Argentina, Entrevista

Alberto Manguel: “Eu costumava acreditar que não podíamos pensar sem palavras. Agora eu não tenho tanta certeza”

Se Harold Bloom estuda e enaltece grandes escritores e suas obras, Alberto Manguel costuma tratar de sua paixão com mais romantismo. Os livros e as bibliotecas são temas de ensaios em que imprime um tom muito pessoal, muitas vezes em primeira pessoa.

Dicionário-de-lugares-imagináriosÉ um amante dos livros, da história das bibliotecas e do ato de ler. Tanto que escreveu “Dicionário de Lugares Imaginários”, um compêndio em que lista as localidades que só existem na ficção – está lá Macondo, por exemplo, identificada num mapa.

Argentino naturalizado canadense, Manguel mora hoje em Mondion, no interior da França, num antigo presbitério medieval transformado em residência e onde instalou sua biblioteca de mais de 50 mil livros.

Para celebrar o livro e a leitura, o blog entrevistou Manguel. A conversa trata de livros eletrônicos, internet, Amazon, bibliotecas, seus livros e inspirações, além de adiantar qual seu próximo livro, que será lançado em 2015. Suas respostas carregam síntese e ironia.

Manguel entregou ao blog um verbete inédito do seu “Dicionário de Lugares Imaginários”: a internet. “Seus defensores esperam que, eventualmente, a internet vai aliviar-nos de pensar completamente”, diz um trecho da entrada, que o blog publica abaixo.

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O escritor Alberto Manguel
O escritor Alberto Manguel

A literatura contemporânea o interessa? Quem o senhor destaca atualmente?
Minha definição de literatura contemporânea, provavelmente, não coincide com a sua: meus contemporâneos são Platão, Melville, Lewis Carroll… a lista é muito longa. Mas eu entendo o que você quer dizer. Entre os escritores que nasceram nos últimos 50 anos são (felizmente) muitos os que me interessam. Eu sigo com curiosidade o trabalho de Javier Cercas, Eduardo Berti, Jean Echenoz, Helen Oyeyemi, Anne Carson, Drago Jancar, Milton Hatoum.

O senhor já aderiu ao e-book? Como avalia essa plataforma?
Acho que meus livros são publicados em versões eletrônicas, mas eu não os vi. Eu tenho um livro publicado originalmente como um e-book: é um livro em francês sobre as bibliotecas e arquivos da região de Poitou-Charentes, na França. Ele permite que o leitor clique em uma série de links em busca de assuntos que normalmente eu teria confinado a um anexo ou notas de rodapé.

A leitura está em decadência? Tecnologias podem aumentar o interesse pela leitura?
A leitura sempre foi a atividade de uma minoria. Qualquer coisa pode ajudar a aumentar -ou diminuir – o número de leitores, mas a leitura não é uma questão de tecnologias. Como qualquer atividade humana, ela depende de um contexto cultural, e as nossas sociedades tendem a rebaixar atividades intelectuais. Madame Martine Lagarde, agora chefe do Fundo Monetário Internacional, disse ao povo francês quando era ministra das Finanças da França: “Pense menos e trabalhe mais”.

Numa entrevista que deu a Ibrahim Beyazoglu, você falou que as bibliotecas são o repositório das memórias coletivas. Numa época em que o físico se torna digital, como essas memórias podem sobreviver?
A biblioteca física é ameaçada por aqueles que querem substituir o concreto pelo virtual, não por razões intelectuais, mas econômicas. A tecnologia eletrônica é útil para muitas coisas, mas é muito mais frágil do que o papel e menos confiável ​em seu armazenamento de informações. A solução, a solução inteligente, é ter ambos. Nós não devemos ser forçados a fazer uma escolha.

Parte da bilbioteca de Alberto Manguel
Parte da bilbioteca de Alberto Manguel

Muito se fala de que a internet, com suas características de leitura rápida e textos curtos, podem estar levando a um leitor sem atenção suficiente para romances, que exigem concentração e um grau de análise mais alto. Como o senhor avalia esse cenário?
[A filósofa] Simone Weil definia cultura como “a formação de atenção”. A internet é, acima de tudo, distração.

