Comentário, Estados Unidos, Ficção

“Diário de Inverno”: um Paul Auster irregular

Sou leitor de Paul Auster desde que seus livros começaram a sair no Brasil, no início dos anos 1990, ainda pela Best Seller/Círculo do Livro. Época de “A Trilogia de Nova York”, “A Música do Acaso”, “Mr. Vertigo” e, principalmente, “A Invenção da Solidão”, seu primeiro livro e já reeditado pela Companhia das Letras, sua atual casa no Brasil.

Li todos os seus livros – já são mais de 20, entre ficção e não ficção. É daqueles autores dos quais não preciso de crítica para comprar – bom ou não, o livro será lido.

42690604“Diário de Inverno”, recentemente traduzido para o português, seguiu esse caminho. A crítica se dividiu, mas cá estou com o objeto nas mãos para escrever sobre ele, findada a leitura.

Tratar de sua vida nos livros não é novidade para Auster. Sua carreira começou dessa forma, com essa mistura de realidade e ficção em “A Invenção da Solidão”, em que investigava a paternidade, primeiro como filho e depois como pai, mistura de ensaio com memórias. “Da Mão para a Boca” e “O Caderno Vermelho” também embaralhavam os dois universos.

Agora, neste “Diário de Inverno”, Auster viaja até a mãe. Ou pelo menos essa é a premissa. E entrega um relato irregular, com excelentes achados e relatórios enfadonhos.

Em pouco mais de 200 páginas, o leitor se encanta com histórias recriadas, como a prostituta que recita Baudelaire e o acidente de carro que Auster provocou, narrativas pungentes, vigorosas, dignas dos melhores trabalhos do escritor.

Ao mesmo tempo, tem que encarar páginas e páginas de um relatório dos lugares onde morou. Ele descreve todas as moradias por onde passou, como a preencher um formulário (ano de chegada, ano de saída, endereço, descrição do lugar, fatos marcantes). Burocraticamente, deixa de lado a memória afetiva.

Citada esporadicamente até metade do livro, a mãe surge como protagonista na parte final. Mas, mesmo assim, há pouco aprofundamento, e sobra a sensação de que a maturidade tenha fechado algumas portas, provocado um edição mais rigorosa dos fatos a serem retratados.

O que não o impediu de se expor – como no caso do acidente de carro e na relação com sua atual mulher, a também escritora Siri Hustvedt.

O diário não segue ordem cronólogica, Auster alterna períodos com técnica, emendando fatos distantes de forma a criar uma linha de raciocínio independente do tempo. Ele escreve em segunda pessoa, na tentativa de se distanciar de Paul Auster – um recurso já usado com brilho na novela “Cidade de Vidro”, presente em “A Trilogia de Nova York”.

Ao final, o leitor fecha o livro com o gosto de que “Diário de Inverno” foi mais um acerto de contas com alguns fatos do passado de Auster do que um ensaio de memórias sobre a sua mãe. A entrega, quando acontece, está na relação com sua mulher. Nesses momentos, enxergamos o velho Paul Auster.

*****

“Você também não chorou após a morte do seu pai. Nem quando morreram os seus avós, nem quando morreu prima que você mais amava, de câncer de mama, aos trinta e oito anos, nem quando morreram tantos amigos ao longo dos anos. Nem mesmo aos catorze anos de idade, quando estava a menos de meio metro de um menino que foi atingido e morto por raio, um menino ao lado de cujo cadáver você ficou uma hora sentado, num descampado encharcado de chuva, tentando desesperadamente aquecer seu corpo e reanimá-lo porque não compreendia que ele estava morto – nem mesmo aquela morte monstruosa foi capaz de lhe arrancar uma única lágrima. Seus olhos ficam rasos d’água quando você assiste a certos filmes, suas caíram em páginas de muitos livros, você já chorou em momentos de muito sofrimento pessoal, mas a morte o deixa imobilizado, desligado, subtraindo-lhe todas as emoções, todo afeto, toda a ligação com seu próprio coração. Desde o início, você fica como morto diante da morte, e foi isso que aconteceu também no caso da morte da sua mãe. Pelo menos nos primeiros instantes, nos primeiros dois dias e noites, mas depois um raio caiu de novo, e você foi incinerado”

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2 comentários em ““Diário de Inverno”: um Paul Auster irregular”

  1. Gosto de Auster, mas não é dos meus escritores preferidos, embora não tenha lido o suficiente para dizer que conheço a sua obra. Sunset Park, o último que li dele, me impressionou pela qualidade e sofisticação da sua prosa. Mas como história deixou um pouco a desejar ao final. Li também Da mão para a boca (que adoro), A Música do acaso (que não me encantou) e A invenção da solidão (que tem um início brilhante mas depois, pelo que lembro, ficou meio enfadonho).

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    1. Ultimamente, os livros dele estão irregulares. Dos que você citou, A Música do Acaso é o mais fraco mesmo. Gosto muito de A Invenção da Solidão e A Trilogia de Nova York. E tenho uma relação afetuosa com Mr. Vertigo, apesar de não ser nem de longe um dos seus bons livros, mas foi o primeiro que li.

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