Brasil, Entrevista, Ficção

João Anzanello Carrascoza: “O silêncio é a linguagem perfeita”

João Anzanello Carrascoza é considerado um dos grandes contistas brasileiros, mas nos últimos anos resolveu experimentar o romance. Primeiro, lançou “Aos 7 e aos 40” (Cosac Naify), em meados do ano passado, em que conta a história do protagonista alternando fatos de sua vida nas duas idades do título.

cadernosAgora, reforça seu interesse no formato com “Caderno de um Ausente” (Cosac Naify). Aclamado por sua prosa poética – embora o blog não goste do termo -, Carrascoza chega talvez ao seu ápice, com um texto que transpira sensibilidade e faz do texto uma experiência envolvente.

A literatura americana também continua a dar forma ao seu experimentalismo. Se no primeiro romance o formato teve como inspiração William Faulkner e seu “Palmeiras Selvagens”, em “Caderno” o design buscou em John Dos Passos elementos que reforçam o andamento do livro, pequenos e grande espaços vazios, como a dar um respiro ao narrador e ao leitor.

Se tivesse que criar um paralelo, o mais próximo seria com Raduan Nassar e seu “Lavoura Arcaica”, pelo tom impregnado no romance – Nassar que está na epígrafe de “Cadernos”, assim como Santo Agostinho, fundamental para a discussão sobre tempo – “De que modo ensinais as coisa futuras, ó Senhor para quem não há futuro?”.

Neste “Caderno”, lemos o relato de um pai, com seus 50 e poucos anos, que escreve para a filha recém-nascida um texto para ela ler, supostamente, quando estiver na idade adulta.

Espécie de testamento imaterial, o narrador reflete sobre o fim. Ele relembra o passado, suas histórias de família e traça um autorretrato. Vislumbra a morte enquanto observa o começo da filha, Bia.

Os esboços são uma chance do pai traduzir a vida para a filha, o que abre caminho para essa pesquisa genealógica, com fatos que ilustram o que Bia enfrentará no futuro. A morte ronda todo caderno, como uma lembrança de que lemos sobre dois pontos opostos da vida – se há o nascimento, há de ter a morte.

“Não é um amor grande o suficiente para ter te deixado só no sonho”, escreve o pai sobre a concepção de Bia. O dilema do nascimento, como fim de um desejo, o lamento de uma vida que nasce para sabidamente morrer, o pai escreve para pedir perdão. Em outro momento, o pai é mais direto: “Fiquemos em silêncio, embalados pela paz deste momento, alheios à (invisível , mas não despercebida) brutalidade do fim”.

O silêncio é elemento essencial para o narrador. Seja nas marcas brancas que interrompem a leitura e provocam o respiro mais longo, seja nas palavras que o pai arranca de si para ambientar a filha:

“Só o silêncio é que vale para sempre”

“Se eu pudesse, eu te ensinava todo o abecedário do silêncio antes da fala”

“É no silêncio, Bia, que eu te inicio em mim – pisar no meu silêncio é o teu primeiro passo para me conhecer”

“É no silêncio, filha, que eu te inicio em quem tu terás – logo – de assistir ao fim”

O pai então prepara-se para deixar um legado, algo não palpável para Bia, mas que ele espera que seja útil para a caminhada da filha. Ainda que seja em direção ao fim.

*****

Entre um romance e outro, Carrascoza publicou um conto pelo selo Formas Breves, “O Primeiro Dia do Último Inverno”. Publicitário e professor universitário, o escritor é autor dos livros de contos “Amores Mínimos” (Record) e “Duas Tardes” (Boitempo), entre outros. Pela Cosac, lançou a coletânea “O Volume do Silêncio”.

O blog entrevistou o autor, que faltou do “Caderno de um Ausente”, da sua prosa e inspirações. “O experimentalismo é essencial, desde que sirva à história e não a uma exibição vazia da diferença, da quebra imotivada do lugar-comum”, diz Carrascoza.

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O escritor João Anzanello Carrascoza
O escritor João Anzanello Carrascoza

Santo Agostinho trata do tempo como algo impossível de ser sentido – o presente nada mais seria que o passado do futuro, um tempo que praticamente nunca existiu. E o tempo é uma medida essencial para o narrador de “Caderno de um Ausente”. Como você ajustou a questão do tempo, de alguém que narra a vida para alguém que acabou de nascer?
O tempo é, diz Santo Agostinho, e, sendo assim, só há o presente, mas o presente não se oferece para todos no mesmo trecho: se o presente do narrador o aproxima da morte, o de sua filha está colado ainda à vida. Daí porque o romance foge da preterização, da história que se volta para o passado, e evoca, com a narrativa no presente do indicativo, um sentido de presença, já contaminado, inevitavelmente, pela ausência.

