Brasil, Colaboração, Obituário, Poesia

Manoel de Barros, 1916-2014

Por Paulo Sales

Há alguns anos, quando morava em São Paulo, acompanhei um primo que queria comprar artigos eletrônicos numa tal Galeria Pajé, no centro da cidade. No meio do caminho, passei por uma livraria e comprei dois livros do poeta Manoel de Barros, cuja obra começava a conhecer naqueles dias através de pesquisas na internet e conselhos de um amigo. Saí da livraria com “O Livro das Ignorãças” e “Gramática Expositiva do Chão” numa sacola e fomos para a Galeria Pajé.

Subimos doze andares pelo elevador e de lá a ideia do meu primo era ir descendo até o térreo passando pelas lojinhas que vendiam um monte de quinquilharias sem muito significado para mim. Na primeira lojinha, meu primo foi pessimamente atendido. Na segunda e na terceira também. A partir daí, deixei de acompanhá-lo e fiquei sentado na escada lendo os livros de Manoel. Lá pela terceira página um alumbramento tomou conta de mim, e já nem lembrava sequer que me encontrava ali, naquela escada desconfortável da Galeria Pajé. Eram versos lindos que saíam daquele livrinho dedicado às coisas desimportantes.

Coisas como:

“Para entrar em estado de árvore é preciso partir de
um torpor animal de lagarto às três horas da tarde,
no mês de agosto.
Em dois anos a inércia e o mato vão crescer em
nossa boca.
Sofreremos alguma decomposição lírica até o mato
sair na voz”.

Manoel de Barros, poeta pantaneiro, gênio da simplicidade, obrigado por aqueles momentos na escada.

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