Brasil, Entrevista, Esporte

Livro decifra o fenômeno dos jogadores expatriados

Nos jogos da Espanha na Copa do Mundo no Brasil, bastava o atacante Diego Costa tocar na bola para que a torcida o vaiasse. A brasileira, não a espanhola nem a rival da hora.

Jogador sem passagem por clubes brasileiros, Diego foi para Portugal com 17 anos. Tornou-se artilheiro quando pousou na Espanha e se consagrou na última temporada do Atlético de Madrid, campeão espanhol e vice da Liga dos Campeões.

Na seleção brasileira, foi convocado uma vez por Luiz Felipe Scolari, em 2013. Mas optou pela cidadania espanhola e disputou a Copa pela então campeã mundial. Scolari não o perdoou e o chamou de traidor da pátria.

Diego não é caso único, pelo contrário. Faz parte de uma tendência cada vez mais forte, de jogadores naturalizados por outros países para defender suas seleções. E o Brasil é um dos grandes fornecedores de atletas.

O jornalista e historiador Frederico Teixeira passou mais de quatro anos pesquisando esse universo, o de jogadores brasileiros que optam por outra cidadania para chegar a uma seleção nacional.

brazucaO resultado é o livro “Expatriados Futebol Clube” (Editora do Autor), com a história de 140 jogadores brasileiros que foram ao exterior defender outros países. Pesquisador de fôlego, Teixeira recuou até 1930, com a pioneira transferência de Filó para a Itália, e chegou a 2014, com o caso de Diego Costa. Mais. Já projeta novos jogadores que provavelmente irão jogar por seleções de países espalhados por todo o mundo.

A lista de nações que receberam brasileiros é impressionante – além de destinos tradicionais, como Espanha, Itália e Alemanha, surgem países da periferia do esporte, como Togo, Líbano, Vietnã, Burkina Faso e Armênia -, assim como dos nomes dos atletas. A maior parte é de gente desconhecida por quem acompanha o futebol, atletas que saíram com 15, 16 anos, e se tornaram nômades pelo mundo. Para ficar apenas nos atletas que se dirigiram a potências do futebol, o livro lista nomes como Rodrigo, Fabiano Santacroce e Kevin Kurananyi, que partiram não somente em busca de segurança financeira, mas também do desejo de se realizarem.

O jornalista completa a lista dos 140 com estrangeiros que vestiram a camisa da seleção brasileira e se naturalizaram no país.

O livro independente teve uma primeira tiragem de 500 exemplares e custa R$ 25. Os pedidos podem ser feitos pelo email fredericoangelo@bol.com.br. O livro também está sendo vendido na livraria Scriptum, em Belo Horizonte. A página do livro no Facebook também dá outros caminhos para a compra.

O autor conversou com blog sobre seu trabalho. A entrevista segue abaixo.

*****

O jornalista Frederico Teixeira
O jornalista Frederico Teixeira

Quanto tempo entre a pesquisa até fechar o livro?
Iniciei a pesquisa do livro em 2010, logo depois da confirmação da lista de jogadores inscritos pelas 32 seleções que disputaram o Mundial da África do Sul. Na ocasião, nada menos do que 25 países contavam com reforços “estrangeiros”, totalizando 75 atletas naturalizados, sendo quatro brasileiros: Cacau (Alemanha), Marcos Senna (Espanha), Deco e Liédson (Portugal). Esse fenômeno chamou minha atenção e resolvi pesquisar um pouco mais sobre o assunto. Ao buscar informações sobre esses jogadores mais famosos, acabei descobrindo vários outros menos conhecidos. Quando percebi a real dimensão do material que tinha em mãos, conclui que o ideal seria divulgar o resultado da pesquisa em um livro. Entretanto, em função de questões pessoais e de mudanças em minha rotina de trabalho, tive que deixar o projeto meio “engavetado” por um tempo, dando sequência apenas ao processo de pesquisa e coleta de dados, já que o número de casos de atletas brasileiros naturalizados só aumentava. Em 2013, com a da Copa das Confederações no Brasil e a proximidade cada vez maior da realização do Mundial por aqui, resolvi retomar o projeto. Acrescentei novos dados e redigi os textos, concluindo a edição em junho, as vésperas do pontapé inicial da Copa 2014. 

