Alemanha, Comentário, Ficção

Uma fábula sobre a queda do Muro de Berlim

Regularmente, ouço a pergunta: “Você já leu todos os seus livros?”.

Bem, regularmente, dou a mesma resposta: “Não”.

Ainda bem. Pois a própria biblioteca deve ser capaz de proporcionar encantos, surpresas e, claro, decepções, e essa relação tem muito a ver com os livros que ainda não foram lidos, com aqueles que ficam adormecidos nas prateleiras, ultrapassados por alguma leitura que chega de surpresa.

Nunca sabemos quando vamos resgatar um livro que compramos, sei lá, no ano passado, há cinco anos. Até que chega o dia e você puxa da prateleira aquele romance que nem se lembra mais onde comprou e nem o motivo. Sabe que está lá, no canto dos não lidos, e que agora é a vez dele.

42127404Foi o que aconteceu com “Adam e Evelyn” (Cosac Naify), do alemão Ingo Schulze. O romance esperou por mais de um ano até chegar à cabeceira. Nunca havia lido nada dele e não sei porque comprei o título.

Pesquei na prateleira porque não gosto de ir a consultas médicas sem um livro na mão – sabe-se lá quanto tempo havia a esperar. Ele tem um bom tamanho – quase um livro de bolso -, o que facilitava a caminhada até o consultório.

E nunca lamentei tanto ser chamado para a consulta com 30 minutos de atraso – por que, desta vez, não levou aquela uma hora tradicional entre o horário marcado e a chamada do médico?

“Adam e Evelyn” havia me conquistado em suas primeiras 30 páginas. E não queria interromper, tal o impulso que havia dado à leitura naquela sala de espera. Enfim. Recuperei o ritmo mais tarde num café, após o almoço. E suas 374 páginas foram devidamente devoradas naquela noite e na seguinte, até cruzar a última página.

O livro é delicioso, bem escrito e inventivo. Schulze abusa de longos diálogos, mas, tal como um especialista americano, não se perde em artificialismo e nem em banalidades. Os diálogos são ágeis, envolventes e fazem com que o leitor se sinta participante e ativo na conversa.

Lançado originalmente em 2008 – no Brasil, saiu em 2013 -, “Adam e Evelyn” finge brincar com o mito de Adão e Eva na Alemanha Oriental prestes a se ver sem fronteiras com seu par Ocidental.

Adam é um costureiro que faz roupas sob medida para mulheres. Mora com Evelyn, com quem planeja uma viagem para a Hungria. O livro começa em agosto de 1989, três meses antes da queda do Muro de Berlim. Nesse período, várias fronteiras foram sendo abertas naquela região da antiga Cortina de Ferro.

Evelyn chega em casa um dia e flagra Adam com outra mulher, uma de suas clientes. Resolve então dar um basta e vai para uma casa de amigos na Hungria.

Adam decide segui-la para tentar uma reconciliação. Leva como acompanhante a tartaruga de estimação do casal.

O livro se torna um relato de viagem, alimentado com passagens históricas daquele período – abertura de fronteiras, liberdade de ir e vir, novidades ocidentais, acampamentos de fugitivos.

Schulze não perde o ritmo dos diálogos, enquanto apresenta o Ocidente aos dois alemães – é chocante a surpresa de Evelyn diante de uma máquina de lavar louça. Áustria e Hungria passam pelos olhos do leitor enquanto os dois tentam resolver suas vidas, cercados de personagens que vivem na expectativa de alguma mudança, diante de uma tensão constante no ar naquele 1989.

O livro se mostra um dos grandes testamentos do Muro de Berlim, da divisão de uma nação e de como as pessoas aguardavam os acontecimentos.

De fábula religiosa a uma política, o romance ilustra como foi a véspera da passagem, a trágica mudança de paraísos, quando a liberdade aparece como algo real, palpável a quem antes restringia seus movimentos ao que era permitido pela Stasi.

Um romance notável, este “Adam e Evelyn”, com um final que pode até não chocar pelo fato, mas que impressiona pela força das palavras e pelo que sugestiona.

*****

“Agora você não quer mais falar comigo de jeito nenhum? Está se comportando como uma criança”, Evelyn sussurrou. Sentada na cama, ela dobrava as roupas lavadas. Adam esticara-se na cama ao lado. “Se não tivesse contado a você, nada disso estaria acontecendo.”
“É, o culpado sou eu…”, disse ele em voz baixa.
“Você transforma tudo num caso descomunal.” Ela apanhou as meias dele que secavam sobre o aquecedor e tornou a se sentar na cama com as meias no colo.
“Num caso?”
“Num caso de vida ou morte.”
“Você podia pelo menos se desculpar.”
“Do quê, Adam? Porque você vê fantasmas?”
“E por que não me contou antes de ligar? A gente podia ter feito isso juntos.”
“O que isso mudaria?”
“Tudo.”
“Tudo?”
“É.”
“Como assim, se você me permite perguntar?”
“Teria sido uma ação conjunta.”
“Uma ‘ação conjunta’? Pensei que tudo isso que a gente está fazendo fosse uma ação ‘conjunta’.”
“Era o que eu também esperava.”

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