Brasil, Ficção

Um tempo para João Antônio

Escritor maldito, representante da literatura marginal, representante de uma certa boemia, aquela que frequenta pés-sujos, convive com malandros, prostitutas e toda gama de miséria.

João Antônio (1937-1996) é daqueles nomes sempre pronto a ser rotulado. Sua obra, que passeia pelo registro jornalístico à mais inventiva prosa no formato de conto, até se encaixa nas definições mais apressadas, mas há um movimento, silencioso, que promete, ainda que não seja a sua intenção, acrescentar outros rótulos à biografia de João Antônio.

No início dos anos 2000, a Cosac Naify começou a resgatar a obra do escritor paulista que se encontrou no Rio de Janeiro. Em edições caprichadas e bem cuidadas, recolocou o nome de JA no seu devido lugar – “Ô, Copacabana”, “Malagueta, Perus e Bacanaço”, “Leão de Chácara”, “Dedo-Duro” e “Abraçado ao Meu Rancor”. Logo, os títulos rarearam nas prateleiras. Havia uma demanda reprimida.

contos-reunidos_livroAté 2012, quando a editora lançou “Contos Reunidos”, um volume de fôlego que engloba o melhor de sua produção (com exceção de “Ô, Copacabana”, os títulos anteriores foram selecionados para este título), prefácio de Rodrigo Lacerda, fortuna crítica e um caderno com a reprodução em fac-símile do “Vocabulário das Ruas”, criação do escritor com os significados de gíria e do coloquialismo das ruas.

Tudo isso foi possível pois a família do escritor doou o acervo ao Cedap (Centro de Documentação e Apoio à Pesquisa) da Faculdade de Ciência e Letras de Assis, ligada à Universidade Estadual Paulista, em 1998.

O acervo reúne a biblioteca do escritor, pastas de recortes de jornais (com artigos de e sobre JA), originais, correspondência, documentos diversos, alguma iconografia, discos e mobiliário (escrivaninha, cadeira, chapeleiro e marquesa).

primeiros livros
Os livros mais antigos da biblioteca de João Antônio, encadernados e numerados pelo escritor | Foto: Acervo JA

Segundo Ana Maria Domingues Oliveira, coordenadora do projeto Sistematização do Acervo João Antônio, os arquivos estão sob a guarda do Cedap, cedidos pelo filho do escritor. A doação definitiva ainda não foi feita.

Ana Maria diz, em entrevista ao blog, que ainda “há farto material inédito, que deverá ser lançado em livro na medida em que houver interesse do herdeiro e da editora”.

Segundo Milton Ohata, coordenador editorial do livro na Cosac, “há muito material inédito em livro que precisa ser pesquisado, reunido e editado, mas que está disperso em jornais do Rio, Londrina, São Paulo etc. Nem tudo está na Unesp”.

Um dos exemplos desse material disperso é o conto “A Palmo Acima dos Joelhos”, publicado em “Contos Reunidos” e que era um “inédito puro, localizado na caixa de documentos que está ainda com a família”.

Sobre “Ó, Copacabana”, não incluído em “Contos Reunidos” porque entra na categoria jornalismo literário: “Vamos incluir esse texto num volume à parte com textos semelhantes”, diz Ohata.

Para o blog, Ana Maria falou também do acervo, da presença de João Antônio na academia e da importância de sua literatura. “A obra de João Antônio está em sintonia com seu tempo, sobretudo no que se refere ao comprometimento com a questão social e ao esgarçamento das fronteiras entre jornalismo e literatura.”

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JA em MogiMirim
João Antônio em Mogi-Mirim, em data desconhecida | Foto: Jácomo Mandatto

A academia reconhece a literatura de João Antônio?
A obra de João Antônio é hoje bastante bem avaliada pela academia. Há muitas dissertações e teses defendidas sobre o escritor, além de trabalhos de iniciação científica e pós-doutorados. Parte das pesquisas feitas em Assis pode ser encontrada no site da universidade. Acredito que, desde a chegada do Acervo João Antônio ao Cedap, tem havido uma intensificação nos estudos sobre o autor, inclusive pela possibilidade de acesso aos documentos.

Como foi o trabalho com a Cosac para o lançamento de “Contos Reunidos”? Houve participação do Cedap na organização?
A edição dos “Contos Reunidos” foi resultado de um trabalho do [coordenador editorial] Milton Ohata, com a colaboração do pessoal do Cedap. A caderneta que contém o dicionário de gírias, cujo fac-símile acompanha a edição, foi tema de um trabalho de iniciação científica orientado por mim, no Acervo João Antônio, no Cedap, ocasião em que a editora tomou conhecimento de sua existência.

Como a obra de João Antônio se encaixa na literatura brasileira?
A obra de João Antônio está em sintonia com seu tempo, sobretudo no que se refere ao comprometimento com a questão social e ao esgarçamento das fronteiras entre jornalismo e literatura. Por outro lado, isso não quer dizer que não haja uma preocupação estética. Ao contrário, nota-se sempre um trabalho literário minucioso e sensível. Muitas vezes, pode-se até perceber um certo flerte com a poesia, no que se refere ao ritmo das frases e à cuidadosa escolha lexical. É uma obra singular, com múltiplas faces, e que merece ainda muitos estudos.

Normalmente, João Antônio é ligado a uma certa literatura marginal, como Ferréz o classificou numa edição especial da revista “Caros Amigos”. Esse rótulo restringe ou abrange o que foi o trabalho do escritor?
O termo marginal, nesse caso, me parece justo quando pensamos no recorte da sociedade sobre o qual João Antônio opta por escrever. Por outro lado, o lugar que ele ocupa no cenário da literatura brasileira de seu tempo não me parece marginal, uma vez que se trata de um autor de talento reconhecido pela academia e pela crítica e que sempre teve boas vendas de seus livros. É importante lembrar que seu primeiro livro surge publicado por uma das mais importantes editoras dos anos 60 no Brasil, a Civilização Brasileira.

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O escritor João Antônio | Foto: Arquivo da família

João Antônio se mostra um leitor assíduo de Lima Barreto. Onde encontrar a influência do escritor carioca na obra e vida do contista? 
Todos os seus livros (com exceção da primeira edição de “Malagueta, Perus e Bacanaço”) foram dedicados a Lima Barreto. Acredito que a opção de escrever sobre a vida das classes sociais mais baixas é um grande ponto de união entre ambos. Também é importante lembrar que em “Calvário e Porres do Pingente Afonso Henriques de Lima Barreto”, João Antônio vai fazer um moderno romance histórico sobre Lima Barreto, numa homenagem ao autor.

O título do prefácio de Rodrigo Lacerda, “Ele está de volta”, aponta para uma lacuna de tempo em que a obra do escritor ficou ausente das livrarias. O resgate recomeçou há alguns anos, com as edições da Cosac. Por que a obra de João Antônio ficou à margem das editoras? Qual a perda para a literatura brasileira por causa dessa ausência?
Desde a morte de João Antônio, em 1996, as edições de seus livros ficaram um pouco ausentes das livrarias. Foi só a partir das reedições da Cosac Naify que houve um recomeço, quando foram publicados cinco títulos. Houve então um intervalo bastante longo, antes do lançamento dos “Contos Reunidos”, razão pela qual eu entendo o título do prefácio de Rodrigo Lacerda. São questões de ordem editorial, que acredito que passem mais pelos aspectos de interesse comercial que literário. Mas mesmo com a ausência de seus livros nas prateleiras das livrarias, acredito que houve um significativo aumento dos estudos sobre sua obra, graças aos esforços dos pesquisadores universitários brasileiros.

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