Quais as maiores dificuldades que encontrou na pesquisa?
As maiores dificuldades foram em relação àqueles jogadores mais desconhecidos, atletas que, geralmente, deixaram o país sem terem atuado em grandes equipes ou centros do futebol brasileiro. Muitos foram buscar novas possibilidades de vida quando ainda eram adolescentes. Por isso mesmo, não havia tantas fontes de pesquisa disponíveis. Em outros casos, mesmo se tratando de jogadores que haviam atuado em equipes um pouco maiores, ainda havia pouca informação sobre algumas das primeiras naturalizações, que começaram ainda na década de 1930.

O que mais foi gratificante nesse trabalho?
Foi poder reunir minhas duas paixões: história e futebol. Em especial nos casos de países “periféricos” do mundo da bola, em que pude também relatar um pouco da realidade local, como Togo, Guiné Equatorial e Timor Leste, por exemplo.

O que lhe interessou na hora de escrever um livro sobre esse assunto?
Eu queria tentar compreender o que leva o jogador brasileiro a se naturalizar. Sem querer emitir juízo de valor, procurei compreender quais seriam as principais causas do fenômeno.

E quais são as causas?
Algumas são bastante claras: a grande concorrência no futebol local, não havendo espaço para todos os que sonham se transformar em jogadores; a questão econômica, já que os salários astronômicos, ao contrário do que muitos pensam, são realidade apenas para uma parcela ínfima dos atletas no Brasil; a possibilidade de ganhar um “passaporte livre” no mercado europeu, não entrando mais no grupo dos jogadores “não-comunitários”; e o próprio processo de globalização, que veio a quebrar barreiras e possibilitar que os brasileiros se espalhassem pelos mais distantes países mundo afora.

O fato de ter jogadores nacionalizados em todo o mundo ajuda a divulgar o futebol brasileiro? Ou é apenas um tipo de mão de obra especializada?
A presença dos naturalizados ajuda sim a divulgar o futebol brasileiro. Mesmo que não estejamos em um momento muito positivo, em função da participação decepcionante da seleção no Mundial, o jogador brasileiro ainda é valorizado no mercado internacional do futebol. E não mais somente por aquela visão da “ginga no pé” tão alardeada antigamente. Hoje, podemos dizer que o jogador brasileiro também conseguiu evoluir. Não é à toa que tantos atuam em grandes clubes do futebol europeu. Agora, é nos centros menores que a presença dos brasileiros naturalizados faz ainda mais efeito. Eles servem como referência, como uma espécie de “mentores” àqueles que ainda buscam dar os primeiros passos no mundo da bola, que ainda lutam para desenvolver o futebol e transformá-lo em um esporte de primeiro nível.

O atacante Diego Costa
O atacante Diego Costa

Como você avalia as reações de torcedores, que vaiaram Diego Costa na Copa e não aceitaram a presença de Paulo Rink na seleção alemã?
São dois casos distintos. Em relação a Paulo Rink, como o próprio sobrenome já entrega, existia uma relação direta com o país, afinal, seu bisavô Germano Rink era alemão e veio para o Brasil no início do século 20. O problema é que Paulo Rink só foi atuar no futebol alemão quando já tinha 24 anos. Apesar de ter feito relativo sucesso no Brasil, principalmente no Atlético-PR, era praticamente um desconhecido em terras germânicas. Nesse momento houve sim uma rejeição mais nacionalista. Nem mesmo suas origens ou o fato de falar alemão – e ter até aprendido a cantar o hino – aliviaram as coisas para ele. Para piorar, a seleção alemã vivia um de seus piores momentos e deu vexame na Eurocopa 2000, quando foi eliminada ainda na primeira fase. Rink foi escolhido como um dos bodes expiatórios do fracasso. No caso de Diego Costa também ocorreu uma questão de cunho nacionalista, mas, desta vez, motivada não pelo seu novo país, mas sim por sua terra natal. O então treinador da seleção brasileira, Luiz Felipe Scolari, depois de praticamente não ter dados chances ao jogador, apesar da excelente fase que o atacante atravessava no futebol espanhol, quase criou um incidente diplomático entre Brasil e Espanha ao convocar Diego Costa, quando o atleta já se mostrava inclinado a aceitar o chamado de Vicente Del Bosque [técnico da Espanha]. Quando o jogador recusou o chamado de Felipão, foi taxado de “traidor da pátria”. Durante o Mundial, na maioria das vezes em que era vaiado, os autores dos apupos eram brasileiros.

