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Manoel de Barros: “Meu verso é quase arrancado a fórceps”

Por Paulo Sales

A entrevista com Manoel de Barros (1916-2014) abaixo foi feita, se não me engano, em 2005, via fax, e publicada no jornal “Correio da Bahia”. Lembro da felicidade que senti quando vi a folha do fax quentinha com a entrevista, que acabara de chegar direto do Pantanal.

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A sabedoria é um estado de espírito ao qual só se chega após o cultivo incessante de sensibilidade e alguma dose de angústia. Aos 88 anos, o poeta Manoel de Barros atingiu esse estado. Seu mundo é o das pequenezas, dos acontecimentos dramáticos que movem insetos, pedras, galhos e aves, da poesia extraída de arrulos, amanheceres e palavras ainda não contaminadas pela acepção.

Manoel busca a essência da simplicidade, que atinge após “um tratamento exaustivo com a linguagem”. Essa essência pode ser encontrada em uma poesia atulhada de encanto, que atingiu seu ápice em livros como “O Guardador de Águas” (1989), “Concerto a Céu Aberto para Solos de Ave” (1991) e “O Livro das Ignorãças” (1993).

São pequenas obras-primas, que revelam um autor de estilo singular, capaz de trabalhar temas complexos com uma simplicidade arrebatadora. Manoel não segue correntes literárias, embora assuma a influência de Arthur Rimbaud e Paul Valéry. Sua poesia brota quando está no “lugar de ser inútil”, misto de toca e gabinete onde compõe seus versos, num sítio em Campo Grande (MS). Foi de lá que mandou por fax (as perguntas e respostas cuidadosamente datilografadas, com os erros de digitação corrigidos à mão ao lado do texto) a entrevista abaixo.

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manoel de barros - te amo muitoSua erudição perpassa seus versos de maneira quase imperceptível. Como atingir a essência da simplicidade, deixar de lado todas as informações absorvidas ao longo das décadas?
Não tenho em verdade ciência disso. Acho que a simplicidade deve vir de um tratamento exaustivo com a linguagem. Até parecer que o essencial é simples. De outra maneira a natureza da gente deve influir. Falo isso com toda a incerteza.

Há, em alguns versos de “Poemas Rupestres”, elementos da atualidade, como a expressão “e-mail” no poema “Sonata ao Luar”. É uma necessidade de contrapor a eternidade das coisas antigas com a modernidade? Ou apenas um descuido estudado?
Há um gosto em mim pela eternidade, mas nenhum desprezo pelas coisas novas. No caso, eu quis contar uma historinha de amor que aconteceu na minha fazenda no Pantanal. O gosto de contrapor existiu, sim. Achei que o bilhete ficou chique ao lado do e-mail.

Ao falar do poste que foi “adotado” pela natureza, na oitava parte do poema “Canção do Ver”, o sr. fala com delicadeza da nossa finitude. O sr. acredita em Deus?
Acredito em Deus, sim, profundamente.

Paul Valéry e Arthur Rimbaud são suas principais influências. Mas sua poesia parece única, como se tivesse nascido espontaneamente. Como atingir essa grau de unicidade?
Pois a minha poesia não é espontânea. Ela tem uma gestação demorada e doída. O belo é trabalho, diziam os gregos. É artesania. O sistema de compor que eu uso é por fragmentos. Se uma palavra me excita vou com ela até o poema. Se a imaginação fertiliza a palavra do que eu sou, deixo-a no poema. Acho que uso uma técnica de montagem.

Em entrevista a José Castello, em 1996, o sr. disse que trabalha diariamente num local chamado “lugar de ser inútil”. Existe uma disciplina específica para chegar aos versos finais ou eles brotam de forma espontânea? O sr. trabalha muito nas frases? Mantém algum verso do jeito que ele nasceu?
Meu verso é quase arrancado a fórceps. Ele não sai limpo nem completo. Tenho que dar, pelo trabalho, um formato de amor ao verso.

*****

“Fomos rever o poste.
O mesmo poste de quando a gente brincava de pique
e de esconder.
Agora ele estava tão verdinho!
O corpo recoberto de limo e borboletas.
Eu quis filmar o abandono do poste.
O seu estar parado.
O seu não ter voz.
O seu não ter sequer mãos para se pronunciar com
as mãos.
Penso que a natureza o adotara em árvore.
Porque eu bem cheguei de ouvir arrulos de passarinhos
que um dia teriam cantado entre as suas folhas.
Tentei transcrever para flauta a ternura dos arrulos.
Mas o mato era mudo.
Agora o poste se inclina para o chão – como alguém
que procurasse o chão para repouso.
Tivemos saudades de nós.”
(“Canção do Ver”, parte 8)

*****

A obra de Manoel de Barros, antes editada pela Record, agora está na Leya.

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