Brasil, Entrevista, Ficção

Noemi Jaffe: “Me interesso pelas pequenas coisas que revelam o que as pessoas têm de mais particular e complexo”

“- amor, você acha que as coisas pequenas é que salvam o mundo?
– coisas pequenas tipo o quê?
– ah, sei lá, costurar um botão, lavar as mãos, alimentar um cachorro com fome, não sei.
– claro que não, bem, com isso vai salvar o mundo? deixa de criancice, vai.
– mas você não disse que se apaixonou pelo jeito como eu mandei a vizinha do 702 tomar no cu?”

São 60 diálogos curtos, como este, do cotidiano de um casal, em que assuntos como sexo, tecnologia, feminismo, religião, relações e brincadeiras a dois e banalidades surgem naturalmente, que compõem “Comum de Dois”, livro da escritora e crítica literária Noemi Jaffe.

Capa_comum de dois.inddLançado exclusivamente no formato digital pelo selo e-galáxia, a ideia do livro teve sua origem em posts de seu blog e de sua página no Facebook. A partir daí, criou diálogos inéditos para este lançamento.

Entre vocativos como amor, amore, bem, benhê, o casal trata de vida, de semântica a debates religiosos, tudo em minúsculas. Apesar de os desfechos à la Raymond Carver revelarem ironia, uma certa secura, os temas, por mais espinhosos que possam ser, carregam um tom de humor sutil. É possível que o leitor se reconheça em vários dos diálogos, por serem também cotidianamente comuns a uma vida a dois.

Esse é um dos grandes méritos do livro. Mais do que uma coleção, o que neste caso garante uma certa unidade, “Comum de Dois” provoca empatia com sua linguagem bem elaborada, ágil e coloquial. Não há devaneios – os pequenos que surgem têm uma cara tão real que fica difícil dizer que são artificiais.

Noemi é autora de “O que os Cegos Estão Sonhando” (Editora 34), “A Verdadeira História do Alfabeto” (Companhia das Letras), “Todas as Coisas Pequenas” (Hedra) e “Quando Nada Está Acontecendo” (Martins Fontes). Organizou a coletânea de contos “336 Horas” (Casa da Palavra), selecionados de alunos do seu curso de escrita criativa na Casa do Saber.

“Comum de Dois”, apesar de digital, terá um lançamento presencial no dia 18 de setembro, na loja da avenida Paulista da Livraria Cultura. Noemi vai autografar o livro no iPad – o leitor nem precisa levar o seu aparelho.

Em conversa com o blog, Noemi falou do processo criativo, das possibilidades do livro digital e do seu trabalho como editora do selo Jota, em que vai propor desafios a novos escritores.

*****

“- batata frita ou cozida?
– frita, faz daquela frita, que é crocante por fora e macia por dentro, vai!
– essa não é sempre que dá certo, mas vou tentar, o problema é que engorda mais.
– você sempre com essa preocupação, amor. tá tão bom do jeito que tá. para com essa frescura.
– isso é porque são os teus olhos. eu olho no espelho e só vejo gordura; na barriga, no pescoço, no rosto.
– você parece uma batata frita, amor. crocante por fora e por dentro, só maciez.
– ai, não acredito que você tá falando isso. pirou?
– mas você vai fazer a batata, né?”

A escritora Noemi Jaffe
A escritora Noemi Jaffe

Como o livro surgiu? Já nasceu na forma de pequenos diálogos e digital?

Eu tenho um blog, chamado quando nada está acontecendo, que eu mantenho há cerca de seis anos. Nele, eu escrevo pequenas crônicas poéticas sobre o cotidiano e, quase sempre, compartilho no Facebook. Comecei então, pelo Facebook, a criar pequenos diálogos
 quando surgiu o convite do Tiago [Ferro] e da Mika [Matsuzake], do e-galáxia, para eu lançar um livro pelo selo dele
s. Então eu pensei em criar mais diálogos como aqueles que eu vinha produzindo
 e foi assim que surgiu

 o livro.

Você escreve no prefácio de “336 Horas” que a “vida conspira inexplicavelmente a nosso favor”. Como este “Comum de Dois” entra nessa tese?
No caso do “336 Horas”, a vida conspirou a favor daquele grupo de pessoas. Não foi uma afirmação geral sobre a vida
, não penso isso sobre a vida, infelizmente.




