Brasil, Crônicas, Entrevista

Memórias se encharcam de lirismo em crônicas de jornalista

CAPA DO LIVRO 046Ao terminar o livro, você sente o cheiro da terra úmida, da chuva que se aproxima, aroma difundido por grama e árvores. “Ribanceira”, reunião de crônicas e relatos memorialísticos da jornalista Dolores Mendes, provoca essa sensação ao leitor, além de promover uma volta ao passado, ao seu próprio, estimulado pelas lembranças da escritora.

Natural de São João Batista, pequena cidade de Santa Catarina, Dolores vive hoje no distrito de Cruzeiro dos Peixotos, em Uberlândia (MG), cidade onde mora desde 1984. Comunidade em que o tempo passa mais devagar do que na principal cidade do Triângulo Mineiro, é lá que a jornalista de 53 anos escreveu boa parte do livro. Mora numa casa, mas se você chamar de roça não estará errando, muito menos ofendendo – pelo contrário, Dolores preza pela simplicidade e pela vida no campo.

Talvez tenha ligação com sua origem, na comunidade rural de Ribanceira. Esse instinto rural, vivido na infância e na escola fundamental, persiste na jornalista, afeita a comer frutas no pé. O leitor mergulha nesse universo particular e encontra então um jogo memorialístico raro de se ler hoje.

As primeiras crônicas são da década de 1990, quando Dolores começou a sentir a necessidade de colocar no papel cenas vividas na infância e na adolescência. Correspondem ao capítulo “Memórias de Santa Catarina”.

A segunda parte, “Caminhos de Minas”, abrange crônicas da época em que percorria o Triângulo como jornalista, textos que revelam um senso de observação raro, pois escapa do olhar viciante de quem só pensa em voltar logo para a Redação. “Como jornalista, sempre prestei mais atenção ao papagaio de pirata do que ao político que dava entrevista”, diz Dolores em entrevista ao blog.

Completam esse capítulo textos publicados no blog Crônicas Urbanas, que mantinha no site do “Correio de Uberlândia”. Há também textos inéditos que não saíram no blog porque, segundo a autora, “são mais prosa poética do que crônica, são lembranças, uma autobiografia em pedacinhos”.

A leitura é daquelas que preenchem uma tarde de sábado com prazer. Você lê e se pergunta: por que não tem mais? Anos de jornalismo aprimoraram o texto de Dolores, que trafega entre o registro do fato e o lirismo que poucos conseguem enxergar. Então, o motorista da Kombi que levava as crianças para escola, os sabores da infância, brincadeiras e manias de crianças, personagens que atravessaram seu caminho de jornalista, cenas das cidades, tudo isso é captado pelo olhar da escritora e transformado em crônicas de um tempo.

A entrevista com Dolores revela um pouco da sua inspiração e formação.

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A jornalista e escritora Dolores Mendes
A jornalista e escritora Dolores Mendes

Até chegar a Uberlândia, como foi sua infância em Santa Catarina?
A primeira parte são as reminiscências, o resgate da pequena cidade onde nasci, o município de São João Batista. Nasci numa comunidade rural chamada Ribanceira, onde estudei, em escola pública rural, o ensino fundamental, na época, o primário. Aos 10 anos, passei a estudar na cidade, em São João Batista, para onde ia todos os dias de bicicleta, cerca de 2 km. Quando terminei o ginásio, meus pais se separaram e eu fui viver na cidade com a mãe e minhas duas irmãs, Fiz então o segundo grau (hoje ensino médio) e aos 17 anos passei no primeiro vestibular que prestei e me mudei para Itajaí.

O livro tem um tom memorialístico do começo ao fim. Como foi separar as memórias que entraram livro e as que ficaram de fora?
Ficaram de fora aquelas memórias que são muito “eu” e que acabei floreando demais para, digamos assim, não ser reconhecida. Mas aí achei que o leitor não ia entender nada. Guardei meu eu para mim mesma.