E o racismo, como os jogadores enfrentam lá fora, quando vão jogar por outros países?
A presença de jogadores negros – como boa parte dos atletas brasileiros – defendendo países de maioria branca não passaria incólume. O lateral Alex, por exemplo, foi o primeiro negro a defender a seleção do Japão. O mesmo aconteceu com o zagueiro Fabiano Santacroce na seleção da Itália. É claro que passaram por momentos complicados, mas, de certa forma, também serviram para abrir o caminho, na tentativa de acabar, ou ao menos diminuir essa praga que insiste em se espalhar não só pelos gramados, mas como em toda a sociedade contemporânea.

Jogadores brasileiros em países do mundo árabe ou de lugares com costumes rígidos costumam se dar bem? Como eles reagem à mudança cultural?
É difícil generalizar a atuação dos brasileiros nos países do mundo árabe. Existem casos de extremo sucesso, com adaptação perfeita, e casos em que as diferenças culturais foram tão gritantes que não houve como prosseguir com a “união”. O meia Edinho, por exemplo, se transformou em ídolo no futebol iraniano. Nem mesmo a rigidez cultural, o extremismo religioso, as denúncias de práticas terroristas ou o cerceamento da liberdade de pensamento e de expressão da população local fizeram com que desistisse. Já o atacante Emerson Sheik, por exemplo, não conseguiu se adaptar no Catar. Depois de ter poucas chances na seleção local, acabou indo para a geladeira. Os motivos seriam os problemas disciplinares. O jogador nunca escondeu gostar da vida boêmia, algo que não se encaixava nos preceitos locais. Se formos analisar de um modo geral, os brasileiros têm certa dificuldade em se adaptar. A grande maioria apenas suporta a nova cultura, mas conta as horas para ter a primeira oportunidade para voltar o Brasil, mesmo que seja apenas em momentos de férias ou folgas de fim de ano.

O livro lista vários jogadores que nunca jogaram em clubes brasileiros e outros que pouco atuaram. É possível dizer que, mais do que vontade de jogar com a camisa de uma seleção, a questão financeira foi fundamental para essa mudança de nacionalidade?
Infelizmente, na grande maioria dos casos, é sim a questão financeira a maior motivadora da mudança de nacionalidade. É o que trato no livro como a cidadania estratégica. Jogadores que não possuem qualquer tipo de identificação com o novo país que vão defender só o fazem depois de receberem uma série de regalias. O tema é sempre delicado e as federações locais dificilmente assumem, mas há casos em que a naturalização é muito bem paga – literalmente. É quase como se algumas seleções estivessem contratando craques para defenderem suas seleções, prática alvo de muitas críticas dos contrários ao processo de naturalização.

O futuro do futebol vai passar por essa mudança de nacionalidade? É possível frear essa tendência?
Acredito que não há como frear esta tendência. A própria Fifa já demonstrou preocupação com o tema, mas, na realidade, pouco fez para mudar a situação. De prático, a única alteração considerável foi o aumento da exigência em relação ao período em que o jogador precisa viver no país para poder solicitar a naturalização: antes, eram necessários apenas dois anos, agora são cinco. E, convém lembrar que, se no futebol mundial, os brasileiros ainda são grande parte do contingente de natualizados, o processo já tomou proporções gigantescas. Hoje, são centenas de jogadores africanos defendendo seleções européias. Também há outros sul-americanos espalhados mundo afora. Parece mesmo ser um processo sem volta.

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