Bolívia, Entrevista, Ficção

Um tesouro boliviano

Um dos projetos editoriais mais interessantes no Brasil atualmente é o selo Otra Língua, coleção da Rocco que publica autores latino-americanos clássicos ou desconhecidos em português.

Coordenada pelo escritor Joca Reiners Terron, a coleção já lançou dez títulos desde meados de 2013. São autores de Honduras, Bolívia, Equador, Argentina, México, Guatemala, quase todos traduzidos pela primeira vez.

O blog já leu oito dos livros da coleção e comentou nesta tag – os dois restantes já estão em casa, “Cantiga de Findar”, do mexicano Julián Hebert, e “O Boxeador Polaco”, do guatemalteco Eduardo Halfon.

10372030_646631362083022_3573091458817434806_nO melhor título da coleção, na opinião do blog, é “Hotéis”, do boliviano Maximiliano Barrientos. Uma espécie de “road book” – se é que esse termo existe -, o livro é uma viagem de pessoas que não querem ser descobertas ou descobrirem novas paisagens, pelo contrário, querem se esconder do mundo em que vivem e buscam a introspecção – a solidão numa forma mais aprofundada.

Um casal (Abigail e Tero) que trabalha no cinema pornô resolve viajar de carro com a filha do rapaz (Andrea). Estamos no altiplano boliviano, mas poderíamos estar no Brasil, nos Estados Unidos, na Europa. Os personagens são universais, assim como a ambientação. E esse é um dos grandes méritos do livro – tratar de temas tão pessoais com uma intensidade universal.

A estrutura da narrativa é fragmentada. Cada capítulo é dedicado a uma voz, que revela  suas impressões da vida e da viagem. Em alguns dos capítulos, surge um quarto narrador, um cineasta que produz um documentário sobre os viajantes e encontra uma forma de realizar seus desejos por meio de outros.

Assim, o leitor acompanha a viagem e os desejos de cada uma das vozes como se fosse um romance linear, cronológico. Mas não. Envolvido nessa viagem, o leitor não sabe mais como tudo começou, para onde está indo e com quem. Apenas que a viagem é das mais intensas da literatura contemporânea.

O tom encontrado por Barrientos é original, ainda que a estrutura não seja exatamente uma novidade. Mas o boliviano desbravou uma forma já conhecida com vigor e levou um frescor a esse estilo. Prosa nova, pulsante, que o Brasil precisa conhecer mais.

O blog conversou com Barrientos, que falou da concepção de “Hotéis”, da sua adoração por Bruce Springsteen e da importância da música no seu trabalho, de autores bolivianos e brasileiros.

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O escritor boliviano Maximiliano Barrientos
O escritor boliviano Maximiliano Barrientos

Seu livro explora formas não lineares de prosa, mas sem radicalizar. O que lhe interessa na experimentação?
Experimentação pela experimentação não me interessa. Eu acho que as histórias determinam como devem ser contadas. Há histórias que precisam ser contadas em fragmentos, outras de forma linear. No caso de “Hotéis”, há uma aposta na fragmentação, porque é um romance em forma de coral em que você tenta reconstruir, através da memória, do exercício duvidoso de memória, a experiência de uma viagem feita em conjunto. Na América Latina, existem alguns escritores que tentam fazer da fragmentação um dogma, como se isso fosse uma ideologia. Eu acho que eles caem em uma espécie de fascismo. Esquecem-se que é a história que determina como ela deve ser contada. Na verdade, às vezes penso que essa aberração que alguns desses escritores têm pela linearidade mostra uma falha: a incapacidade de contar uma história sem ter que intervir com artifícios.

“Hotéis” pode ser uma espécie de “road book”, mas seus personagens parecem buscar mais a introspecção do que a abertura. O que o levou a seguir essa alternativa?
Recentemente, li um comentário que foi escrito em um jornal brasileiro, que insinuava que “Hotéis”, ao contrário de “On the Road”, de Kerouac, trabalha a ideia de viagem não para acumular experiências, mas para dissolvê-las. Eu achei que a avaliação foi muito lúcida e capturou muito bem o espírito do livro. Não é um rito de passagem, é o oposto. É uma viagem de desintegração. A viagem foi motivada, seduzida pela ilusão de desaparecer.

