Comentário, Estados Unidos, Não ficção

O melhor livro de não ficção de 2014 – ou da última década

desagregaçãoAndré Barcisnki escreveu em seu blog que “Desagregação” é “um dos livros de não ficção mais impressionantes e reveladores” que leu em muito tempo. A jornalista Katherine Boo, autora do belíssimo “Em Busca de um Final Feliz” (Novo Conceito), disse que esse livro é um dos melhores trabalhos de não ficção que já leu.

George Packer, autor deste “Desagregação” (Companhia das Letras), é jornalista da equipe da revista “The New Yorker”. No livro, escreveu como os Estados Unidos se desintegraram nas últimas três décadas, deixando para trás um país que inspirava esperança até meados do século 20. De espelho de democracia para uma nação dominada por corporações e decisões interesseiras, os EUA também são retratados por meio de suas crises, principalmente o baque de 2008.

Em vez de fazer um ensaio ou uma reportagem tradicional, Packer optou por contar histórias de três personagens, perfis de nomes famosos e de duas localidades: Tampa e Vale do Silício. Há um empreendedor que investe em biocombustíveis, uma negra que tenta vencer numa cidade condenada e um lobista entusiasta de Joe Biden (antes de se tornar o vice-presidente dos EUA). O resultado é arrebatador.

Alternando os personagens, Packer conduz o leitor ao longo das vidas das pessoas com perspicácia. As histórias são interrompidas para serem retomadas mais adiante. Enquanto isso, o leitor vai montando o quadro, como um quebra-cabeça.

Cada capítulo abre com umfrases e manchetes de um ano, para ilustrar o espírito de época – começa em 1978 e segue até 2012. A vida cotidiana é investigada por meio das aspirações e medos desses personagens, na forma como conglomerados conduzem a vida das pessoas e desmobilizam cidades inteiras, como se fossem uma vila de Playmobil. Os períodos de George W. Bush e Barack Obama são os mais esmiuçadas, por estrelarem o período maior de decadência de valores e crises.

O quebra-cabeça de Packer ganha peças em Tampa, investigada para esclarecer a crise imobiliária que se transformou no crash de 2008 – esqueça tudo o que você leu antes sobre a crise; os cinco capítulos dedicados a Tampa são muito mais reveladores e claros do que tudo o que foi escrito em jornais e revistas. Já o Vale do Silício surge como caminho para uma geração que não vê limite para a criatividade – o perfil condutor é o do criador do PayPal.

Os Estados Unidos que saltam das páginas são mais do que a terra das oportunidades, cenário que emerge das histórias contadas, mas principalmente são o país que afunda em meio a crises éticas e corporativas. No meio de tudo isso, pessoas comuns que ganham a vida em empregos comuns e gente que tenta subir na vida com ideias mirabolantes.

Como apoio, Packer traça o perfil de Oprah Winfrey, Sam Walton (fundador do Walmart), do escritor Raymond Carver e do cantor Jay-Z. O trecho que separei do capítulo de Carver dá o tom do que Packer conseguiu fazer no livro – em poucas linhas, no perfil de um escritor que já morreu, toda uma carga emocional e descritiva se faz presente.

“Desagregação” é um retrato revelador dos Estados Unidos atuais. Some-se a isso um texto impecável, um trabalho de pesquisa e apuração raro de se encontrar e estamos diante do grande livro de não ficção do ano – talvez da década.

*****

“Ray, cujo ídolo era Tchékov, andava na direção oposta das tendências literárias e mantinha a fé numa tarefa mais silenciosa, seguindo a máxima de Ezra Pound de que “a exatidão fundamental da afirmação é a única moralidade da escrita”. Ao prestar a máxima atenção às vidas das pessoas marginais, perdidas, gente que mal aparecia e raramente era levada a sério na ficção americana contemporânea (se figuravam em algum lugar, era nas pinturas de Edward Hopper), Ray punha seus dedos no pulso de uma solidão mais profunda. Ele parecia saber, da forma não intencional de um escritor de ficção, que o futuro do país ser mais assustador na sua mediocridade, na ida de fim de noite ao supermercado, o bazar de garagem no fim da linha. Ele sentia que, sob a superfície da vida, não havia nada para sustentá-la”

 

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