Notas de leitura

Sedaris“Engolido pelas Labaredas” (Companhia das Letras), de David Sedaris
Após ler “Eu Falar Bonito um Dia”, fiquei interessado no trabalho de Sedaris, autor que mistura autobiografia e ensaios, num formato muito próximo ao da crônica, com bom humor e uma esperta observação do que ocorre ao redor. Neste outro volume de textos, estamos novamente diante de fatos que remetem à sua infância e adolescência, sua morada em Paris e depois num vilarejo na Normandia e ao seu relacionamento com Hugh. Sedaris escreve muito bem, transforma atos banais, do cotidiano, em uma crônica dos tempos. O melhor texto desta coleção é “Área de Fumantes”, um longo ensaio sobre sua tentativa de parar de fumar. Para tanto, ele viaja a Tóquio, para fugir da sua rotina. Enquanto narra sua experiência sem o cigarro, Sedaris entrega um relato de viagem riquíssimo – Tóquio nunca foi tão divertida e dissecada como nessa crônica.

13488_gg“Reprodução” (Companhia das Letras), de Bernardo Carvalho
O livro venceu o Jabuti de romance neste ano. Desde o seu lançamento, em 2013, fiquei tentado a ler este que muitos consideram o melhor trabalho de Carvalho. Minha experiência anterior com o escritor não tinha sido das melhores – “Nove Noites” e “Mongólia” desceram com muito esforço. Então, estimulado pela premiação, resolvi dar uma chance ao livro. A história começa com a prisão de um estudante de chinês, que se preparava para viajar à China, quando um homem tira a mulher que estava à sua frente na fila de embarque. O estudante, nunca nomeado, percebe que a mulher era sua professora, que abandonou o curso. Ele também é detido para dar informações sobre a mulher. E despeja todo tipo de preconceito – é o tal comentador de internet que a contra-capa e toda a campanha de divulgação disseram ser o mote do livro. Que nada. Essa é só a primeira parte do livro. Entram monólogos de um policial e de uma delegada (são partes de um diálogo, mas reproduzidos pela metade, pois o estudante só consegue ouvir um lado da história). E descobrimos que a história é outra. Carvalho escreve bem e domina as técnicas narrativas. Mas ao final deste “Reprodução”, restou a dúvida: e daí? O livro não caminha e fica a sensação de ser apenas um exercício de estilo. 

grande-irmao-lionel-shriver-ligia-braslauskas-livro-600“Grande Irmão” (Intrínseca), de Lionel Shriver
A escritora é autora de “Precisamos Falar Sobre o Kevin”, livro que se transformou em filme, uma das boas perturbadoras histórias dos últimos anos. Neste “Grande Irmão”, Lionel conta a história de Edison, um músico de jazz que ficou obeso e desembarca na casa da irmã, Pandora, para ficar uma temporada. Sua chegada vai ativar uma crise familiar com o marido, Fletcher, incomodado com os vícios de Edison (fumante, bagunceiro) e sua fome quase insaciável – a cena em que ele come açúcar direto do pote é chocante e muito bem escrita. Pandora então propõe ao antes bem relacionado irmão e agora falido um regime radical de um ano. Ela sai de casa para ajudá-lo e enfrenta a resistência do marido. Lionel trata então da obsessão pela comida e objetivos e discute relações familiares que se veem de repente tomadas por contingências. Ela é uma excelente contadora de história, sua prosa envolve e o fluxo narrativo é quase compulsivo. Seria um grande livro se o final não deixasse um gosto amargo, de enganação – é o máximo que posso escrever sem estragar a surpresa.

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