Comentário, Itália, Não ficção

O real poder não está com quem conta o dinheiro, mas com quem pesa, escreve Saviano

13447_gg“Não deixem de ler. Várias reportagens com bom trabalho de investigação em pontos chaves da produção, circulação e consumo da cocaína no planeta. Brilhante.”

No compartilhamento que fiz na página do blog no Facebook para o post do Leitura em Andamento de “Zero Zero Zero” (Companhia das Letras), de Roberto Saviano, um amigo deixou esse comentário sobre o livro.

E ao chegar à última página do livro, impossível não concordar com o adjetivo final. O autor de “Gomorra” (Bertrand Brasil) escreveu uma das grandes obras do jornalismo investigativo deste século, um trabalho minucioso, muito bem escrito e pesquisado, com um texto que coloca o autor quase como um personagem e leva o leitor a conhecer histórias e fatos até então ignorados.

O começo é assustador:

“O sujeito sentado agora a seu lado no metrô cheirou para acordar hoje de manhã (…) As pessoas mais próximas de você cheiram. Quem cheira está ao seu lado. É o policial que está a ponto de te parar (…) Se não é ele, é o cirurgião que está acordando agora para operar sua tia e que graças ao pó consegue abrir até seis pessoas por dia (…) O porteiro do seu prédio cheira, se não ele, a professora que dá aulas de reforço a seus filhos, o professor de piano do seu neto. O prefeito com que você foi jantar. O escritor que você lê antes de dormir, a jornalista que você vai ver no telejornal. Mas se, pensando bem, você acha que nenhuma dessas pessoas cheira cocaína, ou você é incapaz de ver, ou está mentindo. Ou, simplesmente, quem cheira é você”

Em três páginas, Saviano lista as pessoas que estão cheirando cocaína. Familiares, profissionais de todos os tipos, pessoas comuns que fogem do estereótipo de viciado e ficam mais próximas de alguém com quem você conversa diariamente. A forma encontrada para desarmar o leitor e colocá-lo em seu lugar, num mundo gerido pela droga, é brutal.

Para entender Saviano: o jornalista italiano lançou em 2006 “Gomorra”, livro em que conta como a Camorra, a máfia napolitana, opera. Ele se infiltrou nesse submundo e escancarou métodos, estratégias e formas de atuação do crime. Desde então, vive escondido e só circula com escolta policial. Hoje, tem 35 anos. “Gomorra” se tornou best seller, virou peça de teatro, ganhou uma versão para o cinema, premiada em Cannes, e atualmente é série de TV.

Cena da versão cinematográfica de "Gomorra"
Cena da versão cinematográfica de “Gomorra”

As primeiras páginas podem confundir o leitor com a estrutura da narrativa. Nomes em excesso, de várias nacionalidades, acabam por atrasar a leitura. São traficantes, chefes, quadrilhas, cartéis aos montes, que geram um efeito ensurdecedor. Ao multiplicar os personagens, Saviano parece nos dizer que é impossível ter algum tipo de controle.

Supere isso. O efeito é esse mesmo, de confusão, pois a droga é, você vai concluir isso ao final, a roda que faz girar o planeta.

Por exemplo, Saviano mostra como a cocaína salvou os bancos na crise financeira de 2008. É leitura empolgante. Ele também explica porque o plano contra as drogas fracassou em todo o mundo – em certo momento, ele defende a legalização, mas sem panfletagem.

Vamos conhecer como funcionam as plantações, como são negociadas as cargas, as falcatruas para entrar com as drogas nos países e também os casos de violência que cercam esse comércio.

A pesquisa impressiona. Vivendo sob proteção, Saviano conseguiu fontes preciosas nas instituições policiais do mundo inteiro. Ele investiga cartéis e organizações criminosas da Colômbia, do México, Brasil e Rússia. Volta às máfias italianas, nas três que dominam o país – calabresa, napolitana e siciliana. Retoma, de certa forma, o tema do seu livro mais famoso e mostra quais foram as consequências para ele e Nápoles – a cidade agora o rejeita.

O jornalista italiano Roberto Saviano
O jornalista italiano Roberto Saviano

Ele também ilustra como ocorre o tráfico e a venda da droga pelo mundo. Se você quiser cocaína em Londres, basta ir a um restaurante e pedir um vinho que não está no cardápio; é a senha para o garçom. Saviano assim descreve os comandantes do tráfico:

“Existem duas espécies de ricos. Aqueles que contam dinheiro e aqueles que pesam o dinheiro. Se você não pertence à segunda espécie, não sabe realmente o que é o poder. Isso eu aprendi com os narcotraficantes.”

O transporte por oceano é feito pelos chamados narcossubmarinos, equipamentos construídos pelos cartéis e, na maior parte das vezes, usados apenas em uma viagem. É um dos meios, entre tantos – os casos das mulas, pessoas seduzidas pelo dinheiro fácil para transportar drogas ingeridas, são impressionantes.

“Zero Zero Zero” tem um tom reflexivo, muitas vezes em primeira pessoa, como se o autor quisesse conversar com o leitor, compartilhar o terror que salta das páginas.

Este é um dos grandes livros do ano no Brasil. Um trabalho de reportagem, de pesquisa e texto dos mais significativos.

*****

“O uso da força se traduz, em primeiro lugar, na guerra à cocaína. Só se poderá cantar vitória quando na Colômbia não crescer mais uma folha sequer de cocaína. Os cultivos devem ser erradicados, bombardeados até a saturação com fumigações aéreas, esterilizados através do uso de herbicidas agressivos. Do ponto de vista ambiental, o preço é altíssimo. O ecossistema de florestas virgens é comprometido, o solo e os lençóis freáticos ficam repletos de venenos, a terra colombiana é queimada ou poluída, incapaz de, no curto prazo, gerar qualquer fruto que tenha valor. Do ponto de vista social, as consequências são igualmente graves. Sem alternativa, os camponeses abandonam em massa as regiões destruídas e começam a cultiva a coca em áreas do país cada vez mais inacessíveis. O fracionamento do cultivo e a fragilidade dos campesinos deslocados favorecem o controle dos barões da droga. Além disso, os narcos investem em qualquer método que aumente a fertilidade dos campos, conseguindo até dobrar o número de colheitas anuais.”

“A cada ano, cerca de metade das oitenta a 110 toneladas da droga que transitam pelo Brasil ficam dentro das suas fronteiras para satisfazer um exército de 2,8 milhões de consumidores de cocaína e derivados (…) Você liga para um número, escolhe a droga e a quantidade e recebe a mercadoria comodamente em casa, como se fosse uma pizza ou um sushi. Pó delivery.”

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3 comentários em “O real poder não está com quem conta o dinheiro, mas com quem pesa, escreve Saviano”

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