É possível relacionar “Comum de Dois” com “Todas as Coisas Pequenas”, não no conteúdo, mas na forma? Ou você acha que ele está mais próximo de “Quando Nada Está Acontecendo”?
Ah, bem mais próximo “Quando Nada Está Acontecendo”, sem dúvida. O “Todas as Coisas Pequenas” foi escrito e pensado como poesia, tem outra proposta estética e de conteúdo, também
 embora todos eles se interessem pelas coisas pequenas da vida

.

O que lhe interessa nas pequenas coisas?
A forma como é possível descobrir o significativo no insignificante, como elas revelam o que as pessoas têm de mais particular e complexo, como elas representam, na minúcia, as mesmas complexidades das coisas aparentemente grandes




.

“- amor, você imagina a gente bem velhinho?
– imagino, sim. a gente vai buscar os netinhos na escola, levar pra tomar sorvete e depois a gente vai chegar em casa, ler muitos livros, tomar chá e depois dormir.
– isso não te assusta?
– não. é o caminho inevitável da vida. é bom que seja assim.
– mas a gente vai estar juntos, não vai?
– é claro que vai. se não, não tem graça.
– e ainda vamos ter esse tipo de conversa?
– vamos sim. a gente vai perguntar um pro outro: amor, lembra quando a gente era jovem e imaginava que a gente seria velhinho? agora a gente já é.
– que bom, amor. que bom isso.”

Em “Comum de Dois”, podemos entender que os dois protagonistas formam um casal de homem e mulher, mas isso não é explicitado. A ideia era deixar em aberto essa interpretação?
Sim, exatamente
. Acho que em apenas dois diálogos é possível detectar o sexo dos personagens. Um casal comum
 pode ser formado por homem e mulher, dois homens ou duas mulheres

.

Os diálogos devem ter exigido um trabalho de concisão extremo. Como foi chegar ao texto final?
Ah, eu normalmente escrevo e depois reescrevo inúmeras vezes, até chegar a uma solução que me satisfaça, vou cortando sem parar. Nesse caso, foi preciso cortar muito mesmo.

No livro digital, a gente não tem a percepção da extensão da página. Isso mudou sua forma de fechar os diálogos?
Sim, não estou tão habituada, embora escreva no blog há muito tempo. Não quis passar de uma página em nenhum caso

O escritor Raymond Carver
O escritor Raymond Carver

Quem são suas influências na arte de escrever diálogos?

Não acho que tenha sido influenciada por eles, porque eles são excepcionais, mas adoro Hemingway, Carver, Philip Roth, os americanos em geral, que são os melhores criadores de diálogos


.

Eu li os “68 Contos de Raymond Carver”, antes de chegar a “Comum de Dois”, por coincidência. Se eu estiver errado, me corrija, mas pude perceber que seu trabalho se aproxima do de Carver no sentido de enxergar o cotidiano como algo banal, no sentido de que a vida também o é
.
Quem dera meu trabalho se aproximasse do dele, mas a premissa é essa mesmo
. Ele [Carver] é o extremo máximo da economia e da capacidade de dizer muito dizendo pouco, 
de fazer com que haja histórias no que não é dito, mais do que naquilo que é.

F
oi essa a sensação que tive ao ler seu livro. Seus diálogos são sutis e carregam uma sensação de proximidade e realidade
.
Que bom, fico feliz com isso. Era essa a intenção


.

“- benhê, você acha que ele ressuscitou mesmo?
– claro que não, amor, é uma simbologia. quer dizer que estamos sempre renascendo, a cada dia, entendeu?
– amor?
– diz.
– ressuscitar é com s e c ou só com s?”

Nos últimos anos, você passou por vários gêneros – relato biográfico, romance, ensaio. Como é a sua transição de um para outro?
Realmente, não me preocupo com isso. Acho, na verdade, uma caretice. Vou escrevendo e descubro o gênero depois. Nem sei quais são os recursos certos para cada gênero, porque não acho que os haja
. Gosto de experimentar tudo e não tenho grandes fôlegos


.

Você acha uma caretice a classificação por gêneros?

