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Dos arquivos: Um novo elogio à loucura

“Em diversos momentos de minha longa vida de leituras senti a tentação de escrever uma autobiografia baseada exclusivamente nos livros que tiveram importância para mim.”

21536513_4Alberto Manguel tem dedicado seus últimos anos aos ensaios sobre livros e ao ato de ler, como em “A Biblioteca à Noite” e “Os Livros e os Dias”. Dessa forma, o trecho acima, selecionado de “À Mesa com o Chapeleiro Maluco” (todos Companhia das Letras), transforma-se um tanto em real, mas acelera a sua completa definição.

Essa suposta autobiografia que Manguel vem escrevendo acaba sendo um pouco a autobiografia do leitor também. A forma como o escritor argentino naturalizado canadense escolhe seus temas e os coloca na página faz com que o ensaio seja uma conversa, em que o diálogo surge da necessidade que o leitor encontra em trocar informações com o que lê.

“À Mesa com o Chapeleiro Maluco” toma como base “Alice no País das Maravilhas” e a loucura para falar de livros, memórias de livros e autores. As referências surgem tanto no título da edição brasileira como da original, “Novo Elogio da Loucura”, derivado de “Elogio da Loucura”, de Erasmo de Roterdã – o Chapeleiro Maluco do título em português é nome de um personagem do romance de Lewis Caroll. As epígrafes surgem com trechos da obra de Carroll, a guiar os capítulos em que os breves ensaios estão agrupados. A cada um deles, obra e criador são investigados para mostrar como a loucura ou “demência sublime” busca inspiração para desafiar regras, tendências, a padronização, o confortável.

Manguel tem prosa fácil e não transforma seu texto num ensaio acadêmico, ao mesmo tempo em que não facilita e nem opta pela cultura de almanaque. Dessa sorte de leitor, ele faz com que a leitura seja um mergulho em nossa própria biblioteca, na nossa história de leitura.

Para Cyril Connolly, um dos autores presentes no ensaio, a biblioteca deve representar, para o leitor comum, “um memorial ao tipo de escritor que ele gostaria de ter sido”. É esse o resultado da leitura de “À Mesa como Chapeleiro Maluco”. Olhamos a nossa biblioteca e nos perguntamos qual escritor somos.

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2 comentários em “Dos arquivos: Um novo elogio à loucura”

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