Comentário, Estados Unidos, Ficção

O futuro, por Dave Eggers

O futuro, para Dave Eggers, será controlado por uma única empresa, que deterá todos os dados do cidadão em uma única conta. Essa empresa saberá o que você faz, onde você mora, seus deslocamentos, do que você gosta ou não, sua situação financeira, sua saúde, seu passado. Tudo isso com um único login.

Você será coagido a compartilhar, participar, ser sociável. Em nome da confiança e do bem estar, nada escapará do universo digital, dividido em múltiplas telas, redes e controlado por apenas uma empresa.

ocirculoEggers, autor de “Zeitoun” e “O Que é o Quê”, descreve em “O Círculo” (todos Companhia das Letras) esse futuro distópico, talvez nem tão distante do que vivemos hoje – a inspiração claramente é o Google. O Círculo, o nome da empresa, disfarça o controle por discursos de liberdade e transparência. Políticos são convidados a carregar uma minicâmera para que seus eleitores saibam tudo o que está sendo conversado – a desculpa é acabar com a corrupção. As mesmas minicamêras são espalhadas por todos os lugares, abertos e fechados, como forma de compartilhar informação.

O impacto dessa ideia é grande. Talvez porque essa falta de privacidade já esteja presente, viva, sempre a nos lembrar de que não podemos mais escapar do isolamento.

Eggers escreve muito bem. Seus livros citados acima misturam reportagem com ficção, em narrativas que envolvem o leitor na tragédia do Katrina e do garoto que nasceu no Sudão e conseguiu sobreviver à violência das milícias.

Apesar do tom ficcional, “O Círculo” poderia ser muito bem uma narrativa de não ficção para o leitor de 2050. E é nesse ponto que está a grande força do livro. Avisos de quebra de privacidade, escândalos de dados roubados, GPS onipresente, diálogos estritamente virtuais, o mundo não esquece de nos avisar diariamente que somos cada vez mais vigiados e menos sociais. Eggers elevou à enésima potência esse cenário.

Mae Holland é a jovem que acabou de ser contratada para trabalhar no Círculo. Embevecida pela oportunidade, é obrigada a encarar uma rotina estressante, cheia de regras e convenções. A empresa classifica os funcionários conforme sua quantidade de compartilhamentos e socializações. É um mundo de crianças que não cresceram – em certo momento, um superior chora porque Mae não compareceu a um evento que ela havia curtido.

De novata apadrinhada por sua amiga Annie, uma superexecutiva do Círculo, Mae sobe rapidamente na estrutura do conglomerado. Vai ser elevada a rosto da empresa. Não sem antes comprometer relações familiares e afetivas.

O livro sofreu críticas por seus diálogos primários e descrições pobres das cenas de sexo. Mas fiquei com a sensação de que Eggers buscou o exagero para descrever uma geração de pessoas que não sabem mais viver sem digitar. Que buscam dividir tudo e não preservam intimidades. Contam onde estão, o que fazem e o que comem.

Assim como os comentários e posts em grande maioria beiram o analfabetismo atualmente, sem argumentação e raciocínio, Eggers levou para dentro do livro esse universo de simplório, preto e branco. As relações são robotizadas, como a seguir um manual de instruções.

Ao final da leitura, o resultado é assustador. Mais ainda porque esse futuro parece muito real. E próximo.

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2 thoughts on “O futuro, por Dave Eggers”

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