Comentário, Estados Unidos, Ficção

Um estudo do homem, por Ray Bradbury

Não sou um leitor de ficção científica. Li apenas um Júlio Verne quando criança e depois mais nada. Passei, sim, pelas distopias de George Orwell (“1984”), Aldous Huxley (“Admirável Mundo Novo”) e, mais recentemente, Ray Bradbury (“Fahrenheit 451″).

Gostaria de ler “Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?”, o livro de Philip K. Dick que inspirou “Blade Runner”. Não é um universo que me encanta, por isso, restrito na minha biblioteca.

17739340Mas não pude escapar de “As Crônicas Marcianas” (Biblioteca Azul), de Bradbury. Tomei a decisão de ler após checar a lista das 100 leituras recomendadas por Alberto Manguel, quando me preparava para entrevistar o escritor.

Preço bom, oportunidade e uma boa recomendação foram suficientes para o livro chegar em casa. E ser rapidamente devorado. Ao contrário do que esperava, “Crônicas Marcianas” foge da ficção científica como talvez o cinema goste de mostrar.

A não ser um futuro imaginado em Marte – o futuro pensado por Bradbury, pois as crônicas começam em janeiro de 1999 e seguem até outubro de 2026 -, nada no livro de Bradbury insinua máquinas, tecnologias e viagens espaciais em demasia. Sim, há o transporte da Terra para Marte, algumas tecnologias – pois há de se pensar que o homem evoluiu -, mas o mais importante nos textos é a relação entre pessoas, seu ambiente e o instinto de sobrevivência.

Jorge Luís Borges escreve no prefácio: “O que fez esse homem de Illinois, pergunto-me, ao fechar as páginas de seu livro, para que episódios de conquista de outro planeta povoem-me de terror e solidão?”.

Marte foi colonizado para que a vida na Terra fosse possível. Surgem confrontos culturais e religiosos, falta de comunicação, racismo e discussões sobre políticas sociais. O tempo passado/futuro é manipulado com precisão por Bradbury, que traça paralelos entre a história da Terra com Marte.

A prosa do autor  americano é leve, bem humorada, mas ele lança ao fundo um tom melancólico, uma quase desesperança no homem, uma falta de fé na humanidade. Tolerância acaba sendo uma palavra chave para o livro.

E há o horror, aquele que surge com a sempre surpreendente raça humana. Para Borges, naquela que talvez seja a melhor história do livro, “A Terceira Expedição”, chega a ser “alarmante e metafísico”. O blog destaca mais três crônicas: “… E A Lua Continua Brilhando”, “Usher 2” e “O Marciano”.

As crônicas são independentes, mas possuem um fio condutor, equipes que são enviadas a Marte para continuar a ocupação. Pode-se ler os textos isoladamente ou em sequência, não haverá prejuízo para o leitor.

Esqueça a ficção científica. O que Bradbury fez não se encaixa em gêneros. Este “As Crônicas Marcianas” é um dos grandes estudos sobre o homem.

*****

“Eles sabiam conviver com a natureza e se integrar com ela. Não faziam muito esforço para ser apenas homens, e não animais. Este foi o erro que cometemos quando Darwin apareceu. Nós o recebemos de braços abertos, assim como fizemos com Huxley e Freud. Então descobrimos que Darwin e a religião não se misturavam. Ou pelo menos não achávamos que se misturassem. Éramos tolos. Tentamos afastar Darwin, Huxley e Freud, mas, como não deu muito certo, tentamos destruir a religião. Até que fomos bem-sucedidos. Perdemos nossa fé e ficamos nos perguntando  de que servia a vida. Se a arte não passava de uma expressão frustrada de desejo, se a religião não passava de ilusão, para que servia a vida? A fé sempre nos deu respostas para tudo. Mas tudo se perdeu com Freud e Darwin. Éramos e ainda somos um povo perdido.”

 

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