Quais autores te influenciaram na busca dessa memória, dessa forma de escrever?
Leio os clássicos da literatura mundial desde os 10 anos de idade. Quando comecei a ler literatura, me apaixonei por Jorge Amado. Depois, ao longo da vida, fui tecendo retalhos baseados em Machado de Assis, Baudelaire, Manoel Bandeira, Marcel Proust.

Você retrata dois locais que são importantes para você, Santa Catarina e depois Uberlândia. Como cada lugar te influenciou como escritora? Onde você é mais catarinense e uberlandense?
Sou mais catarinense na minha sensibilidade de menina pura da roça, que não aceita as agruras do mundo capitalista, que gosta das coisas simples e claras, que ama a natureza, os pássaros, as crianças e os amigos sinceros. Sou mais mineira no olhar crítico, mas também sensível ao redor de uma cena. Sou mais jornalista em Minas, mas não deixo que o olhar se fixe em um só ponto de notícia. Olho em volta e vejo pequeninas poças d’água formadas na noite anterior, uma sabiá gorda que procura um galho, uma menina que chora porque não tem o que comer..

Família, amigos, conversas descompromissadas, situações curiosas, pouco escapa a seu olhar observador. O que te leva a transformar um fato do seu dia em crônica?
Não sei de onde vem essa sensibilidade, mas gosto do entorno das coisas, olhar em volta da cena principal. Como jornalista, sempre prestei mais atenção ao papagaio de pirata do que ao político que dava entrevista. Acho que isso é um pouco de Proust ou de Pirandello, o olhar amplo que não deixa escapar o que parece ser, num primeiro momento, a mais desprezível gota.

Há perspectiva de um “Ribanceira 2”, uma continuação dessas memórias? Há muita gaveta?
As memórias nunca acabam. Estou escrevendo um livro e acho que cada autor, quando escreve, arranca de dentro de si um pouco das suas histórias pessoais. O próximo livro é uma história de sobrevivência, de loucuras e tempos perdidos. É uma defesa implacável da teoria do absurdo de Albert Camus, salpicada das dúvidas que todo humano tem sobre a vida eterna, sobre o sentido de viver e ser feliz. Não é filosofia porque não tenho conhecimento suficiente para isso, mas é um pensar sobre a vida. E claro que há, nesse novo texto, pedacinhos autobiográficos e imagens fortes de vários momentos vividos pela autora em sua infância, juventude e na fase adulta. Mas não é uma autobiografia, pelo contrário, há 90% de ficção. Deve ficar pronto em meados de 2015.

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“Ribanceira é uma pequena aldeia de colonos, italianos, açorianos, onde as tradições e as lendas parecem sobreviver há séculos. É lá que o joão-de-barro sufoca a fêmea traidora na casa construída para dois. É em Ribanceira que os homens brincam a farra do boi e os meninos amarram folhas de fumo num cordão. Mais do que viver, morre-se na Ribanceira. É lá que os velhos têm a mania esquisita de preparar a si e aos outros para a morte. Preparam seus pássaros para o dia que tiverem que ficar sem o dono. Passam os anos à procura de gente moça que se comprometa a cuidar das orquídeas, das bocas-de-leão, brincos-de-princesa, olhos-de-boneca, rabos-de-macaco, cristas-de-galo e até mesmo de simples flores do campo.”

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O livro foi lançado pela Editora Assis, custa R$ 20 e pode ser encontrado no Armazém Literário, em Uberlândia, ou encomendado diretamente na editora.

“Ribanceira” foi viabilizado pelo Fundo Municipal de Cultura de Uberlândia, que aprovou o projeto no final de 2013.

Para preparar o post e a entrevista, o blog leu o livro em seu arquivo bruto, em word, e espera o exemplar autografado prometido pela escritora. Além disso, o autor do blog foi inspiração para uma das crônicas, que trata de variedades de manga e pés de abóbora.

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