pares. Embora seja um crítico da crítica atual, dessa mania de dar estrelinhas e notas aos livros, convivo com as resenhas de um jeito saudável. Algumas críticas me deixaram feliz, pois mostraram que minhas intenções foram captadas por alguns leitores mais difíceis. Outras me chamaram a atenção para lacunas que talvez possam ser mais bem preenchidas nas próximas criações, e isso é ótimo. Uma em particular foi desrespeitosa e preconceituosa. O fato de ter sido executivo e não ter formação literária me faz um intruso na visão curta de alguns. Muito resenhistas são, como se sabe, escritores. Alguns, frustrados. Poucos, felizmente. No geral, as resenhas me fizeram bem, me fizeram refletir. Mas não cogito fazer concessões baseadas na leitura particular de fulano ou sicrano. Do ponto de vista artístico, só pretendo fazer concessões a mim mesmo, e minhas concessões pessoais têm a ver com meu processo de amadurecimento, de estudo constante, de não-acomodação.

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4 thoughts on “Um livro sem adjetivos: o desafio a Flavio Cafiero”

  1. Isso é simplesmente ridículo e mostra como a estética modernista ao usar os meios expressivos não como meio, mas como um fim reflete uma época de decadência cultural. Cafiero com suas frases caricaturais e sua filosofia rasa é só um alienado que acha que é escritor com ajuda dos pseudocríticos de hoje em dia.

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    1. Caro Ricardo, o livro em questão é um exercício para o qual ele foi convidado. As regras fazem parte desse trabalho. Discordo de sua opinião em relação ao trabalho proposto. Sobre Cafiero e seus livros, me pareceu uma crítica desnecessária e exagerada para o local. Um abraço

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