Crônica

Notas de um leitor

1

Ficou famosa a forma como Renato Russo arrumava sua discoteca. Ele dizia que ordenava os álbuns por preferência, o que exigia uma reavaliação regular.

No caso de biblioteca, um dos mais inusitados métodos de arquivamento que encontrei foi o do cantor Art Garfunkel, que guarda seus livros por ordem de leitura.

Cada cabeça, um método. Nunca cheguei a ter um muito claro, definitivo. Cheguei a separar por nacionalidade do autor, grupos que ficavam distribuídos de forma aleatória. Fiz a arrumação mais tradicional, aquela que não segue regra alguma.

Hoje, cheguei num modelo mais racional: separados por gêneros (ficção, não ficção, filosofia, história, HQ etc) e por ordem alfabética dos autores. Fica mais fácil guardar e encontrar o que preciso. Pelo menos por enquanto.

2

Hora de se desfazer. Gera dúvida, medo, desconfiança. Já me desfiz de dezenas de livros, talvez centenas – mais provavelmente, e se tivessem sido mantidos minha biblioteca iria dobrar de tamanho facilmente. Foram vendidos a sebos, doados, emprestados.

Alguns, tive que recomprar – caso de Rick Moody e seus “Tempestade de Gelo” – que rendeu um belo filme dirigido por Ang Lee -, “Estado Jardim” e “América Púrpura” (os três da Rocco). Encontrar a causa da partida dos livros é mergulhar no oceano.

Agora, há uma caixa de livros lá na biblioteca com títulos prontos para ir. Prontos é maneira de dizer. Estão lá há mais de um ano. Ainda não tive coragem. Já até prometi para instituições que apoiam a leitura, como a Mercearioteca. Alguns já saíram da caixa e foram para as prateleiras – para voltar novamente ao destino.

Sei que a caixa não vai ficar eternamente naquele limbo.

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Cena de “Tempestade de Gelo”

3

Na minha primeira temporada em Uberlândia, de três meses, fui atrás de livrarias na cidade. Quando me contaram que só havia duas – a ex-Siciliano, hoje Saraiva, e uma no centro da cidade -, senti que estava no interior do Brasil. Uma cidade com 700 mil habitantes e duas livrarias apenas diz muita coisa sobre nós.

Bem, a Siciliano era mergulhar no mesmo. Então fui conhecer a do centro, Pró-Século. Venderam a loja como um lugar confortável, com mesas e um café. Pensei que poderia ser um bom lugar de repouso, pois ficava perto do hotel onde estava hospedado.

Na época, às vésperas do lançamento de “Liberdade”, de Jonathan Franzen, queria comprar “As Correções”, para conhecer o autor e entender parte do burburinho que causava.

Cheguei à livraria e a decepção foi imediata. Todos os livros estavam embrulhados em papel filme. Ou seja, para folhear, era necessário arrancar o plástico. O livro não respirava, intimidava o leitor. Me desanimei na hora.

Então, diante de um sistema de distribuição confuso e sem ser capaz de encontrar o livro, resolvi perguntar para uma vendedora. Após a pesquisa de praxe no computador, ela vem a mim e dá a resposta:

“Esse livro nós não temos, mas temos outros, se o senhor quiser.”

Agradeci e fui embora.

4

Desde então, sempre que encontro um livro plastificado, arranco o invólucro na hora – dá uma sensação de alívio.

É como se estivesse resgatando um ser sequestrado ou fazendo com que alguém voltasse a respirar.

Acho um crime livrarias que plastificam seus livros.

5

ler no metro

Ler no metrô é uma atividade que pode ser mais apropriada a malabaristas. Mas também pode ser um exercício de concentração e dedicação, dependendo da cidade onde você mora.

Gosto de ler em metrô, como gosto também, confesso, de ver quais livros as pessoas estão lendo.

Em uma época, a série de Harry Potter era o livro que mais via nas mãos dos passageiros. Já os livros de Laurentino Gomes sobre a história do Brasil – “1808”, “1822” e “1889” – nunca tiveram entressafra.

Recentemente, sim, as mulheres liam os “50 Tons de Cinza” (E.L. James). Augusto Cury, Stieg Larsson e sua série Millenium, Martha Medeiros são outros bem lidos nos vagões.

Eu, numa atitude arrogante típica de quem acabara de chegar aos 20 anos, cometi a insanidade de levar “Retrato do Artista Quando Jovem”, de James Joyce, uma edição antiga da Siciliano. Claro que a leitura se tornou apenas um embaralhado de letras e teve que ser retomada uma década depois.

6

Olhava a seção de livros policiais. Estava às vésperas de uma viagem e queria um thriller. Até que uma mulher que estava ao meu lado, olhando outra seção, percebeu minha dúvida e puxou um livro da prateleira de policial.

17585459“Você vai gostar deste”, disse. Era “O Cirurgião” (Record), da Tess Gerritsen, história de uma médica que, após sobreviver a um ataque de um serial killer, mudou-se de cidade e, anos depois, depara-se com crimes que imitam aquele caso.

A mulher me recomendou com veemência. Fiz algumas perguntas sobre a autora, pois ela parecia conhecê-la bem. Receoso, resolvi embarcar – afinal, se dicas de livros de amigos já são difíceis de aceitar, de uma desconhecida…

Fui surpreendido. Li com prazer um livro que não se encaixa bem no romance policial, mas se revela um thriller de fôlego, bem escrito e conduzido.

Escolher livros é um exercício de idiossincrasia. Nem sempre há abertura para aceitar sugestões – afinal, a epígrafe do blog é: “O único conselho que se pode dar a alguém com respeito à leitura é não aceitar conselho algum”. Mas é reconfortante quando uma indicação despretensiosa resulta num sorriso ao final da última página.

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3 thoughts on “Notas de um leitor”

  1. Nossas estantes estão iguais na estratégia. Tempestade de Gelo é um grande retrato dos anos 70, pós-revolução sexual, e que foi captado com maestria tanto pelo escritor como por Ang Lee. E essa de não terminar o capítulo é clássica, hehe. Dava um ódio quando a estação chegava.

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  2. Ótimas reflexões literárias. Arrumo meus livros mais ou menos como você. A estante maior fica com os de ficção (em ordem alfabética), seguidos de poesia e ensaios literários, biografias de escritores, entrevistas com eles, etc. Na outra, menos organizada, organizei por gênero, sem ordem alfabética: cinema, música, futebol ensaios políticos, história e mais alguns que se juntam mesmo sem muita afinidade.
    Adorava ler no ônibus quando morava em São Paulo. O mundo ao redor ficava em suspenso. Quase perdi o ponto algumas vezes, e ficava agoniado quando via que o ponto estava chegando e não conseguia terminar o capítulo.
    Tempestade de Gelo é um belo filme, como muitos de Ang Lee. Aquela cena dos casais sendo trocados na festa é antológica por seu caráter patético. E a morte do garoto vivido por Elijah Wood é de cortar o coração.
    Gosto de recomendações de livros, desde que sinta firmeza em quem sugere (o seu caso, por exemplo). Gosto também quando pego um livro que está ali há anos e um dia ele revela um mundo pra mim.

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