Brasil, Comentário, Ficção

Os selos de Ruy Castro

53b3559c-6995-4d3a-82f6-4a3d6d86823cA história no entorno de “O Oitavo Selo” (Cosac Naify) é o melhor chamariz para o livro de Heloisa Seixas. A inspiração do título vem do filme “O Sétimo Selo”, de Ingmar Bergman, em que um cavaleiro volta das cruzadas e descobre que a Morte está esperando por ele. Como desafio, ele chama a Morte para uma partida de xadrez, para ganhar tempo.

Oitavo também é o momento em que o marido de Heloisa, o escritor Ruy Castro, se encontra. Após enfrentar a morte sete vezes, não só ele sobreviveu mas como soube driblá-la com bom humor.

Essa é a história do livro, um pequeno caderno em que Heloisa assume tons de ficção para contar a realidade – não à toa o livro tem como subtítulo “Quase Romance”, outra homenagem, desta vez a Carlos Heitor Cony, autor de “Quase Memória.

Os personagens não têm nome, são o homem e a mulher. Os sete degraus do homem passam pelos problemas de Ruy Castro – a morte da irmã, o vício em cocaína, o alcoolismo, o câncer na garganta e, anos depois, na próstata, enfarto e um vírus que invadiu seu cérebro.

Heloisa constrói sua história como um recorte da biografia de Ruy Castro. Recheado de citações literárias e de referências cinematográficas, o livro acompanha a luta a cada degrau, o enfrentamento do homem e a angústia da mulher. Delicadamente, a autora tece o cotidiano do casal em meio a internações, dores, tratamentos e medo. Para acompanhar, a cumplicidade de ambos e o bom humor que alivia a tensão nos momentos mais tensos.

Narrativa de rara entrega, “O Oitavo Selo” expõe no limite a vida de ambos, apoiado pelo tom romanceado. Em meio às descrições, surgem depoimentos em primeira pessoa de Ruy Castro e Heloisa Seixas, a misturar ainda mais as receitas de realidade e ficção – o livro é classificado como ficção.

Sem autocomiseração, o livro escapa de lições de moral, de vida e afins. É a história de um sobrevivente, que diz que o oitavo selo é a vida.

*****

“Ao voltar para o quarto na noite anterior, saindo da sala de projeção, levara a imagem com ele: o rosto desfeito de Ray Milland, a barba crescida, o olhar do desespero. Assistir ao filme de Billy Wilder, ‘Farrapo Humano’, fazia parte da terapia. Já o assistira no passado e se impressionara com a cena de delirium tremens. Mas ele próprio não passara por aquilo. Minuto a minuto, durante os primeiros quatro dias, experimentara sensações que nunca esperara conhecer – tremores terríveis, por todo o corpo, por fora e por dentro, como se fosse uma coqueteleira ambulante. Ambulante, não, porque mal conseguia andar ou ficar de pé. Tinha também insônia, calafrios, sudorese. E ainda culpa, vergonha e medo.”

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