Publicar hoje está muito acessível a qualquer escritor iniciante. Como o senhor vê esse horizonte, de autopublicação, sem curadoria? É saudável para o mercado? Para o leitor?
Este foi o caso no início da literatura: você escreveu, você pagou para fazer cópias de seu livro. Não há mal nenhum nisso, especialmente porque a maioria das editoras se tornaram uma empresa mercantil apenas.

O senhor frequenta livrarias? Ou compra pela internet?
Eu só compro em livrarias reais, mas elas são uma raça em extinção. Eu quero ver e manusear um livro antes de comprá-lo. Eu não acredito em casamentos arranjados.

As pequenas livrarias estão lentamente desaparecendo. O espaço está sendo ocupado por megastores e livrarias on-line. Para o livro e para o leitor, o que isso pode significar?
Perda, perda, perda…

A Amazon começou a vender livros físicos recentemente no Brasil, com a mesma política aplicada no exterior: preços muito baixos. Como o senhor avalia a empresa?
É uma velha técnica comercial. Venda baixo até que tenha levado os concorrentes para fora do mercado. Então, quando você tem o monopólio, aumente seus preços e venda tudo o que dá lucro.

Manguel-21
Manguel na porta de sua casa

O senhor escreveu em “A Biblioteca à Noite” que “à noite os fantasmas têm voz na biblioteca”. Com quais fantasmas o senhor tem conversado?
Ultimamente, com Henry James, Lygia Fagundes Telles, Adolfo Bioy Casares…

Seu trabalho se divide entre ficção e ensaios. Com qual o senhor tem conversado mais?
Acabei de terminar um grande ensaio, que será publicado no próximo ano pela Companhia das Letras, “Uma História Natural da Curiosidade”. Ele lida com as questões que fizemos ao longo dos tempos e que formaram a nossa visão de futuro, através de sua reformulação em termos literários. Dante é o meu guia principal neste livro.

A internet teria lugar em seu “Dicionário de Lugares Imaginários”?
Sim. Escrevo uma entrada curta:

INTERNET: Um lugar que, como o Deus dos estudiosos medievais, tem sua circunferência em toda parte e seu centro em lugar nenhum. Como a lua de Ariosto, é um reino onde pode ser encontrado tudo o que esquecemos, e nos alivia da responsabilidade de lembrar de coisas por conta própria. Seus defensores esperam que, eventualmente, a internet vai aliviar-nos de pensar completamente.

Em “Os Livros e os Dias”, no capítulo dedicado a Machado de Assis, o senhor escreveu: “Ainda não sei a que livro as palavras de Machado de Assis vão me levar”. O senhor se lembra para onde foi depois?
As últimas páginas de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” me levaram para “The Following Story” [sem tradução para o português], de Cees Nooteboom.

Quais outros escritores também o fazem se sentir desse jeito, sem saber para onde ir?
A maioria dos escritores que eu gosto me faz sentir desse jeito. Na minha biblioteca, eu sigo o conselho do [rabino] Rabi Nahman de Braslav: “Nunca pergunte o caminho para alguém que sabe disso, porque então você não será capaz de se perder.”

O senhor sofreu um derrame em 2013. Está completamente recuperado? Como o derrame impactou a sua vida?
Eu estou quase totalmente recuperado. E sim, ele mudou a minha opinião sobre o pensamento e a linguagem. Eu costumava acreditar que não podíamos pensar sem palavras. Agora eu não tenho tanta certeza.

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O que vale ler de Alberto Manguel (todos da Companhia das Letras):

41Ok1R6o4qL._“A Biblioteca À Noite”. Manguel começa a montar sua nova biblioteca em um casarão numa aldeia francesa e conversa com os livros
“Os Livros e os Dias”. Misto de diário e crítica literária, o livro traz as leituras que o Manguel fez em um ano, um livro por mês
“Dicionário de Lugares Imaginários”. Feito em parceria com Gianni Guadalupe, o livro reúne os lugares da ficção, cidades e localidades que só existem nas páginas dos livros
“À Mesa com o Chapeleiro Maluco”. Escrevo sobre o livro aqui.
“O Amante Detalhista”. Neste romance, percorremos a história de voyeur francês que trabalhava numa casa de banhos. Ele utiliza a fotografia para investigar seus fetiches

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