Brasil, Comentário, Ficção

Digressões sobre o novo livro de Chico Buarque

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Livro novo de Chico Buarque sempre causa frisson entre leitores, fãs de sua música e afeitos a seus olhos azuis. Com “O Irmão Alemão” (Companhia das Letras) não foi diferente. A campanha de divulgação estimulou esse frenesi, com vídeos do escritor lendo trechos, repetições à exaustão de posts nas redes sociais, propagandas nada discretas, tratamento de pop star das letras. Não poderia ser diferente. Autores com muito menos bagagem do que Chico Buarque recebem tratamentos mais ostensivos. Ainda por cima, o lançamento às vésperas do Natal deve fazer com que o novo livro seja o presente mais comprado em livrarias.

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A se somar a esse barulho, a trama de “O Irmão Alemão” ajuda a estimular o interesse na obra. Chico Buarque cavucou memórias de sua família para contar a história, a própria, em tons ficcionais, da sua busca por seu irmão alemão, fruto de um caso que seu pai, Sergio Buarque de Hollanda, teve na Alemanha na década de 1930. O ponto de partida é interessante, ao reviver o passado de um dos grandes pensadores brasileiros. A pergunta que não sei responder é se todo esse frisson irá enxergar a história por trás dessa maquiagem.

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Não sou ouvinte nem leitor de Chico Buarque. Claro, conheço algumas de suas músicas, até porque a pessoa que compartilha as caixas de som de casa é fã do músico. Dos seus livros, li apenas “Budapeste” (Companhia das Letras), que achei uma leitura prazerosa, mas nada além disso. Não me entusiasmei por ler seus outros títulos. Não divido o entusiasmo por qualquer coisa de Chico Buarque, tampouco me predisponho a não gostar. O excesso às vezes causa gastura, uma bajulação melada e fantasiosa.

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O livro é bom. Chico Buarque escreve bem, usa bem as técnicas narrativas, constrói frases articuladas, é criativo e bem humorado. Ele mistura ficção e realidade ao falar de Sergio de Hollander, o pai do narrador, uma figura um tanto semelhante ao seu pai. Entre livros, prateleiras e mais livros espalhados por todos os cômodos de sua casa, Francisco de Hollander vive na São Paulo de 1960 a 1970, com seus ícones culturais, como o bar Riviera. Descobre por acaso, no meio de um livro, uma carta de Anne Ernst a seu pai, em que conta sobre seu filho alemão, Sergio Ernst. Francisco, Ciccio, como é chamado pela mãe italiana, decide decifrar esse mistério. O mergulho na busca o levará a encontrar uma família francesa. Vai se deparar com militares invadindo sua casa. Experimentará a melhor culinária francesa em São Paulo. Ouvirá seu irmão transando no quarto da sua casa, enquanto sua mãe prepara refeições – para ele, depois, conquistar a mesma mulher. Vai ler clássicos da literatura russa em francês. Será despedido do seu emprego de professor até chegar o momento em que poderá de viver de um blog (talvez o único momento mais fantasioso). Vai se revelar um personagem solitário, não só em sua busca. Um Ulisses atrás de seu irmão.

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Como escreveu o crítico Alfredo Monte, Chico Buarque leu bem a atual literatura brasileira e latina. Dados biográficos que se misturam à narrativa ficcional, característica de “O Irmão Alemão”, trazem à mente os trabalhos de Ricardo Lísias, Michel Laub, Julián Herbert e Alejandro Zambra. Isso não é novo, mas está pulsante, mais vivo na prosa contemporânea. E esse exercício fez bem ao escritor.

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Chico Buarque despeja erudição, mas escapa do pedantismo por seu pedigree. Borges, Balzac, Dostoievski, Marx, as menções a uma biblioteca rica recheia o livro, como se fosse também uma ode à literatura, à sua formação e herança. Os leitores iniciados certamente irão encontrar um naco de prazer a mais na leitura, sem que os iniciantes se vejam perdidos num labirinto. Esse “fetiche” é uma das definições de Ciccio, que sonha, dorme, come e anda com livros, essenciais à sua formação e a seus rumos.

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A editora resolveu inchar o livro desnecessariamente. Pena. O papel especial, de gramatura maior, até se justifica. Mas as margens das páginas surgem exageradas – o fato de o livro ser composto por parágrafos longuíssimos reduziu o dano, pois os textos ficam blocados nas páginas, como se fossem uma imagem, e o efeito do vazio cai. As aberturas dos capítulos, com o número ocupando toda a página, parece trabalho de universitários querendo ganhar umas páginas no TCC. Das suas 230 páginas, seria possível chegar tranquilamente a 180 páginas, caso a editora usasse sua diagramação padrão. Não entendo a necessidade de inchar. “Breve Romance de Sonho” (Arthur Schnitzler), “Patrimônio” (Philip Roth), “O Estrangeiro” (Albert Camus), “Crônica de uma Morte Anunciada” (Gabriel García Márquez) são livros que variam de 90 a 180 páginas. O inchaço, como ideia de um livro mais nutrido, é um truque baixo. O livro, com 230 ou 180 páginas, pode ser percorrido inteiramente numa tarde de folga. Deixá-lo com a lombada maior é apenas decoração.

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“Até então, para mim, paredes eram feitas de livros, sem o seu suporte desabariam casas como a minha, que até no banheiro e na cozinha tinha estantes do teto ao chão. E era nos livros que eu me escorava, desde muito pequeno, nos momentos de perigo real ou imaginário, como ainda hoje nas alturas grudo as costas na paredes ao sentir vertigem. E quando não havia ninguém por perto, eu passava horas a andar de lado rente às estantes, sentia certo prazer em roçar a espinha de livro em livro.”

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2 thoughts on “Digressões sobre o novo livro de Chico Buarque”

  1. Considero Chico Buarque um ótimo compositor popular e um cantor mediano, mas de personalidade. Desconfio do incensamento do autor Chico Buarque e nunca o li, mas estou genuinamente interessado nesse novo livro. O que não entendo realmente é o “salto” que algumas pessoas dão para considerá-lo uma espécie de “intelectual-mor” da nação, algo totalmente fora de propósito e proporção.

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