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Raymond Carver, o tradutor da América profunda

12687_ggMestre do diálogo e da concisão. O escritor americano Raymond Carver normalmente é associado a esses elogios, graças aos seus contos secos, com um olhar para a vida quase sempre sem excessos.

A coletânea “68 Contos de Raymond Carver” (Companhia das Letra) reúne seus principais títulos e alguns textos que foram publicados em revistas e outras compilações, alguns deles inéditos em livro. A editora afirma que esta é a mais ampla reunião de contos do autor fora dos Estados Unidos.

O leitor se sente bem acolhido desde a introdução de Rodrigo Lacerda, com um apanhado da vida literária de Carver e, principalmente, uma detalhada descrição da relação do escritor com seu editor, Gordon Lish, responsável direto pelo estilo seco e objetivo da prosa – Lish aconselhava Carver a escrever 5 palavras no lugar de 15.

O ponto forte está em três dos quatro livros reunidos: “Você Poderia Ficar Quieta, Por Favor?”, “Do Que Estamos Falando Quando Falamos de Amor” e “Catedral”, considerada sua obra máxima – na coletânea, constam ainda “Fogos”, suas narrativas iniciais e histórias que estavam inéditas até 2001.

Carver trata da vida e de sua banalidade inerente. Gente comum, que fuma muito – assim como o autor, vítima de câncer de pulmão aos 50 anos -, mora no subúrbio, busca algum prazer nas pequenas coisas, sem preocupações éticas – um dos grandes contos de escritor,”Tanta Água Perto de Casa”, incluído nesta seleção, conta a história de um grupo de pescadores que encontra um corpo boiando no rio; para não interromper a pescaria, amarram o corpo e só chamam a polícia no dia seguinte, antes de voltarem para casa.

Frases curtas, diálogos simples, cortantes e extremamente coesos, uma capacidade de criar uma trama em tão pouco espaço e tempo poderiam descrever a literatura de Carver, mas, fora a parte técnica, resta o gosto amargo de suas histórias, de fracassados de uma América que insiste no seu protagonismo enquanto um universo de personagens vive a vida cotidiana, besta e comum. Carver foi seu melhor tradutor.

*****

Os contos de Carver serviram de inspiração para Robert Altman escrever o roteiro do magnífico “Short Cuts”. Os oito contos que foram a base do filme estão presentes na coletânea: “Vizinhos”, “Eles Não São Seu Marido”, “Vitaminas”, “Você Poderia Ficar Quieta, Por Favor?”, “Tanta Água Perto de Casa”, “Uma Coisinha Boa”, “Jerry, Molly e Sam”, “Cobradores” e “Diga Às Mulheres que a Gente Vai Dar uma Volta”.

short cuts real:Robert altman 1993 Andie Mac Dowell Jack Lemmon
Cena do filme “Short Cuts”

Altman reuniu todos os personagens numa mesma cidade e fez alguns se relacionarem por acaso uns com os outros. Na mesma linha de Carver, Altman fez um retrato cruel de Los Angeles do início da década de 1990.

Uma das grandes cenas do filme é o monólogo de Jack Lemmon, um pai que abandonou a família e que retorna para visitar o neto acidentado. O filme ganhou o Leão de Ouro em Veneza em 1993.

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8 thoughts on “Raymond Carver, o tradutor da América profunda”

  1. Suas considerações ficaram muito boas. Como tudo o que você escreve.
    Estou lendo esse livro agora e acabei de iniciar a coletânea de “Fogos”, estou ansiosa para chegar na coletânea seguinte, que tem o conto Catedral, um dos mais comentados do autor.
    Após ler “Iniciantes”, que é o livro que contém a versão original dos 17 contos alterados por Gordon Lish em “Do Que Estamos Falando Quando Falamos de Amor” e ler este segundo, fiquei bem dividida. O editor cortou muitas coisas e inicialmente eu fui contra isso, mas comparando os dois, também achei que ele ter cortado algumas coisas fez com que alguns contos tivessem só o essencial.

    Curtido por 1 pessoa

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