Entrevista, Estados Unidos, Não ficção

A história do homem que derrubou o cartel de Cali

Jorge Salcedo era um empresário colombiano, filho de militar, que tentava ganhar a vida na Colômbia dos anos 80. Interessado em sistemas de segurança, foi chamado um dia por um amigo para viajar até Cali, onde teria uma reunião de negócios.

Sem desconfiar de nada, Salcedo viajou e, em Cali, deparou-se com os chefes do cartel, na época, em constante com conflito com Medellín e Pablo Escobar. Ele estava sendo contratado para prestar serviço à organização criminosa.

Capa A mesa com o diabo final.inddA história de Salcedo, que de mero prestador de serviços se tornou o chefe de segurança de Miguel Rodríguez Orejuela, o líder do cartel, é contada em “À Mesa com o Diabo” (Objetiva), reportagem do jornalista americano William C. Rempel.

Salcedo foi o responsável pela queda do cartel de Cali, quando resolveu se entregar às forças norte-americanos e passar informações sobre a organização. Ele e sua família vivem sob proteção nos EUA desde 1998.

Rempel é o único jornalista que teve acesso a Salcedo com tanta profundidade. No livro, que começa com uma tentativa frustrada de Salcedo de fazer contato com a CIA, o repórter narra desde o primeiro contato até a exitosa fuga da Colômbia. O livro começou com uma reportagem para o “Los Angeles Times”, em 2007, sobre o desmantelamento do cartel de Cali – em 1998, Rempel conheceu Salcedo durante seu julgamento em Miami.

O livro é um trabalho minucioso e de fôlego, uma reportagem muito bem pesquisada e escrita – combinação rara. Rempel conseguiu informações detalhadas do cartel, das suas atuações e planos de comércio. De certa forma, é um complemento a “Zero Zero Zero”, do italiano Roberto Saviano.

No início, Salcedo era encarregado de investigar os passos de Pablo Escobar, inimigo de Cali – o personagem também revela sua vontade de matar Escobar. Um dos capítulos mais impressionantes do livro é o relato da tentativa frustrada de um ataque à prisão domiciliar de Escobar, quando mercenários, helicópteros e inúmeros armas foram arregimentados por sua equipe.

Salcedo então começa a se tornar peça importante em Cali – sua experiência em sistemas de vigilância e comunicação era fundamental para a segurança dos negócios do cartel.

A ascenção de Salcedo acontece na mesma medida em que seu medo cresce, pois o envolvimento gerava obrigatoriamente mais conhecimento das engrenagens do cartel. Sua vontade de sair da organização então se tornava praticamente impossível, pois ele sabia demais. Surge então o plano de fugir da Colômbia.

Na parte final, o livro se torna um thriller, carregado de tensão e agilidade, a contar como as peças se encaixaram para permitir a fuga. Esconderijos minúsculos nas paredes de apartamentos, agentes americanos infiltrados, confronto com a polícia colombiana, proteção ao contador do cartel e à sua família, fatos e ações são narrados numa prosa que leva o leitor ao centro da história.

Rempel conversou com o blog e contou como foi o trabalho de pesquisa e investigação e como aconteciam os encontros com Salcedo. O jornalista também é autor de “Diary of a Dictator” (sem tradução para o português), sobre o casal Ferdinand e Imelda Marcos.

*****

O jornalista William Rempel | Foto: Alan Mittelstaedt
O jornalista William Rempel | Foto: Alan Mittelstaedt

Como aconteceu o primeiro contato com Jorge Salcedo?
Eu fui repórter investigativo do “Los Angeles Times” por mais de 36 anos, e esse projeto começou com um artigo para o jornal em 1998, quando eu conheci Jorge Salcedo em um tribunal de Miami. O desafio, então e para os próximos oito anos ou mais, era ficar em contato com o Salcedo, que vivia em reclusão sob a proteção da Polícia Federal dos Estados Unidos (US Marshal). Eu nunca sabia onde ele morava e eu ainda não sei hoje. Como resultado, por vários anos o meu único contato foi por telefone e só nos momentos em que o Salcedo me chamava. Mais uma vez, eu nunca tive o seu número de telefone ou qualquer maneira de chegar a ele, exceto por meio dos marshals.