Sim, acho. Na verdade, a classificação é pela extensão e não pelas características do texto. Acho que precisariam ser reinventadas as classificações dos prêmios



.

Pode falar mais um pouco sobre isso?

É isso que eu estou te dizendo
. Qual é a diferença entre algumas crônicas e contos, por exemplo? Como você determina?
 E um conto de 70 páginas? Como ele se diferencia de uma novela?
 É o nome que o autor dá para ele

imagemLi Etgar Keret e acho que ele entraria nesse zona cinzenta, assim como Alice Munro.
Exatamente
. Meu livro “O que os Cegos Estão Sonhando?” é chamado de memórias, 
mas eu diria que é um romance. Acho que essa classificação tem mais a ver com o mercado do que com os escritores.

Você tem um extenso trabalho como crítica e professora de escrita criativa. Como é estar do outro lado, sendo julgada?
É difícil, mas, por outro lado, já aprendi a lidar melhor com críticas de tanto fazê-las. Tento não ser injusta e espero que não sejam comigo, ao menos na forma de se dirigir ao que eu escrevo


.

“- amor, você é tão doce, tão adorável!
– que lindo, amor. você é que é.
– não, você.
– ah, vai, não vamos começar com isso.
– tá bom. é você e pronto.
– tá bom. sou eu.”

Como será o trabalho no selo Jota?

A proposta é chamar autores que tenham poucas publicações ou mesmo nenhuma, mas que eu considero bons escritores, 
e, a partir daí, propor desafios a eles, nos moldes do Oulipo¹, 
e fazer livros curtos
, numa regularidade mensal. Jé temos três autores para os próximos meses.

Quem são?
Flavio Cafiero, indicado ao Prêmio São Paulo de Literatura², Samir Mesquita, que já escreveu dois livros³, e Ana Estaregui, 
que ganhou o ProAC [Programa de Ação Cultural, do governo de São Paulo] no ano passado⁴ e vai lançar seu primeiro livro agora em outubro


.

Como você chega aos autores inéditos?
São ou foram todos meus alunos, 
o que não significa que só haverá alunos meus, 
mas as aulas são uma ótima fonte de descobertas


.

Quem não foi seu aluno pode tentar a publicação como?
Ah, isso vai acontecendo
. Já tenho outras pessoas em mente
, mas vou conhecendo as pessoas aos poucos


.

Como você avalia as possibilidades do livro digital? Seu livro, como disse, nasceu no blog e no Facebook. Você vai editar um selo exclusivamente digital. O e-galáxia ainda mantém o Formas Breves. Há ainda o Breve Companhia e o Foglio (selos da Companhia das Letras e da Objetiva, respectivamente). 

Ah, acho que as possibilidades são muito grandes. Ainda nem começaram a ser exploradas. É preciso descobrir o caminho da linguagem digital, que nós ainda não conhecemos bem. A partir daí, dessas experimentações que vêm sendo feitas, o potencial é enorme e não acho que [o livro digital] vá acabar com os livros impressos, que, por sua vez, também precisarão encontrar novos caminhos, além de resistirem como o velho de que não podemos prescindir.

“- tô triste, amor.
– por quê?
– não sei, sabe quando a gente fica triste sem motivo nenhum?
– deve ser cansaço só. você tá trabalhando demais. logo passa.
– é, deve ser, mas não adianta falar isso. a tristeza tá aí e é uma coisa, sei lá, que dói no fundo da alma.
– fundo da alma? não exagera vai. não pode ser uma tristeza tão funda assim, a troco de nada.
– mas é. chega que dói tudo, a barriga, o peito, as pernas. dá vontade até de morrer.
– ô, meu deus, mas você tá indo longe demais. faz silêncio que passa.
– me abraça forte, bem? bem forte?
– abraço, ô. claro que abraço.
____________________________
– melhorou?
– não. abraço dá uma tristeza, né?”

*****

Notas
1. Oficina de Literatura Potencial, grupo surgido na França e que se propunha a lançar desafios a artistas. Os principais nomes foram Italo Calvino, Georges Perec e Raymond Queneau
2. Por "O Frio Aqui Fora" (Cosac Naify)
3. "Dois Palitos" e "18:30" (edições do autor)
4. Do projeto Chá de Jasmim
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