Brasil, Comentário, Policial/Suspense

Um mistério na USP, um tropeço de Kucinski

Bernardo Kucinski começou tarde na ficção, aos 74 anos. Lançou dois livros com a ditadura militar como pano de fundo – “K.” e “Você Vai Voltar Para Mim” (ambos Cosac Naify), nos últimos três anos.

42273893Agora, emenda outro livro, “Alice” (Rocco), assinado apenas como B. Kucinski, desta vez com uma veia policial – a editora diz que essa é a assinatura do escritor para livros de ficção.

A história se passa na USP de 1990, época de Luiza Erundina como prefeita, Orestes Quércia como governador de São Paulo e Fernando Collor como presidente. O retrato da universidade é desolador, um ambiente devastado, corrupto e interesseiro.

É nesse caldeirão que Kucinski ambienta sua trama. O ponto inicial é a morte de Alice, professora e cientista, um tanto recolhida e de posições arrojadas. O delegado Magno será o responsável pela investigação e vai contar com a ajuda de uma amiga da professora, um orientando de Alice e um ex-professor cientista cassado por ser comunista.

O desenvolvimento não surpreende, pelo contrário. É linear e sem muitas surpresas, maquinações e reviravoltas. Kucinski, que provou ser um prosista de primeira nos livros sobre a ditadura militar, aqui fracassa nos diálogos, didáticos, como se fossem escritos para seriados da Globo.

O autor até tenta dar alguma vida aos personagens, rasos, como no caso de Magno, transformado em um apreciador de vinhos e queijos – há algo mais clichê? – e fã de cinema, principalmente clássicos. Mas soa tão superficial e forçado quanto achar que Luana Piovani possa ser uma grande psiquiatra forense.

Fica claro que o que menos interessa a Kucinski aqui é a trama policial e mais o contexto referente à USP. Como se estivesse lavando roupa suja, o escritor faz com que o crime seja levado preguiçosamente, enquanto despeja vigor nas intrigas uspianas. A ditadura apenas ronda o cenário, com lembranças que vão a “K.” e ao sucateamento da universidade por conta de atividades subversivas. Mas nem no seu terreno mais conhecido Kucinski consegue avançar com clareza e profundidade.

Dessa forma, fracassou como escritor de romance policial. E, como romance sobre a USP, “Alice” se revela superficial. Dessa forma, o livro fica num meio termo que sugere uma escrita às pressas, sem rumo.

Apesar de ser uma leitura agradável e fluente, “Alice” fica aquém do que Kucisnki prometeu nos dois primeiros livros ficcionais que escreveu. Muito aquém.

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