E o livro, quando começou a ser desenhado?
No início de 2007, publiquei a primeira história no “LA Times” sobre seu papel na derrubada do cartel de Cali. Essa história gerou considerável interesse entre os editores e produtores de cinema. Mas como Salcedo estava escondido e não era fácil chegar até ele, o interesse desapareceu por um tempo. Finalmente, em 2008, Jorge entrou em contato comigo para dizer que estava disposto a se arriscar e se pôs à disposição para um longo período de entrevistas. Ele estava arriscando sua vida e de sua família para contar a história em detalhes. Ainda em 2008, nós nos encontramos pela primeira vez em dez anos, desde o tribunal Miami, e começamos o que viria a dar em mais de mil horas de entrevistas. Serei sempre grato por ter confiado em mim, não só com sua história, mas com sua vida.

Qual foi a maior dificuldade na preparação do livro?
Foi equilibrar a necessidade de entrevistas frequentes e abrangentes com a necessidade de proteger a segurança pessoal de Salcedo. Além disso, por questões de segurança, a maioria de nossas entrevistas teve que ser feita por telefone. Encontramos-nos em quatro ocasiões, em diferentes cidades e sob restrições de segurança que ele ditava. Mas o telefone – celulares pré-pagos sempre trocados – era o nosso elo principal.

Qual foi o papel do “LA Times”?
O maior obstáculo, além de ter acesso a Salcedo, era tempo. A pesquisa levou quase 12 anos para ser concluída. E a pesquisa só foi possível porque o trabalho foi apoiado pelo meu jornal. Teria sido impossível para mim assumir um projeto tão exigente sem o “Los Angeles Times”, que patrocinou o trabalho longo e duro de coleta e verificação de fatos. É apenas mais uma razão pela qual os jornais devem prosperar e continuar a servir os interesses vitais do público ao redor do mundo.

Como foi recriar os ambientes e diálogos?
Foi um grande desafio recriar as cenas e configurações dessa história. Ajudou muito o fato de que Salcedo tem uma memória extraordinária. Mas eu não podia confiar em suas descrições apenas. Eu procurei outras testemunhas e fontes, relatos noticiosos, GoogleEarth, registros públicos – tudo e qualquer coisa que pudesse corroborar mesmo os menores detalhes. Os diálogos foram mais difícil. Posso dizer-lhe que cada citação é baseado em um verdadeiro relato de alguém que estava no fato narrado. Grande parte dos diálogos vêm de descrições fornecidas originalmente por investigadores de repressão às drogas. Não inventei nenhum deles. Um dos meus momentos de maior orgulho depois que o livro foi publicado veio em uma entrevista de rádio com um jornalista de Bogotá. Ele perguntou se eu tinha sido ajudado por um pesquisador colombiano – “porque os detalhes são tão precisos.”

Como foi a relação com Jorge Salcedo durante o período de apuração?
Tivemos um relacionamento amigável desde o primeiro momento em que apertamos as mãos na sala de audiências do juiz William Hoeveler (juiz que absolveu Salcedo após sua colaboração). Mas o meu respeito por ele e pelo que ele fez só cresceu ao longo dos anos. Encontrei um homem muito gentil e despretensioso, distante do mafioso estereotipado. O homem que você encontra no meu livro é o homem que conheci naquele tribunal. É importante notar que Salcedo é e foi um homem comum – um homem apaixonado pelo família, engenheiro-empresário, filho de um general, financeiramente seguro, mas não rico, ambicioso, mas não manipulado. Ele tem fala mansa, está sempre bem vestido e poderia se passar por um banqueiro, professor ou vendedor de seguros. O que eu estou tentando transmitir é: ele é como nós. E ele se viu em um mundo de violência e crime mais por acidente do que astúcia. Um dos aspectos fortes dessa história é que todos nós podemos nos identificar com ele. E quanto mais eu o conheço, mais claro isso fica para mim. Nós somos amigos agora. Não é uma típica amizade, porque eu ainda não sei onde ele mora, nem mesmo em que cidade ou Estado. Ele foi hóspede em minha casa, mas eu ainda não fui à sua casa ou conheci algum membro de sua família. Eu gostaria que seus temores de segurança não fossem tão grandes. Eles ficam no caminho da nossa amizade a cada dia.