Abigail, Tero e Andrea observam a vida de forma a criar um vínculo emocional entre eles. Seus relatos acabam por se unirem, mesmo sendo apresentados individualmente. Como o quarto personagem, o narrador que documenta a vida dos três, se encaixa nessa estrutura? Como ele se liga aos três viajantes?
Eu suspeito que ele sente nostalgia de uma viagem que ele não poderia realizar. Nostalgia para as coisas não vividas por ele, mas por outros. Uma viagem como essa que Abigail e Tero fizeram requer coragem, uma coragem que o documentarista não tem. Ele também faz parte de um colapso, o colapso do seu relacionamento, mas, ao contrário dos dois atores pornôs, ele não está fugindo, ele não se atreve a apostar nesse gesto de desintegração, que em um sentido mais sutil é também um gesto de reconstrução. Sua jornada, de alguma forma, é através do documentário.

Não é possível perceber claramente onde a ação do livro acontece. A fuga interessa mais do que a rota? Por quê?
A idéia do livro era retratar mais as subjetividades do que os espaços geográficos. Eu estava mais interessado nos climas psicológicos e emocionais do que na atmosfera do lugar. Eu estava mais interessado em retratar como as diferentes solidões dos personagens se conectavam à tentativa de fuga, nessa viagem para lugar nenhum. Nesse sentido, eu acho que “Hotéis” é um romance sobre três diferentes tipos de solidão.

E por que não mergulhar no universo latino? Você buscou uma história que poderia ser lida como se acontecesse com personagens de qualquer país.
O espaço, certamente, é a América Latina. Mas poderia ter acontecido em qualquer outro lugar do mundo e a história não sofreria alterações porque o que importa é a subjetividade dos personagens. Suas feridas, a tentativa de reconstrução que empreendem. A viagem, nesse sentido, é um tipo de terapia. Eu escrevi o romance quando eu tinha 26 anos, e eu estava interessado em me distanciar do localismo. Em “La Desaparición del Paisaje”, que irei publicar no próximo mês pela editora Periférica, na Espanha, estou interessado em reconstruir a área geográfica da minha cidade. Mas em “Hotéis” foi outra a aposta.

Bruce Springsteen
Bruce Springsteen

Na entrevista que você deu a Joca Reiners Terron publicada no livro, você cita dois discos de Bruce Springsteen como influências – “Nebraska” e “The River”. O rock é uma inspiração? A quem mais você recorre?
Muitos compositores: Bob Dylan, Warren Zevon, Elliott Smith, Bon Iver. Bandas como Pixies, Dire Straits, Hermética, Los Redonditos Ricotta, Motörhead, Danzig. Mas eu tenho um carinho especial por The Boss. Springsteen está em tudo o que escrevo: há uma taxa de vulnerabilidade e resistência em suas canções que eu quero explorar, com as quais estou em sintonia. Eu sempre escrevo ouvindo música. Estou interessado na relação direta que a música tem com as emoções. A literatura com a qual me conecto é uma literatura de emoções, subjetividades, psicologias alteradas. Sem retórica em suas canções, e isso é o mais comovente, por isso a conexão com as grandes canções é imediata. Ouça “Independence Day”, de Springsteen, e ali há todo um mundo. É uma novela sintetizada em três minutos. Esse poder de síntese que tem a música é incrível, eu suspeito que muitos dos escritores da minha geração aspiraram reconstruir em seus textos a pegada de comoção que algumas músicas deixaram quando eram adolescentes. A tarefa, claro, condenada ao fracasso.

O Brasil tem pouco contato com escritores bolivianos. Poderia estender para autores da América Latina, com exceção da Argentina e do Chile e de autores consagrados, como Llosa e Gabriel García Márquez. A que você credita essa falta de conhecimento?
Durante muito tempo, havia uma espécie de barreira entre os escritores latino-americanos e brasileiros, uma barreira dada pela linguagem, mas, felizmente, graças ao trabalho de tradução de algumas editoras, como Adriana Hidalgo, na Argentina, ou da coleção Otra Língua, da Rocco, no Brasil, fomos capazes de construir pontes. Estou otimista sobre a abordagem que está sendo dada, eu acho que o futuro será de laços ainda mais estreitos.