No posfácio, José Luiz Passos escreveu que você “abraçou a fragilidade do masculino”, deixando de lado a epopeia dos meninos. Como foi essa passagem em “Caderno de um Ausente”? Em quanto o pai abraça essa fragilidade?
De certa forma, em alguns de meus contos, essa fragilidade do masculino já estava presente, como em “O Vaso Azul”, “Umbilical”, “Alfinete”, ou mesmo em passagens do meu primeiro romance, “Aos 7 e aos 40”. Contudo, no “Caderno de um Ausente”, a trama é mais longa, extrapola o tamanho das histórias breves a que eu estava acostumado a escrever, o que me obrigou a ir o mais fundo que eu podia na aceitação dessa vulnerabilidade – e na sua exploração ficcional.

Como nasce sua prosa poética? Como é sua relação com as palavras, para transformar a ideia bruta em um texto?
Como o personagem desse meu segundo romance diz para a filha, ao lhe dar as boas vindas a esse mundo, que é um mundo de dores mas também de amores, o silêncio é a linguagem perfeita e, sendo assim, a palavra é uma espécie de redução, um degrau abaixo do silêncio. Então, sempre me senti desafiado a procurar as palavras que, combinadas, aglutinadas ou justapostas pudessem chegar, o mais próximo, do que só pode ser expresso pelos não-ditos.

O projeto gráfico do livro tem uma proposta interessante, de espaços vazios, como se fossem aquelas marcações de corretivos, para apagar texto. Como você chegou a esse design?
No meu texto original, fui deixando espaços entre os blocos “escritos” pelo narrador – ideia que me veio lendo John dos Passos –, já que as anotações desse homem se dão irregularmente, os espaços sinalizam as hesitações, as pausas e também a “presença” da ausência entre ele e a filha.

“Caderno de um Ausente” é seu segundo romance. A prosa mais longa era algo que sempre esteve no seu horizonte? Por que demorou para entrar nesse formato?
Eu sou um ficcionista, alguém que cria mundos possíveis, no meu caso por meio da literatura – e, uma vez ficcionista, nunca me importei se o que eu escrevo tem curta ou longa extensão, porque toda e qualquer obra de minha autoria vai, inevitavelmente, desaguar no universo fabular que me caracteriza. Sempre me senti à vontade na escrita dos contos, mas, desta vez, ao iniciar o esboço do “Caderno de um Ausente”, percebi que a história pedia uma extensão maior e procurei materializá-la.

40“Aos 7 e aos 40” tem uma estrutura que lembra “Palmeiras Selvagens”, de William Faulkner. Ele foi de alguma forma influência para você?
Sou admirador de Faulkner e “Palmeiras Selvagens” foi, sim, uma das matrizes desse meu primeiro romance, cujas histórias confluem de forma mais explícita do que no livro de Faulkner. “Vidas Secas” foi outra de minhas referências: assim como na obra de Graciliano Ramos, elaborei os capítulos de forma que pudessem ter vida autônoma, lidos como quadros de sentimentos, mas também suturados por fios de uma mesma história.

Pretende voltar logo ao conto ou ainda vai experimentar o formato romance?
Já voltei ao conto. Ou, melhor dizendo, enquanto escrevia “Aos 7 e aos 40” e “Caderno de um Ausente”, parei algumas vezes para escrever contos, dando forma a tramas que me pediam a estreiteza dos riachos, que é a maneira como defino as histórias curtas – riachos ficcionais.

Seus dois romances fogem da narrativa digamos tradicional desse formato. A experimentação é algo que lhe interessa?
Sim, eu creio que cada história pode ser contada de mil maneiras, e cabe ao escritor perseguir aquela que lhe pareça ter mais aderência ao seu enredo, como se fosse o seu próprio coração. O experimentalismo é essencial, desde que sirva à história e não a uma exibição vazia da diferença, da quebra imotivada do lugar-comum.

FormasO que achou da experiência com o Formas Breves? O conto “O Primeiro Dia do Último Inverno” foi escrito para esse projeto ou já estava pronto?
Gostei muito e vejo com satisfação esse tipo de iniciativa, a busca por novos formatos para as narrativas ficcionais, sempre aprisionadas em livros impressos. Eu tinha alguns contos escritos e, depois do convite do editor, encaminhei um que me pareceu representar bem a minha ficção.

 

 

*****

“Este processo nunca para, é a silenciosa bomba-relógio de nossa existência, que tem alguns de meus traços, talvez os menos marcantes; por isso, eu te peço perdão, filha, por não ser o anfitrião ideal, por te recepcionar com estas palavras rascantes, mas não há como esconder a morte ante a estreia de uma vida.”

“O silêncio é a nossa língua mãe, mas nós desaprendemos a sua linguagem, por gerações e gerações nos ensinaram a falar quando estávamos no pleno entendimento desse idioma, e, então passamos a usar as palavras, para traduzir o que é ou foi melhor dito silenciosamente, e não há como transferir uma frase, uma sentença, um poema de uma língua para outra sem perder algo vital de sua substância, uma metáfora só é uma metáfora porque diz o que não se pode dizer de outra maneira, é a tentativa de driblar o incomunicável, e seria tão mais fácil se pudéssemos – de novo – nos movermos sobre a linha do silêncio.”

 

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