Comentário, Ficção, Japão

Um escritor que desafiou os tabus do Japão

Após ler “Diário de um Velho Louco” (Estação Liberdade), fiquei curioso em conhecer mais da obra do japonês Junichiro Tanizaki. Nesse livro, o escritor trata de sexualidade e tabus numa sociedade que respeita as tradições e vê na ocidentalização mais do que um choque cultural, mas principalmente uma quebra de costumes ancestrais.

Nada então como aproveitar saldões e livros esquecidos nas prateleiras para comprar livros baratos – como num sebo, só que de livros novos, encontrei “Voragem” e “Há Quem Prefira Urtigas” (ambos Companhia das Letras).

Tanizaki amplia nesses dois títulos o debate entre tradição e modernização, travestida de trajes ocidentais. O escritor perpassa tabus que seriam condenados até mesmo longe do oriente para expor o quanto o choque de gerações poderia ameaçar os valores da sociedade japonesa.

VORAGEM_1385180411PEm “Voragem”, Sonoko Kakiuchi, a narradora, conhece a jovem Mitsuko num curso de artes. Encantada, ela começa uma amizade que a princípio sugere certa castidade, mas depois que Sonoko convida a jovem para posar nua a relação se amplia.

Os encontros se sucedem, tomam o tempo de Sonoko, o que leva o seu marido a questionar a amizade. Entra em cena um chantagista, que coloca em risco a relação das duas mulheres, enquanto o marido também se envolve com a jovem.

Lançado em 1931 e ambientado na década de 20, “Voragem” é um exemplo máximo da ousadia de Tanizaki. Temas como sexualidade, traição, obsessão se misturam num romance em que o desejo é muito mais do que realização. É a própria vida.

urtigas“Voragem” amplia o horizonte que o escritor havia escancarado em “Há Quem Prefira Urtigas”, lançado três anos antes, também passado na década de 20.

Neste romance, Misako, casada com Kaname, mantém uma relação aberta com seu amante, Aso. O marido conhece e permite o caso – criou até uma série de regras que permitiria o fim do casamento e a entrega total ao amante.

Para compor o quadro, o pai de Misako, um amante do teatro bunraku, é casado com uma mulher jovem e submissa. Fechando o triângulo de mulheres que dão o tom ao romance, há a prostituta Louise, a preferida de Kaname.

Essas mulheres vivem um choque cultural e têm que enfrentá-lo para sobreviver. A tradição do casamento, a submissão feminina e das gueixas se encontram com o desejo de liberdade, de mudança, algo que a sociedade japonesa na época ainda tateava.

Tanizaki explora ao máximo a sexualidade, os tabus que cercam o tema e a insere na sociedade japonesa do início do século 20. Da mesma forma que em “Diário de um Velho Louco”, em que um patriarca se encanta com a nora no fim de sua vida, o escritor não encontra limites para explorar.

O escritor japonês Junichiro Tanizaki
O escritor japonês Junichiro Tanizaki

Lidos hoje, seus livros podem incomodar um leitor mais conservador. E esse talvez seja um dos papéis da boa literatura. Tanizaki o faz sem pudor, sem amarras e coloca tradição em choque frontal com uma nova revolução de costumes.

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