Como é a relação na Bolívia com autores brasileiros?
Estou muito interessado no que está sendo feito no Brasil. Eu sou fã de Bernardo Carvalho, de quem li o romance “Nove Noites” e os contos de “Aberração”. Carvalho também traduziu Juan José Saer para o português, que é um dos meus escritores favoritos e um dos maiores da América Latina. Talvez o maior depois de Borges. Eu li com grande prazer “Diário de uma Queda”, de Michel Laub, que me pareceu poderoso. Há poucos dias, graças a uma tradução da Sexto Piso, li “Todos os Cães São Azuis”, de Rodrigo Souza Leão. Achei um livro brutal, e, apesar de contar uma experiência tão dura com a loucura, a estadia em um hospital psiquiátrico, é cheio de humor. Hilda Hilst é soberba, eu li uma tradução em inglês de “A Obscena Senhora D.” e isso me mudou, há muita poesia lá. Agora, eu tenho uma tradução espanhola de “Cartas de um Sedutor” e eu pretendo lê-la em breve, está na minha cabeceira. Alguns anos atrás, eu li João Gilberto Noll, Rubem Fonseca e Guimarães Rosa, eu achei impressionante. Eu quero continuar a ler mais escritores brasileiros, eu sinto que algo está acontecendo aí. Eu quero ler jovens autores como Joca Reiners Terron e Antonio Xerxenesky, de quem só li alguns contos. Espero que em breve tenha mais traduções para o espanhol.

Recentemente, além do seu livro, foi lançado “Norte”, de Edmundo Paz Soldán. Que outros autores bolivianos você recomenda?
Há uma ninhada de jovens escritores nos últimos anos que está fazendo um trabalho muito pessoal. Nomes como Liliana Colanzi, Rodrigo Hasbun, Sebastian Antezana, Wilmer Urrelo Saul Montaño, Christian Vera, Giovanna Rivero e Juan Pablo Pineiro. Antes deles, havia Jaime Saenz, que é um grande poeta, eu recomendo a sua poesia e prosa curta, especialmente o texto autobiográfico intitulado “La Pedra Ímã”. Saenz já foi traduzido para o inglês, italiano e alemão. Espero que em breve seja traduzido para o português. Há também muitos poetas vivos que valem a pena. Entre os “seniors” destaco Julio Barriga e Quino. E entre os jovens, Emma Villazón e Anabel Gutiérrez, para citar alguns.

Você conhece os outros títulos publicados pela Otra Língua? Como avalia o trabalho de curadoria do Joca Reiners Terron?
Acho incrível o trabalho que ele está fazendo. Eu me sinto muito, muito honrado por estar em tal lista, com os escritores que admiro muito como Horacio Castellanos Moya, Fabián Casas, César Aira e Julian Herbert.

Hoje, o que você busca na literatura – como leitor e como escritor?
Na literatura, procuro intensidade. Como leitor, eu procuro a experiência de um mundo mediado por um olhar e um estilo. Estou à procura de livros que mexam minha cabeça, eles me golpeiem, que me interpelem, que me enojem, que me façam ficar com raiva e me conectem com meu próprio passado. Procuro livros violentos. Livros que me permitem sentir a compaixão, que me façam encontrar tempo para ficar sozinho e digeri-los na minha cabeça. Livros que estão vivos, que significa uma viagem para a subjetividade dos outros. Isso me faz sentir menos isolados do mundo. Eu não me importo com livros de ideias, livros que são feitos com boas intenções. Eu não me importo com a linguagem vazia nem com a retórica de uma arte ultrapassada. Estou interessado em livros com poesia, ritmo, muito humanidade. Em suma, como leitor busco livros valentes.

*****

“Algum dia estaremos separados e viveremos vidas distintas. Às vezes pensaremos em quem fomos. Não pensaremos no que estamos fazendo neste momento nem na razão pela qual se chorou naquela tarde (se é que existe uma verdadeira razão). Estaremos com outras pessoas e recordaremos o que não queremos recordar, assim acontece sempre. Não seremos os que somos agora e não teremos pena por deixar de sê-lo. Não fizemos mal e poderemos escapar quando o cansaço se tornar intolerável”

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