Argentina, Entrevista, Não ficção

“Estação Terminal”: acidente de trem rende um clássico contemporâneo da reportagem

Estação-terminalUma das grandes peças jornalísticas lançadas neste ano no Brasil é o livro “Estação Terminal – Viajar e Morrer como Animais”, da argentina Graciela Mochkofsky, publicado exclusivamente no formato digital pela e-galáxia.

Reportagem de fôlego e extremamente bem escrita, “Estação Terminal” mergulha no desastre que aconteceu em fevereiro de 2012 em Buenos Aires, quando uma composição ferroviária se chocou com a estação de trens Once. Saldo: 51 mortos e 795 feridos, comoção no país e uma reforma no sistema de transporte da capital. A pergunta que levou Graciela a mergulhar na história não foi a básica – por que ocorreu o acidente? -, mas outra que iria revelar os intestinos de uma perversa relação: por que não ocorrem mais acidentes?

Graciela investiga todos os atores dessa tragédia: políticos, passageiros, condutores, empresas ferroviárias, com capítulos que revelam histórias que ficaram escondidas nos escombros. Diz que não sofreu pressão nem do governo nem da iniciativa privada. Para contextualizar, faz um capítulo sobre a história do transporte ferroviário, do pioneirismo na América do Sul ao sucateamento vivido a partir dos anos 60.

Suas descrições são brutais, como ao escrever sobre o interior dos vagões, que pareciam um novelo de pessoas, tão grande era o emaranhado de braços, pernas e troncos. Sem aliviar, sem apelar, Graciela avança sobre o caso, expõe empresas e governo, acuados por conta da tragédia – logo depois, foram feitas mudanças no sistema ferroviário. Há corrupção, mas também a descrição da engrenagem que rege as relações entre esferas privadas e governamentais.

O livro saiu na Argentina em setembro de 2012, sete meses após o acidente. No Brasil, após sua publicação neste ano, o livro foi adotado pelo curso de jornalismo da Universidade Anhembi-Morumbi.

No intervalo de viagens entre Buenos Aires e Nova York, Graciela respondeu a algumas perguntas do blog sobre o livro e jornalismo. Ela é autora também do livro “Pecado Original – Clarín, los Kirchner y la Luta  por el Poder” (sem tradução para o português), lançado em 2011 e que trata da disputa entre o conglomerado de mídia e o governo federal.

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A jornalista argentina Graciela Mochkofsky | Foto: Daniel Mordzinzki/Divulgação
A jornalista argentina Graciela Mochkofsky | Foto: Daniel Mordzinzki/Divulgação

No livro, você faz descrições do cenário de terror no trem. Como conseguiu tais imagens? 
Fiz o jornalismo clássico: entrevistando protagonistas e testemunhas, analisando documentos, vídeos e fotografias e cruzando dados. Com base em tudo isso, eu descrevi os fatos.

Foram feitas denúncias antes dos dois últimos acidentes? Qual o papel da imprensa na fiscalização das ferrovias?
O mesmo que no controle de outras áreas de interesse público. Algumas vezes, o trabalho é bem feito e em outras, não. O declínio das ferrovias na Argentina é uma questão que tem tido forte presença na mídia nas últimas décadas —desde os anos 60 pelo menos — e vários acidentes foram amplamente cobertos.

Qual a situação hoje do caso? Mudou o sistema ferroviário da Argentina?
Está em andamento um processo público em que todos os responsáveis ​​serão julgados, a partir do nível mais baixo da cadeia de responsabilidade ao nível político: o condutor, empresários e funcionários do governo da Secretaria de Transportes são todos acusados​​. O julgamento é lento, vai demorar algo como um ano para se chegar a uma conclusão. O governo alterou várias coisas depois do acidente: comprou novos trens chineses, modernos e melhores do que os antigos. Está melhorando as vias e, no caso do governo da cidade, as passagens de nível, que foram outra causa de muitos acidentes. Então, a situação é melhor. O choque do Once foi tão dramático e sacudiu tanto o país que era impossível para o governo não responder com algumas melhorias. Melhorias que certamente deveriam ter sido feitas dez anos atrás, quando se tinham dinheiro e decisão política, então desviados por interesses de curto prazo.

O acidente na estação Once
O acidente na estação Once

Como você avalia a disputa entre os jornais contra o governo argentino e os que são a favor? Como o jornalismo é afetado com esse embate?
A polarização a favor e contra o governo, ativamente promovido pelo governo e aceito pelas empresas como normal, resultou em grande prejuízo para o jornalismo de qualidade profissional.

Como você vê hoje o novo jornalismo hoje? A internet o abafou?
O novo jornalismo já está bem velho, era uma ideia dos anos 50. O gênero que mais prosperou nos últimos anos no mundo espanhol foi a “crônica”, uma narrativa de não-ficção que não se caracteriza tanto por utilizar instrumentos da ficção para contar histórias verdadeiras, mas por contar pequenas histórias, tentando fazê-las universal. Eu acho que em muitos casos o gênero deixou que as histórias ficassem pequenas; apenas nos casos em que as questões eram realmente importantes, relevantes, essas crônicas resultaram em trabalhos maiores, que vão durar mais tempo. Então, a “crônica” começou a abrigar todo texto noticioso de vários graus de narrativa. Agora, creio que estamos vendo uma recuperação de jornalismo que conta as histórias relevantes de nossos tempos.

A internet será o caminho natural do jornalismo? Você ainda acredita no jornalismo impresso? O que é preciso para o jornalismo recupere sua credibilidade?
Eu acho que o jornalismo on-line e o impresso têm o seu lugar, seu público, suas características. O digital é uma plataforma, e você pode fazer o que quiser dentro dela. Você pode fazer o jornalismo tradicional em formato digital, e de fato se faz muito. Depois, há os meios puramente digitais, que exploram todo o potencial do formato, que é destinado a novos públicos, dentro do qual há várias mídias diferentes, para diferentes propósitos e diferentes públicos. Vemos um novo ecossistema em que se encaixam enormes possibilidades. Acredito que esse cenário é muito bom. O jornalismo de qualidade, informativo, que perdeu muita credibilidade no mundo, pode tirar proveito desses novos formatos para recuperar seu profissionalismo, sua independência e qualidade.

Quais foram suas influências? Depois de ler o seu livro, alguns nomes vêm à mente: John Hersey, Rodolfo Walsh, Ryszard Kapuscinski…
Minhas influências são bem variadas e eu tenho medo de deixar de fora muitos nomes, mas eu indicaria George Orwell, Rodolfo Walsh, Kapuscinski, Gitta Sereny, Amira Hass e Janet Malcolm.

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