Apoio à leitura

Escola do Recife cresce com iniciativa de apoio à leitura

Janaína Luna é professora de português da Escola Estadual Professor Fernando Mota, em Recife (PE). Fez contato com o blog timidamente, por email, querendo saber se havia interesse em falar sobre um projeto que ela desenvolve na instituição, impulsionada pela tag/seção Apoio à Leitura.

O Amplificando a Leitura foi criado há dois anos e pretende estimular os alunos a lerem mais e compartilharem a experiência. Sem muito apoio, a professora montou uma pequena biblioteca e começou o projeto. A leitura ocorre em sala de aula, mas a esperança é que a atividade continue fora da escola e prospere.

Os resultados já apareceram. O Ideb da escola cresce desde 2007. Nos anos em que Janaína dá aula – 8º e 9º anos do ensino fundamental -, o índice passou de 2,4 em 2007 e atingiu 3,7 em 2013, acima da média projetada (3,4). Na média nacional, Pernambuco passou de 16º para 4º lugar no ranking estadual.

A escola fica na zona sul de Recife e em um bairro considerado bom. Porém o público vem de bairros como Cajueiro Seco e Prazeres, porque a escola é considerada boa. Não é de referência, mas tem uma boa estrutura – biblioteca, auditório, dois andares de salas de aula, laboratório de ciências e informática, rádio e duas quadras.

Janaína conversou com o blog para falar da sua iniciativa. Nos tópicos a seguir, ela conta como o projeto funciona, as dificuldades e resultados.

A professora Janaína Luna (de blusa verde) e seus alunos
A professora Janaína Luna (de blusa verde) e seus alunos

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Como funciona o projeto
“O projeto se chama Amplificando a Leitura, existe há dois anos e funciona da seguinte forma. Eu empresto livros meus e doados por colegas, amigos, leitores e alunos aos meus alunos e ex-alunos da escola pública. Durante a semana, os meus alunos têm uma aula de leitura, que dura 55 minutos. Por 40 minutos eles leem, e nos outros 15 eu converso informalmente com eles, peço que compartilhem as leituras. Não é uma leitura que visa uma avaliação, é uma leitura por prazer. A plantinha está sendo plantada para que no futuro os meus alunos tenham a capacidade de ler tudo que lhes forem sugerido.”

Objetivos
“Poderia dizer que as principais funções do projeto são promover a leitura de fruição, estimular a leitura, conversar com alunos e professores por meio de palestras dadas por mim.”

Biblioteca
“Eu tenho comigo, num armário apertadinho, mais de 100 exemplares, entres eles, “Harry Potter”, “A Menina que Roubava Livros, a trilogia “Divergente”, “Insurgente” e “Convergente”, além de clássicos da literatura. A ideia é ser a mediadora de leitura, que talvez fosse difícil para alunos de escola pública porque sua maioria não possui dinheiro para comprar ou até mesmo alguém que empreste. O empréstimo não tem data de entrega. Os alunos entregam quando terminam de ler. Uns mais rápidos, outros não terminam ou nem começam, mas o número de sucesso é maior do que os que desistem.”

Envolvimento da escola e comunidade
“Esse projeto é meu. A escola só participa quando faço encontros no auditório ou funcionários doam livros, mas não recebo muito apoio. Os alunos precisam trazer um livro de casa ou pegar emprestado comigo ou com os colegas. Não há participação da comunidade, acredito que só informalmente, quando os meninos aparecem com os livros em casa.”

Alunos em sala de aula durante a leitur
Alunos em sala de aula durante a leitura

Dinâmica de aula
“Dou aula para alunos do 8º e 9º anos. Caso eles não tragam o livro, eles perdem décimos porque a participação e a leitura geram uma pontuação que é somada a outras atividades. Os alunos podem escutar música enquanto leem, mas não podem conversar. A atividade não é extracurricular, mas promovo eventos como ida ao sebo, concursos de marcadores e reuniões para conversar sobre livros.”

Resultados
“Já tenho resultados incríveis. A escola sempre é analisada por meio de provas externas, principalmente as disciplinas de português e matemática. A Prova Brasil é uma delas, e os meninos tiveram com média alta. Outro ponto positivo é que os alunos tentam amplificar a leitura falando com colegas sobre os livros que leram. Com essa leitura, os alunos criam pontes para outros livros, como por exemplo os clássicos. Eles adquirem mais vocabulário e senso crítico.”

Ideb
“Pernambuco ficou em 4º lugar no ideb. Alguns professores dizem que a média é baixa, que é um absurdo, mas acho que, se uma meta foi criada e conseguimos alcançá-la , é uma vitória.”

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Aluna da EE Prof. Fernando Mota

Facebook
“Eu criei a página e sou a administradora porque meus alunos não conseguiam ficar até mais tarde para as reuniões do clube de leitura, para conversar sobre livros e tal. Era perigoso para eles. Então, criei a página e a deixei pública para o grupo divulgar opiniões, promoções e eventos e falar também do projeto para quem quisesse saber.”

Divulgação
“Pelas publicações, meus amigos se sensibilizam e mandam mensagens dizendo que têm livros para doar. Se algum livro não funcionar para o projeto, por ser velho ou didático, mesmo assim eu recebo e entro em contato com entidades ou bibliotecas de bairro que se interessem pelo material. Por exemplo, uma oficina minha foi aprovada num encontro de leitura na UFPE e lá eu encontrarei algumas bibliotecas e farei o contato para saber se estão interessados nas doações. Eu não nego doação porque sei que posso precisar também. E vou fazer algumas reciclagens nos livros.”

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Estudante da professora Janaína Luna

Expansão
“Já dei palestras sobre o projeto para incentivar futuros professores e mostrar que os alunos de escolas públicas também leem. Recentemente, fui a Vitória de Santo Antão [a 55 km de Recife, 134 mil habitantes] falar sobre o projeto para uma turma de pós-graduação em leitura. Participei de uma reunião em um colégio com professores de Português. Fui a Salgueiro [a 513 km de Recife, 60 mil habitantes] falar com graduandos do curso de pedagogia e tenho propostas para ir a escolas públicas e participar de encontros promovidos pelos alunos de letras do Estado.”

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2 thoughts on “Escola do Recife cresce com iniciativa de apoio à leitura”

  1. Conheço o projeto e posso afirmar que sim, é sensacional!
    O conheci como aluno, e para nós, a fuga daquela metodologia “chata” de ir à escola e ter um cronograma obrigatório de aulas com assuntos massantes substituído por um ato prazeroso, foi incrível. O método abordado pela professora Jana – para os íntimos -, estimulou enormemente nosso nível de interesse didático. A leitura abre a mente, faz com que sejamos capazes de discernir o que realmente é válido e ensina muitos valores; além de estarmos pensando fora da caixinha. Ela é uma professora sensacional, exemplar e guerreira! Com seu plano metodológico, poderiam lançar uma proposta de subir uma matéria específica para leitura – O que não é o caso da Literatura -. Os professores se apegam muito ao conteúdo pragmático e isso torna, às vezes, toda a situação de estudar muito mecânica; o que vai de encontro a idade.

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    1. Concordo em tudo o que você escreveu, Pedro. E posso dizer que você e os alunos da professora Janaína têm muita sorte. É raro encontrar um professor com um empenho como o dela, sem apoio e e contando quase que exclusivamente com o seu trabalho.

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