Colaboração, Reportagem

Uma casa para escritores perseguidos

Em seu 10º ano, o Fórum das Letras de Ouro Preto vai promover a parceria entre a Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) e a Internacional Cities of Refuge Network (Icorn), uma ONG responsável que abrigar escritores perseguidos em seus países de origem. A ideia é que a universidade receba esses escritores em uma casa, a primeira na América do Sul.

Essa história foi contada por Vinícius Lacerda, em reportagem publicada em “O Tempo”.

*****

Por Vinícius Lacerda

Como todo evento cultural que perdura durante os anos, o Fórum das Letras, que terá sua abertura oficial quarta-feira (29/10), em Ouro Preto, desdobrou-se em outras frentes que não só a literatura, foco principal da programação. No campo social, por exemplo, o evento recolhe livros que são doados para bibliotecas públicas da cidade onde é realizado.

“Acho importante que eventos sazonais contribuam com ações mais permanentes para o local, pois os realizamos com recursos públicos e devemos nos esforçar para que seus resultados deem retorno para a comunidade em forma de ações mais estruturais. Temos o dever de tentar modificar para melhor a qualidade de vida dos brasileiros”, afirma a coordenadora do Fórum das Letras, Guiomar de Grammont.

Neste ano, o Fórum das Letras promove uma união internacional que contribuirá não só para a vida dos brasileiros como também para a de estrangeiros. Trata-se da parceria entre a Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) e a Internacional Cities of Refuge Network (Icorn), uma ONG responsável por abrigar, desde 2006, escritores perseguidos em seus países de origem.

“O objetivo principal é defender a liberdade de expressão desses escritores. É importante dizer, no entanto, que não se trata de exilados. Eles não foram expulsos de seus países, mas sofrem por intolerância política e religiosa”, diz o professor Carlos Magno Paiva, coordenador do departamento de relações internacionais da Ufop e responsável pelas negociações entre as entidades.

A ideia é tornar a cidade de Ouro Preto a primeira da América do Sul a ter uma casa para receber esses artistas. O primeiro passo nessa direção acontecerá na abertura oficial do evento, quando o diretor internacional do Icorn, Helge Lund, e o reitor da Ufop, Marcone Freitas, assinam uma carta de intenção para criação da casa. “Vamos disponibilizar uma vaga para escritores internacionais durante quatro meses do ano e contribuir com a alimentação”, diz Paiva.

Porém, acrescenta o professor, outros recursos são necessários para receber esses autores. “Eles precisam de bolsas e seguro saúde, assim como apoio relativo ao transporte”, diz Paiva, ainda em busca de novos parceiros, seja de origem pública ou privada, para contribuir com essa verba. “A universidade é muito simpática à ideia, mas não somos uma cidade e precisamos de ajuda.”

Para conhecer de perto a experiência desses artistas não será preciso esperar até o ano que vem. O poeta e tradutor persa Mohsen Emadi e a poeta hondurenha Júlia Olivera participam do debate Exílio ou Silêncio no dia 30/10. “Eles fazem parte dos 792 escritores perseguidos e identificados pelo Icorn em 2013. Entre eles, 72 se encontravam em caso urgente, e conseguimos acolher 15”, conta Sylvia Debs, representante da ONG no Brasil.

O poeta persa Mohsen Emadi | Foto: Icorn/Divulgação
O poeta persa Mohsen Emadi | Foto: Icorn/Divulgação

Em geral, os escritores, sejam poetas, jornalistas, tradutores ou romancistas, inscrevem-se no site da Icorn, que avalia os perfis e a situação atual de cada um, acionando, se necessário, organizações internacionais como a ONU. Depois da triagem, os selecionados são enviados a países que possuam uma casa. Atualmente, há 40 delas espalhadas, principalmente, por países europeus. Nas Américas, há apenas uma, no México.

Apesar da origem francesa, Sylvia tem forte ligação com o Brasil por ter sido o país onde fez seu doutorado em literatura. Desde o ano passado, ela vem fomentando a criação de uma casa da Icorn por aqui. “Sempre achei que o país, por ter passado recentemente por um ditadura militar e por ter um tradição de ser hospitaleiro com estrangeiros, seria ideal.”

Se tudo der certo, Ouro Preto poderá comprovar essa hospitalidade já no ano que vem. “A expectativa é que recebamos nosso primeiro visitante em 2015”, afirma Paiva, que salienta a relevância do projeto também para a universidade. “Aqui, o escritor participará da vida acadêmica, publicando textos e ministrando workshops e palestras para alunos. Será uma troca na qual o artista perseguido e a população local poderão apreender juntos.”

Tradutor de Carlos Drummond de Andrade, Mário de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Paulo Bomfim e Hilda Hilst para o persa, o poeta e perseguido político Mohsen Emadi vive hoje no México como beneficiado do programa da Icorn. Em 2009, vivenciou a opressão por protestar contra a corrupção nas eleições do Irã. “Eu era um exilado dentro do meu próprio país. Hoje, a maioria dos iranianos vive exilada de sua própria cultura em decorrência do fundamentalismo islâmico”, conta.

O escritor atesta que a ONG é importante não só por tê-lo ajudado a encontrar um lugar para viver, mas também por promover intercâmbio. “Desde que fui para o México, pude levar muito da cultura persa para outros locais. É como se estivesse trabalhando como embaixador cultural da poesia daqui por meio da linguagem persa.”

*****

Para ler a reportagem completa, acesse o link.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s