Você e sua família em algum momento foram ameaçados durante o trabalho de reportagem?
Não, os únicos que viveram sob séria ameaça ao longo da elaboração deste livro – e até hoje – foram Jorge e sua família. Continua a ser um fardo pesado para eles e provavelmente vai permanecer assim para sempre. O programa norte-americano de proteção a testemunhas federal é uma coisa maravilhosa. Ele mantém as pessoas seguras. Mas não é nenhum substituto para viver livre do medo e em sua terra natal. Sei que Jorge e sua família se sentem torturados pela separação de amigos e entes queridos na Colômbia. Ele sabe que nunca poderá voltar para casa.

Você ainda mantém contato com Jorge Salcedo?
Ele fala comigo a cada 15 dias. Recentemente, ele concordou em se encontrar com uma equipe de reportagem da televisão colombiana – disfarçado – para falar sobre sua vida, o livro e uma série de televisão de língua espanhola. A série de 80 episódios, chamada “En la Boca del Lobo”, o título espanhol de “À Mesa com o Diabo”, vai estrear nos EUA e em toda a América Latina em novembro.

Você escreveu ‘Diary of a Dictator”, em que também teve acesso a documentos sigilosos. Fale dessa experiência, de ter contato com esses documentos e descrever uma história de casal comparado aos Kennedys, ao mesmo tempo em que comandavam uma ditadura.
Mais uma vez, o meu relato sobre a ditadura de Marcos começou como um projeto para o “Los Angeles Times”. Fontes que eu ainda protejo já por cerca de 25 anos me forneceram importantes documentos internos – incluindo milhares de páginas do diário pessoal de Ferdinand Marcos. Esse diário fascinante revelou um ditador assolado pela paranoia, que mentiu para seus compatriotas e para o seu próprio diário. Ele era um hipocondríaco, supersticioso e possuído por um complexo messiânico que o levou a acreditar que era capaz de conversar com Deus. Meu livro cobre um período de cinco anos durante o qual o presidente Marcos vai do democrata ao ditador. É uma rara visão interna de um estadista que foi popular e sua transformação para tirano delirante.

O que acha dos documentos do Wikileaks? Para o jornalismo investigativo, qual a importância dessa plataforma?
Estou usando documentos do Wikileaks em alguns projetos de pesquisa. A plataforma gerou materiais de interesse genuíno para o interesse público, mas meu entusiasmo por ela é um pouco reservado, no entanto, porque eu não acho que todos os documentos são de interesse público. Investigação é uma parte essencial da reportagem. O problema, claro, é que os governos e as agências como a CIA tendem a classificar absolutamente tudo – um claro abuso de poder e de regras de sigilo. Então, nós vamos sempre precisar de denunciantes corajosos. Mas também precisamos de jornalistas responsáveis que selecionam o que será publicado e quando – no melhor interesse do público.

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10 thoughts on “A história do homem que derrubou o cartel de Cali”

  1. No seriado na boca do lobo o que estraga e a mais chata da história : a mulher do Richard! Uma piolha que reclama o tempo todo.

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      1. Vale a pena. Estou assistindo no momento e confesso estar encantada não só com a atuação dos atores, bem como pela riqueza de detalhes e a produção de maneira geral.

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    1. A principio também tive essa sensação, mas depois, colocando-me no lugar dela, imaginei que não deve ter sido fácil viver sob tenção todo o tempo, principalmente com as crianças envolvidas…

      Curtido por 1 pessoa

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