Brasil, Entrevista, Não ficção

“O Brasil é mais conservador do que quer parecer ser”, diz jornalista que escreveu sobre orgias

Em 1980, Gay Talese lançou “A Mulher do Próximo”, uma longa reportagem que tomou nove anos de preparação para retratar os costumes sexuais dos americanos nas décadas de 60 e 70. Frequentou festas particulares, swings, orgias, todo tipo de “inovação” sexual que a época pregava.

Adepto do gênero “repórter bom é o que suja os sapatos”, Talese chegou a ser personagem de sua reportagem.

cover_f3c92041-26f5-4f7f-99c1-e785c1dfc382Agora, 34 anos depois do lançamento desse clássico do novo jornalismo, Marcos Nogueira envereda pelo tema em “Sociedade Secreta do Sexo” (Leya), livro-reportagem em que investiga como funcionam as entranhas desse universo.

Nogueira trabalhou na “Folha”, “Superinteressante” e “Vip”, revista onde escreveu reportagens sobre orgias e swings, a gênese deste livro.

Em “Sociedade Secreta do Sexo”, o jornalista vai às casas de swings que promovem encontros de casais, cruzeiros, orgias em São Paulo e na Europa e praias de nudismo em resorts onde o sexo é o maior atrativo.

Ele evita descrever os atos, mas não deixa o leitor sem espaço para imaginar. Em alguns momentos, a sensação é de estar atrás de uma máscara no set de “De Olhos Bem Fechados”, último filme de Stanley Kubrick.

Sigilo, machismo, confiança, voyeurismo, ciúme são itens que fazem parte do pacote de qualquer um que queira entrar nesse universo. Nogueira consegue se infiltrar nesse círculo restrito e conta como foi participar dessas festas – em algumas delas, com sua mulher.

Tema difícil de ser tratado e compreendido, Nogueira também se debate com esse preconceito embutido. “Acho que consegui entender um pouco como eles pensam e porque são dessa forma. Perdi meu preconceito”, diz o jornalista em entrevista ao blog.

Abaixo, a entrevista.

*****

Provavelmente, você deve ter ouvido essa pergunta em todas as entrevistas que deu sobre o livro, mas não posso deixar de fazê-la. Como é participar, ainda que como voyeur, de orgias e swings? O que mais o incomodava e o atraia?
No começo, para quem é totalmente virgem nesse campo (eu era), rola um misto de excitação e estranhamento. Se você não entra no meio por afinidade ou atração, o olho clínico nunca dorme e você presta atenção em detalhes que podem causar vontade de rir ou mesmo uma certa repulsa. Depois, como sempre, você se dessensibiliza. Passa a achar comum aquela situação que era extraordinária no início.

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Marcos Nogueira e Mariana Weber, sua mulher, numa festa em Milão | Foto: Divulgação

Você escreve que esse universo é machista, mesmo que a mulher tenha a decisão de escolher com quem transar. Isso fica claro também quando todos estão vestidos e fora do universo da sociedade?
Não sei dizer bem porque só conheci meus personagens nesse ambiente. Não fui a seus almoços de família aos domingos. O que dá para perceber é que, pelo menos nos círculos que eu frequentei, o meio swinger se compõe de gente que preza a estrutura familiar de uma forma um tanto conservadora, tanto que fazem de tudo para esconder sua vida dupla.

Quando você presenciava as orgias, era mais difícil ficar no local ou sair?
Olha, variava muito de festa. Em algumas, eu esticava até a madrugada, morrendo de sono, só porque precisava presenciar tudo; em outras, a noite passava rapidinho.

Quais as dificuldades que você teve para escrever sobre sexo?
Para escrever, não tive nenhuma. Foi um pouco constrangedor contar para a família e coisa e tal, mas nada de mais. Eu achei que fosse ter problema para conseguir personagens, mas foi fácil quando eu lhes assegurei o anonimato – uma das características dessas pessoas é o exibicionismo. Em todos os campos, vim a perceber mais tarde.

O que você leu e assistiu para se preparar, como pesquisa?
Antes de começar a escrever, mergulhei em “A Mulher do Próximo”, do Gay Talese. Gostaria de poder fazer uma reportagem daquele porte, mas não era possível. Tanto pelo tempo de apuração quanto pela devassa nas vidas de gente com nome e sobrenome. O Brasil é mais conservador do que quer parecer, aqui pouquíssima gente daria a cara a bater. Revi o filme “De Olhos Bem Fechados”, do [Stanley] Kubrick, quase por obrigação: ele é a inspiração estética de quase todas essas orgias. Li também algumas obras de não-ficção em inglês, específicas sobre swing e orgia, e um livro bem interessante sobre a história da sexualidade no Brasil: “Entre a Luxúria e o Pudor” (Octavo), de Paulo Sérgio do Carmo.

Cena de "De Olhos Bem Fechados"
Cena de “De Olhos Bem Fechados”

Quanto tempo levou do início ao ponto final? As negociações foram demoradas?
Mais ou menos um ano. Eu já tinha um trabalho prévio, de 2009, quando fui a uma dessas festas pela revista “Vip”. Ao começar a escrever o livro, o contato inicial já estava feito, então tudo fluiu rapidamente.

Depois de conhecer essa sociedade secreta, como você encara esse comportamento? O que mudou na sua visão?
É como eu digo na introdução do livro: eu entrei p&b e peguei uma corzinha antes de sair. Acho que consegui entender um pouco como eles pensam e por que são dessa forma. Perdi meu preconceito.

O jornalista Marcos Nogueira | Foto: Divulgação
O jornalista Marcos Nogueira | Foto: Divulgação

A que você credita o fascínio que reportagens relacionadas a orgias e swings exerce sobre homens, principalmente?
Falando sem rodeios: a maioria dos homens tem a fantasia de entrar num lugar desses e sair comendo geral. Não passa pela cabeça deles que isso tem uma contrapartida, que é deixar outros homens fazer sexo com a sua mulher. Quando cai a ficha, a maioria deixa de achar tão atraente a ideia de ir a uma suruba.

O sexo mudou para você depois desse livro?
Vou responder com um “sim” seco. Tá valendo?

Escrever sobre sexo é um tabu?
Como eu disse lá em cima, o Brasil é mais conservador do que quer parecer ser. Muitos temas relacionados a sexo ainda fazem as pessoas corar, sim.

*****

ArquivoExibirSinapse

  • “A Mulher do Próximo” (Companhia das Letras), de Gay Talese. No livro, o jornalista investiga o comportamento sexual dos americanos nas décadas de 60 e 70. É um clássico do chamado novo jornalismo, que mistura técnicas de literatura com as de jornalismo
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