Comentário, Ficção, Paquistão

Do Paquistão, um autor a ser lido

Uma das grandes surpresas que tive neste ano foi ler o paquistanês Mohsin Hamid. Aos 43 anos, é uma das grandes forças literárias contemporâneas, com uma prosa que foge do maniqueísmo e tenta entender as diferenças com alto grau de inteligência.

o-fundamentalista-relutante-mohsin-hamid-novo-lancamento-14403-MLB65371355_5637-OOriundo de um país historicamente em conflito com a Índia e que foi base para Osama bin Laden, Hamid não foge de discutir a relação turbulenta entre Ocidente e Oriente. Seu “O Fundamentalista Relutante” (Alfaguara), lançado em 2007, é perturbador e um dos melhores retratos já feitos sobre essa confluência de valores.

O livro é narrado pelo paquistanês Changez, que conversa com um norte-americano (o leitor) num café em Lahore. Ele conta sua história ao homem que parece estar em alguma missão especial – na verdade, o livro é praticamente um monólogo, num truque muito bem armado por Hamid, como se ele pedisse que a cada fala de Changez o leitor devolvesse uma.

Changez morava nos Estados Unidos, tinha boa formação universitária e estava bem empregado, com vida confortável e com relação promissora. Até que chegam os ataques às Torres Gêmeas e aquela utópica vida nos EUA também se desmorona.

Changez vai contando toda sua história ao homem com quem compartilha a mesa, em meio a refeições típicas e bules de chá. Hamid faz mistério do papel do ouvinte/leitor, enquanto Changez tenta descobrir o que ele faz no Paquistão. À medida que a história do passado de Changez avança, aumenta a tensão do romance. O final é arrebatador.

13468_ggJá em “Como Ficar Podre de Rico na Ásia Emergente” (Companhia das Letras), lançado neste ano, Hamid experimenta o humor. Construído como um manual de autoajuda – os 12 capítulos são intitulados com as típicas construções do gênero, sempre no imperativo, como Trabalhe para si mesmo, Faça amizade com um burocrata -, o romance acontece em um lugar que remete ao Paquistão.

Narrado em segunda pessoa, a história começa com um garoto pobre da zona rural, que tenta sobreviver com sua família em meio à miséria da região. Aos poucos, começa a desenvolver pequenos negócios, trambiques que o fazem crescer. São invenções como refeições com prazo vencido e água reciclada e engarrafada. É o suficiente para despertar ambição e inveja.

Mas Hamid não cai na tentação de harmonizar os pecados capitais e investe na zona cinzenta do personagem. Ele não poupa esforços para se dar bem, que no Paquistão pode significar sobreviver simplesmente.

O leitor acompanha o crescimento e o amadurecimento daquele garoto, sua transformação em pequeno empresário e as constantes encrencas em que se mete. Acompanha ainda a relação com uma garota, com quem perdeu sua virgindade. Pertencentes a universos semelhantes mas distantes, suas vidas vão correr em paralelo, com pequenos cruzamentos recheados de promessas – é um dos grandes achados do livro.

O romance chega ao auge quando o personagem mergulha na velhice. Com delicadeza, Hamid trata da passagem do tempo e incorpora a finitude nos personagens. Então, o leitor não só se acaba envolvendo como – efeito do narrador em segunda pessoa – também se acha o próprio personagem.

Mohsin Hamid é autor para ser lido e acompanhado. Se topar com um livro dele, não perca tempo. Compre, peça emprestado, mas leia. Pouca coisa vai te surpreender atualmente como essas duas peças.

*****

“Essas viagens me convenceram de que nem sempre é possível restabelecermos nossas fronteiras, depois que um relacionamento as embota e as torna permeáveis: por mais que tentemos, não conseguimos reconstituir-nos como os seres autônomos que antes imaginávamos ser. Algo de nós fica do lado de fora, e algo de fora passa a habitar dentro de nós.”
(de “O Fundamentalista Relutante”)

“Todos somos refugiados de nossa infância. E por isso recorremos, entre outras coisas, às histórias. Escrever uma história, ler uma história, é ser um refugiado do estado de refugiados. Escritores e leitores buscam uma solução para o problema de que o tempo passa, de que aqueles que se foram, se foram, e de que aqueles que ainda se vão, o que quer dizer nós todos, se vão. Pois havia um momento em que tudo era possível. E haverá um momento em que nada será possível. Mas entre um momento e outro, nós podemos criar.”
(de “Como Ficar Podre de Rico na Ásia Emergente”)

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